Em 2025, durante uma entrevista ao programa Persona da TV Cultura, Emilio de Mello cita sobre o poder das dramaturgias clássicas e ressalta seu apreço pela escolha desses textos para os seus trabalhos no teatro. Não muito tempo temos a montagem do espetáculo Dois Patrões, baseada na obra de Carlo Goldoni “Arlequim, Servidor de Dois Amos” encabeçada por Giovani Tozi, e um grupo de artistas potentes e singular.
O espetáculo começa antes mesmo das luzes se apagarem, quando temos a apresentação do vídeo de Neyde Veneziano, que assina a direção junto a Tozi. Em sua apresentação, ela trás um panorama sobre a Commedia dell’Arte, sobre o seu movimento artístico, e sobre a importância da atualização dos temas, algo que já ocorria no século XVIII, por se tratar de um teatro de rua. Essa breve apresentação dá força ao espetáculo para que o publico consiga se adaptar ao que virá.
Em Dois Patrões, a história se embaralha de vez quando Beatriz Rasponi, interpretada por Larissa Ferrara, aparece vestida como o próprio irmão, Frederico Rasponi, para tentar recuperar o dinheiro que ele havia deixado escondido com Pantaleão. Como esse irmão tinha um casamento arranjado com Clarice, Frederico precisa sustentar a farsa e simular um interesse amoroso que nunca existiu. Nesta versão, Pantaleão é um bicheiro que deseja casar a filha para estabilizar (e lucrar) a divisão de territórios vizinhos. O Doutor segue advogando, mas agora presta serviço para os bicheiros que aumentam sua fortuna. A história inteira acontece dentro de uma festa de noivado que nunca termina, um ambiente onde todos parecem ser “inimigos do fim”.

A dramaturgia da montagem de Dois Patrões evidencia uma adaptação brilhante e contemporânea da obra clássica de Goldoni, que respeita a tradição da Commedia dell’Arte mas a transplanta com maestria para um contexto brasileiro atual. Sob a adaptação de Giovani Tozi, a peça mantém o enredo de identidades trocadas e intrigas, mas substitui as elites originais por figuras do universo do jogo do bicho, como Pantaleão bicheiro e o Doutor advogado de criminosos, criando uma sátira afiada sobre poder, corrupção e estratificação social no Brasil. Além disso, a dramaturgia amplifica a crítica social ao representar, através da figura do Arlequim sempre em ação, a precarização do trabalhador e a luta pelo básico, contrastando com a ociosidade dos privilegiados. Essa atualização não é apenas cenográfica, mas estrutural, inserindo os temas universais da obra – como o conflito de classes, o engodo e a sobrevivência – em um ambiente reconhecível e potente (a festa de noivado interminável e a dinâmica de máfia), demonstrando como os textos clássicos, quando reinventados com inteligência, mantêm seu poder de reflexão e entretenimento.
A qualidade do elenco de Dois Patrões reside, em primeiro plano, na sua formação coletiva e na harmonia orgânica alcançada entre três gerações distintas de atores. Essa heterogeneidade, longe de ser um obstáculo, gera uma química cênica rara e um trabalho de conjunto maestral, que materializa o conceito stanislavskiano de “ator criador”. O grupo demonstra uma capacidade unificada de sustentar a complexa engrenagem de intrigas e identidades trocadas da trama, imprimindo um ritmo preciso e uma unidade de ação que mantêm o público integralmente envolvido. Eles não apenas executam a dramaturgia, mas a respiram, criando dinâmicas imprevisíveis e cenas que são são, mesmo tempo, fiéis à tradição da Commedia dell’Arte e frescas em sua abordagem contemporânea.
Essa excelência coletiva é potencializada por atuações individuais de alto impacto, que aprofundam a sátira social da adaptação. Felipe Hintze destaca-se por um timing cômico impecável, traduzindo questões complexas como a precarização do trabalho com naturalidade e humor. Marcus Veríssimo impressiona pela versatilidade física e vocal, equilibrando com genialidade a tensão e a comicidade. Larissa Ferrara constrói com nuance visceral a dualidade angustiante de sua personagem, enquanto Marcelo Lazzaratto como Pantaleão, vai além do arquétipo do velho cobiçoso, colocando em cena sua pesquisa “Campo de Visão” para imprimir uma belíssima plasticidade cênica. Juntos a Camilla Camargo, Gabriel Ferrara, Gabriel Santana, Jonathas Joba, Mila Ribeiro e Nando Pradho, este elenco não interpretam personagens isolados, mas encarnam as forças sociais em conflito, dando corpo e veracidade emocional à crítica poderosa do espetáculo, e provando que a qualidade de um elenco se mede tanto pela sua coesão quanto pelo brilho singular de seus componentes.

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A direção de Neyde Veneziano e Giovani Tozi em Dois Patrões demonstra uma qualidade excepcional, que se revela tanto na clareza conceitual quanto na habilidade de executar uma visão coesa e inovadora. A dupla direcional estabelece, com inteligência, um contrato pedagógico com o público desde o prólogo em vídeo, contextualizando a tradição da Commedia dell’Arte e sinalizando sua atualização, o que facilita a aceitação da transposição para o universo do jogo do bicho. Essa qualidade se consolida na capacidade de harmonizar elementos díspares: a fidelidade aos arquétipos e à mecânica clássica com uma sátira social brasileira afiada, o trabalho de um elenco multigeracional com linguagens particulares, e a integração de elementos como coreografias que amplificam a tensão cênica. O resultado é uma direção que não apenas orquestra com maestria todos os elementos da encenação, mas que cultiva um ambiente de admiração mútua e risco criativo, gerando um espetáculo onde a poder da dramaturgia e a força das atuações são potencializadas por escolhas cênicas precisas e um ritmo implacável.
Acredito que a montagem de Dois Patrões se torna um exemplo de como revitalizar um texto clássico. Ao realizar uma transposição cultural corajosa e precisa para o submundo do jogo do bicho, a peça não apenas preserva o espírito lúdico e a mecânica infalível da Commedia dell’Arte, mas também a transforma em um instrumento de sátira social contundente e profundamente brasileira. Este sucesso é o fruto de uma rara sinergia criativa: uma direção inteligente e clarividente, que estabelece as bases conceituais e rítmicas; uma dramaturgia afiada, que atualiza os conflitos sem trair suas essências; e, sobretudo, um elenco coeso e virtuoso, capaz de respirar vida coletiva e verdade individual a cada arquétipo. Juntos, demonstram que o poder de reflexão dos clássicos é, de fato, eterno, mas que seu pulso contemporâneo depende de ousadia, talento e uma visão de conjunto tão brilhante quanto a aqui apresentada.

FICHA TÉCNICA:
Texto: Carlo Goldoni.
Tradução: Neyde Veneziano.
Adaptação: Giovani Tozi.
Direção: Neyde Veneziano e Giovani Tozi.
Elenco: Camilla Camargo, Felipe Hintze, Gabriel Ferrara, Gabriel Santana, Larissa Ferrara, Jonathas Joba, Marcelo Lazzaratto, Marcus Veríssimo, Mila Ribeiro e Nando Pradho.
Cenógrafo e diretor de arte gráfica: Giovani Tozi.
Design de luz: Cesar Pivetti.
Figurinista: Gi Marcondes.
Trilha Sonora Original: Nando Pradho.
Assessoria de Imprensa: Arteplural – M Fernanda Teixeira e Maurício Barreira. Fotografia: Priscila Prade. Video: Luz Audiovisual. Redes socais: André Massa. Design gráfico: Gigi Prade.
Direção de Produção: Giovani Tozi.
Produção Executiva: Thomas Marcondes.
Assistente de Produção: Pedro Sousa.
Assessoria de Imprensa: – Arteplural – M Fernanda Teixeira e Maurício Barreira
Administração Financeira: Carlos Gustavo Poggio. Realização: Corpos Sensores Produtores Culturais.
SERVIÇO:
Teatro Itália (Edifício Itália)
Av. Ipiranga, 344 – República
(11) 5468-8382 | @teatroitalia_oficial
Sexta e sábado às 20h | Domingo às 18h
Sympla: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada)
Até 01 de março

