É muito bom ser surpreendido e arrebatado por uma história, mas encontrar-se no conforto do esperado também tem o seu valor. Acredito, inclusive, que muito do sucesso do que o mercado editorial convencionou chamar de “ficção de cura” venha desse sentimento. Histórias curtas, agradáveis e que demandam do leitor apenas um coração disposto a ouvir.

“Ouvir” Sentaro, jovem solitário, com histórico criminal, que bebe demais e está sem qualquer perspectiva de futuro. “Ouvir” Tokue, uma idosa com mãos deformadas e um passado doloroso repleto de limitações. É do improvável encontro desses personagens que Durian Sukegawa promete e entrega uma narrativa sobre superação, amizade e dar o devido valor às coisas simples da vida em “Doce Tóquio”, traduzido por Sandra Keika e publicado pela editora Morro Branco.
Sentaro toca praticamente sozinho uma pequena loja de dorayaki, doce tradicional japonês recheado com pasta de feijão, mas ele não é o dono. Seu sonho, na verdade, era ser escritor, algo que foi deixado para trás junto à sua ficha limpa.
Na Doraharu, ele trabalha no automático até conhecer Tokue, que começa a aparecer em frente à loja todos os dias até ser contratada por um valor muito abaixo do aceitável. Ela queria se sentir útil e encontrou esse espaço, já que a pasta de feijão doce semipronta que Sentaro utilizava também não era nem um pouco aceitável, e ela lhe ensina a fazê-la do zero: faltava sentimento, parafraseando Tokue.
Tendo o belo ciclo das cerejeiras marcando a passagem do tempo, acompanhamos o surgimento dessa inusitada amizade em meio a panelas, texturas e sabores.
Com a nova receita, a demanda pelos dorayaki explode e, dentre a enorme clientela, uma estudante se destaca e entra para a narrativa. Wakana-chan é uma adolescente calada que tem seus próprios fantasmas e acaba se aproximando da idosa cujo sonho de infância era ser professora. Contudo, Tokue esconde um segredo por trás de suas mãos tortas e quando ele vem à tona, o preconceito das pessoas coloca a loja em risco.

Tokue passou a vida se sentindo inútil para a sociedade, mas encontrou nas pequenas coisas, principalmente na cozinha e nos doces, não só paz, mas também um propósito que vai além da ideia liberal de utilidade. Essa, inclusive, parece ser a maior lição de vida, comum nesse tipo de narrativa, que o autor queria transmitir. É a receita dela, a história de vida dela que inspira Sentaro a ver a vida com olhos mais esperançosos, com um olhar mais doce. Talvez tivesse sido interessante que Tokue fosse o foco, já que ela é a personagem na qual se reúnem as tragédias da história, fosse o foco, mas o autor escolheu outro caminho: colocar Sentaro como protagonista e, a partir da relação entre os dois, mostrar o amadurecimento do personagem.
“Seus olhos eram muito tristes. Você estava com tal expressão que eu queria perguntar por que você estava sofrendo tanto. Foi isso o que vi: o mesmo olhar que eu tinha quando entendi que não poderia sair da cerca de azevinhos. Por isso me senti atraída e, quando vi, estava de frente para a confeitaria.”
Com estilo simples e narrativa leve, mas que apela para os nossos sentimentos e emoções, como disse no início desse texto, Sukegawa entrega o que uma ficção de cura promete. Nem sempre precisamos ser sacudidos, às vezes, um abraço é tudo do que carecemos.

