Cobertura do Lumen – Festival de Cinema Independente do Rio de Janeiro
JAMEX e o Fim do Medo é rebelde já em sua concepção. Para realizar o longa-metragem, o diretor e roteirista Ramon Coutinho fez uso de um edital de curta-metragem para conseguir os meios de produção e faz dessa escassez orçamentária seu trunfo. Diante de um cinema cada vez mais formatado para o maior número possível de telas, há prazer em testemunhar certa aspereza e inventividade que, com ferramentas mais “tradicionais”, talvez não aparecessem.
E falo de aspereza não para sugerir que a obra seja de difícil compreensão, pelo contrário, sua estrutura narrativa é bastante simples. Jamex, estilizado como JAMEX, é um artista de Salvador que produz artes visuais baseadas em suas próprias vivências. No filme, ele também é artista, mas agora habita a cidade fictícia de Salvadolores, marcada por altos níveis de radiação em algumas regiões.
É nesse cenário que ele recebe uma ligação do enigmático Xinoda (Jacopo Casens), interessado em adquirir uma de suas obras, que deve ser entregue pessoalmente. Para isso, JAMEX precisará cruzar toda a cidade e, ao final da jornada, ser recompensado pelo seu suado esforço.
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Ir do ponto A até o ponto B. Mas, como diz o clichê, não é sobre o destino, e sim sobre a jornada. O trajeto é uma enorme brincadeira, tanto a nível formal quanto narrativo. Coutinho transforma o percurso de JAMEX em um verdadeiro laboratório de experimentação visual, aderindo até mesmo ao formato VHS em certos trechos. A montagem abandona a fluidez meramente narrativa, repetindo e distorcendo imagens para criar novas sensações.

No plano narrativo, o mesmo espírito lúdico se manifesta em cenas dignas de desenhos dos anos 80, especialmente na sequência em que o protagonista tem o quadro furtado por uma misteriosa figura chamada Sungarói (Ciro Garcez), que veste tênis e, é claro, uma sunga.
JAMEX e o Fim do Medo aproveita também para convidar à contemplação a outras formas de arte. Aqui e ali, o filme cede espaço para uma cena de dança, observar quadros ou observar um cantor exercendo o seu ofício. É um filme de encontros, entre pessoas e formatos.
Mas entre a brincadeira e a celebração de outras formas de arte, há uma veia crítica forte. É simbólico que a imagem final do filme seja a de um entregador de Ifood partindo para realizar mais uma encomenda, rompendo com a ficção do filme. O que é o artista, hoje, se não mais um trabalhador precarizado, a mercê da boa vontade de uma elite que só liga para ela própria.
Assim, JAMEX e o Fim do Medo brinca e se diverte com seu universo levemente cyberpunk, com óculos protetores de radiação e zonas contaminadas, mas que nunca perde de vista a realidade social que sustenta a ficção, assim como não se rende as dificuldades de criar nessa realidade. O importante é não ter medo de fazer arte!

