Sonho Elétrico é uma criação da Companhia Brasileira de Teatro, com texto e direção de Marcio Abreu a partir do diálogo com a obra do escritor, capoerista e neurocientista, Sidarta Ribeiro, em especial o livro Sonho Manifesto: Dez exercícios urgentes de otimismo apocalíptico.
Sonho Elétrico de Marcio Abreu destaca-se por sua dramaturgia ousada e poética, que traduz com inventividade as ideias de Sidarta Ribeiro para a cena. A estrutura pós-dramática, com sua quebra de ilusão teatral e jogos de realidade/ficção (como a cena metalinguística da banda), cria um discurso cênico potente sobre sonhos como ato político. A fusão entre elementos narrativos e experimentais – o coma como limiar, a tempestade como metáfora do colapso – materializa com força visual o conceito de “otimismo apocalíptico”. Embora por vezes a densidade conceitual sobrepuje o fluxo cênico, a peça brilha ao transformar teoria em experiência sensível, propondo o teatro como espaço de reinvenção da vida. A encenação prova que sonhar pode, de fato, ser um ato revolucionário.

O elenco de Sonho Elétrico — formado por Jesuíta Barbosa, Jéssyca Meireles, Idylla Silmarovi e Cleomácio Inácio — entrega uma performance coletiva de altíssimo nível técnico e expressivo. A precisão do trabalho corporal, com movimentos sincronizados e ações arriscadas executadas com maestria, revela não apenas um rigoroso preparo físico, mas também uma sintonia rara entre os atores, essencial para a proposta pós-dramática da encenação. A clareza na dicção e a qualidade vocal (tanto na fala quanto no canto) reforçam sua versatilidade, enquanto a entrega emocional equilibra o tom político e poético da peça. Jesuíta Barbosa destaca-se pela presença magnética na cena confessional inicial, mas é a coesão do grupo, capaz de transitar entre a metalinguagem da banda, o fluxo onírico e a fisicalidade extrema, que sustenta a força da encenação. Um elenco que domina tanto a técnica quanto a potência performática, transformando conceitos abstratos em corpo, voz e verdade cênica.
A equipe técnica de Sonho Elétrico demonstra um apuro estético excepcional, criando uma linguagem visual que dialoga perfeitamente com a proposta conceitual do espetáculo. A cenografia de Marcio Abreu, José Maria e Nadja Naira — com suas placas modulares pretas e brancas que expandem e contraem o espaço cênico — funciona como uma metáfora plástica da mente em estado onírico, transformando o palco em um território de transição entre realidade e sonho. A iluminação de Nadja Naira é precisa e poética, alternando entre a crueza do “show de banda” e a atmosfera etérea dos delírios, enquanto os figurinos de Luís Cláudio Silva equilibram cores vibrantes e cortes minimalistas, reforçando a dualidade entre explosão e contenção. Juntas, essas escolhas técnicas não apenas sustentam a narrativa, mas elevam a experiência sensorial, provando que a materialidade cênica pode ser tão revolucionária quanto as ideias que representa.

Leia também: “A Médica”: espetáculo questiona os limites da medicina e da religião
A direção de Marcio Abreu em Sonho Elétrico revela uma maestria em harmonizar conceito e cena, transformando as complexas ideias de Sidarta Ribeiro em teatro visceral e pulsante. Com um olhar ao mesmo tempo preciso e orgânico, Abreu conduz o espetáculo entre diferentes registros, sem perder a força narrativa ou o impacto político. Seu trabalho com o elenco é notável em extrair performances técnica e emocionalmente potentes, mantendo uma coesão grupal que sustenta a proposta pós-dramática. A maneira como articula os elementos técnicos (cenografia, luz, figurino) demonstra uma visão de conjunto onde forma e conteúdo se fundem. Abreu não apenas domina a construção de atmosferas, como também imprime ao espetáculo um ritmo cinematográfico que prende do início ao fim.

Sonho Elétrico não é somente um espetáculo, mas um manifesto cênico que materializa com rara potência as ideias de Sidarta Ribeiro. Entre a urgência do colapso e a delicadeza dos sonhos, Marcio Abreu e sua equipe criam uma experiência teatral que vibra entre o cerebral e o visceral, demonstrando que o palco pode ser tanto laboratório de ideias quanto espaço de revolução sensível. Com um elenco afinadíssimo, uma direção que domina forma e conteúdo, e uma equipe técnica que transforma conceitos em imagens impactantes, a peça cumpre seu propósito maior: fazer do sonho um ato político coletivo. Mais que assistir, o público é convidado a acordar, e eis aqui o maior feito desta criação.
FICHA TÉCNICA:
Texto e Direção: Marcio Abreu
Pesquisa e criação: Marcio Abreu, Nadja Naira, Cássia Damasceno e José Maria
Elenco e criação: Jesuíta Barbosa, Jéssyca Meireles, Idylla Silmarovi e Cleomácio Inácio
Interlocução teórica e criativa: Sidarta Ribeiro
Direção técnica, Iluminação e assistência de direção: Nadja Naira
Direção de produção e administração: José Maria e Cássia Damasceno
Direção Musical e Trilha Sonora Original: Felipe Storino
Direção de Movimento e colaboração criativa: Key Sawao
Assistência de direção e colaboração criativa: Fábio Osório Monteiro
Música “Armadilha” e colaboração criativa musical: Juliana Linhares
Música “Emaranhada”: Juliano Holanda
Pianista em cena: Luís Chamis e Stephanie Borgani (em alternância)
Figurinos: Luís Cláudio Silva | Apartamento 03
Cenografia: Marcio Abreu, José Maria e Nadja Naira
Assistência de dramaturgia e colaboração criativa: Aislan Salomão
Assistência de produção e arte: Taís Morgado
Design e técnico de som: Luan Casado e Felipe Grilo
Assistência de iluminação, programação e operação de luz: Ricardo Barbosa e Sibila Gomes
Assistência de cenografia e desenhos técnicos: Luana Gattoni
Cenotécnicos e maquinistas: Alexander Peixoto da Silva, Douglas Caldas, Brunno S. Guadanholi, Gonçalo Neres, Luís Carlos Ferreira
Camareira: Cristiane Ferreira da Silva
Fotos: Aristeu Araújo e Ethel Braga
Programação visual: Pablito Kucarz
Mídias Sociais: Kalindi D’Elia
Imagens e registro videográfico: Elisa Mendes
Assessoria de Imprensa: FT Estratégias – Fernanda Thompson e Bárbara Godoy

