O que é próprio de cada ser e o que pode ser transmitido de geração em geração? Vamos afunilar mais a pergunta: a violência sofrida por uma geração pode afetar as seguintes? Esta é a pergunta que Letícia Simões tenta responder narrando histórias duras de sua própria família em “A Vida Secreta de Meus Três Homens”.
Os três homens que moldaram a vida de Letícia estão sentados numa mesa a convite dela: seu pai Fernando, delator da ditadura, seu padrinho Sebastião, nas palavras dela “uma bicha preta”, e seu avô Arnaud, cangaceiro. É o tipo de reunião que só o cinema torna possível.
São escalados atores para viver cada um dos homens. Assim, personificamos pai, padrinho e avô, com a curiosa escolha de fazer do mais jovem o intérprete do avô porque foi na juventude que o avô viveu os fatos narrados. Com a personificação, torna-se possível que o avô (Guga Patriota) receba um afago da neta, que pai (Giordano Castro) e filha discutam a relação e que o padrinho (Murilo Sampaio) conte sua história de amor. A neta e a filha, no caso, são amalgamadas na narradora interpretada por Nash Laila, que sabe provocar seus interlocutores.

Momentos da nossa História são contados para ilustrar conceitos, como a persistência do dono da capitania hereditária na figura do coronel, a trajetória de Jesuíno Brilhante, nosso primeiro cangaceiro, e a violência que foi pilastra na fundação do estado de Sergipe. Violência, aliás, é o que perpassa a vida dos três homens.
Ao explicar o que é catequese e dizer sempre que as cidades mencionadas se localizam no “Nordeste do Brasil”, fica claro que o filme foi pensado também tendo em mente uma audiência internacional. E de fato ele passou por alguns festivais internacionais de documentários, como o Hot Docs. Explicar o Brasil para os gringos, ainda mais agora que estamos em evidência no mundo todo, pode ser uma tarefa divertida, mas o didatismo pode também incomodar o público brasileiro que sabe bem o que é catequese.
Nas narrações de Arnaud, destacam-se passagens tristes e até mesmo revoltantes, como a inanição dos adultos quando sua irmã foi violentada. Na vida de Fernando, salta aos olhos a singularidade de suas vivências, desde menino com o pai e o tio disputando a eleição para prefeito, na pequena cidade em que viviam, como quem disputa um duelo pela vida. No compartilhamento de impressões de Sebastião, com algumas frases ecoadas pela narradora, encontramos um mergulho radical na intimidade dele e de tantos outros como ele num passado (mais) preconceituoso.
Letícia nos conta, em primeira pessoa, que existe um tabu em torno do SNI, Serviço Nacional de Informações. Um órgão que perseguia “subversivos” mas que não documentava seus passos e tampouco seus agentes, de modo que nunca seremos capazes de provar que Fulano ou, aqui, Fernando Simões foram delatores da ditadura. Letícia juntou as peças do quebra-cabeça ao comparar fotos caseiras e dados presentes nos arquivos da Comissão da Verdade, recurso valiosíssimo para pesquisa histórica.

Sobre seu processo de pesquisa que desembocou no documentário, em especial com as imagens do pai, Letícia declara:
“Através de um exercício de encarar uma imagem e escutá-la, interrogá-la, atravessá-la. Mesmo sabendo que uma imagem, por fim, é silenciosa. Só nos resta indagar, criar os acontecimentos em torno dela”
Logo no começo do filme, a narradora diz que “esse país é um pesadelo com ótimos cenários”. Talvez seja uma frase inserida num filme que começou a ser feito em tempos menos esperançosos. Mas não se engane: no Brasil, assim como num mundo erguido em torno da violência, é preciso sempre estar atento e forte.
“A Vida Secreta de Meus Três Homens” estreia nos cinemas em 05 de março, distribuído pela Embaúba Filmes. Confira o trailer:
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