O reaparecimento de um datiloscrito inédito de Clarice Lispector reacende debates sobre memória literária, preservação de acervos e circulação de obras fundamentais da literatura brasileira. Trata-se de uma versão de A Hora da Estrela, último livro publicado em vida pela autora, em 1977, apenas dois meses antes de sua morte.
O original havia sido enviado por Clarice ao crítico Eduardo Portella, responsável pelo prefácio da primeira edição. No entanto, o material nunca retornou à escritora, permanecendo por décadas sob a guarda do crítico. Relatos de pessoas próximas indicam que ele mantinha um acervo vasto, marcado mais pelo acúmulo de leituras do que por uma organização sistemática, o que torna plausível o desaparecimento prolongado desse documento.

O datiloscrito, agora revelado, reúne 62 páginas com intervenções manuscritas da própria autora! As marcas de revisão mostram um processo de escrita incrível, pois há cortes em dedicatórias, ajustes pontuais e alterações nos títulos alternativos que abrem o romance. Entre eles, destaca-se a substituição de “O piquenique dos mendigos” por “Ela não sabe gritar”, mudança que talvez aponte para uma reorientação do eixo simbólico da obra.
O material foi oferecido ao Instituto Moreira Salles, que já abriga parte expressiva do acervo clariceano. Após avaliação da pesquisadora Teresa Montero, a autenticidade foi confirmada. Ainda assim, o instituto optou por não adquirir o documento, alegando possuir outra versão datilografada do romance, embora seja esta esteja incompleta e menos próxima da forma final publicada.
A decisão abre espaço para um impasse: o proprietário do material, ligado à livraria Letra Viva, planeja leiloar o conjunto, que inclui não apenas o datiloscrito, mas também livros autografados, documentos e correspondências. O lance inicial estipulado, de R$ 375 mil, insere o manuscrito em um circuito de alto valor simbólico, deslocando-o potencialmente do campo público para o privado.
Diante desse cenário, pesquisadores manifestam preocupação com a possibilidade de o acervo deixar o país. Para Rachel Valença, a saída desse material representaria uma perda significativa para os estudos literários no Brasil. Para ela, a permanência do documento em território nacional é de responsabilidade cultural, pois trata-se de garantir que os vestígios do processo criativo de Clarice permaneçam disponíveis para leitura, interpretação e reescrita crítica.

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Podemos concluir, assim, que o datiloscrito pressiona questões centrais da crítica literária contemporânea: quem tem direito à memória de um autor? Como se distribuem os arquivos da literatura? E, sobretudo, o que se perde (ou se transforma) quando um texto deixa de ser apenas obra publicada para revelar seus bastidores de criação?

