Ela chegou praticamente sem avisar e hoje domina conversas em diversos círculos e é assunto de debates em praticamente todos os locais, da sala de aula ao consultório médico, passando por locais de trabalho variados. A Inteligência Artificial, ou IA para abreviar, já fazia parte de nosso cotidiano com algoritmos de redes sociais, sugestões de o que ver e ouvir em seguida na Netflix e Spotify e em chatbots de atendimento ao cliente, só para citar alguns de seus usos. Agora, ela ameaça postos de emprego e pode substituir trabalhadores em funções variadas em praticamente todas as indústrias – mas e no audiovisual, que trabalha com a imaginação, como é que fica?
A Inteligência Artificial pressupõe que máquinas são capazes de aprender, tomar decisões e criar. Elas fazem isso a partir de prompts, comandos dados pelo usuário que, quanto mais precisos forem, melhor será o resultado. De repente, os filmes passam a não ter mais diretores, mas sim criadores como os conteúdos que produzimos e consumimos nas redes sociais.
Algumas pessoas também apontam que a IA pode refazer sequências ou mesmo todo o filme quando o assunto é lost media. Estima-se que a maioria dos filmes mudos tenha se perdido, e com a IA eles poderiam ser reconstruídos e teríamos assim experiências próximas do que foi ver estes filmes há um século, embora, em se tratando de criar cenas, a IA provavelmente será mais usada na criação de deepfakes que na reconstrução de filmes mudos. Um uso recente da tecnologia afetando a história do cinema é a exibição de “O Mágico de Oz” no teatro Sphere em Las Vegas (abaixo). Com tela curvada e gigante, foi necessário expandir o foco de diversas cenas, aumentando backgrounds e até inserindo personagens que estavam originalmente fora do quadro. A iniciativa foi por isso alvo de duras críticas por “macular” um clássico.

A IA pode ajudar, em grau variado dependendo da vontade e destreza do usuário, em todas as fases da produção audiovisual, do roteiro à distribuição. Na parte de criação, ela pode desde criar um background para uma cena que seria gravada normalmente em frente à chroma key, até substituir atores de verdade ou extras. E é aí que surgem os perigos da IA, para além da dependência da tecnologia e menos discernimento e raciocínio: a IA vai roubar o lugar do ser humano?
A polêmica do Festival de Gramado
É neste ambiente caudaloso, no qual parecemos cobertos até os joelhos de areia movediça, que uma decisão no 53º Festival de Cinema de Gramado, um dos mais importantes do país, surgiu para colocar ainda mais lenha na fogueira. Parte do evento é uma mostra online com voto popular em que há uma categoria de filmes feitos com IA. Alguns aplaudiram, mas muitos criticaram.
As primeiras reações negativas vieram nas redes sociais, reclamando de falta de respeito com o trabalho criativo que deveria estar no centro do festival. Defendeu-se fazer um painel ou uma mesa redonda sobre o tema em vez de equiparar estes filmes a filmes “de verdade” e colocá-los em competição, ainda que seja só entre eles. Uma seguidora da conta do festival no Instagram foi mais além e escreveu:
“Usar ferramentas de IA para trazer acessibilidade comunicacional (legendas ao vivo, por exemplo) para o festival? Não! Apoiar a substituição do trabalho artístico humano feito com tanto suor e perrengue, por IA? Sim! Se você esperar sempre o pior do festival, nunca vai se surpreender”.
Ao todo, 52 curtas-metragens foram inscritos na categoria, com quatro sendo selecionados para exibição e votação.
Vamos aos filmes

Em “Antes do Beijo” (acima), de Leandro Corinto, diversas pessoas – também geradas por IA, nada de atores em carne e osso em um filme tão carnal – prestes a se beijarem aparecem na tela acompanhadas de uma narração sobre o momento que antecede esse gesto humano tão significativo, o beijo. É irônico pensar que tudo foi feito por IA, ainda mais considerando o tema tão… humano.
Com imagens geradas pelo Google Veo3, “As Marcas nas Paredes”, de Marcio Toson, rememora a recente tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, com um pai e sua filha voltando para a casa que foi arrasada pelas águas. A imagem é bastante escura, apelando para criar em nós a sensação de tristeza e desolação dos “personagens”. Além do uso de imagens e sons por IA, nos créditos, Toson revela que precisou refinar os prompts usando Google Gemini.
Alguém que assina apenas como Mr.press nos convida a acompanhar um morador de rua e seu novo amigo canino em “Frio”. O cão é muito lustroso, gritando que se trata de IA, mas a exatidão da recriação humana assusta. As músicas não são originais, incluindo a famosa “Feeling Good”.
Narrado em inglês por uma voz de IA surpreendentemente semelhante à voz humana, “Inheritance – Beneath the Wheel” começa de maneira metalinguística narrando a extinção humana causada pela Inteligência Artificial e a ascensão da nova espécie dominante: os hamsters. Muito bem-humorada, usando diversos recursos de IA, saiu da mente de Gabriel Panazio, que fez os prompts e editou os resultados.
A análise
A seleção acabou ficando pequena, mas robusta. Os quatro filmes feitos por IA conseguem engajar e até emocionar, assim como as películas “normais”. Quem as vê pensa que estamos indo numa boa direção, e que as reclamações com o uso das novas tecnologias espelham medos anteriores, como o do próprio computador para uso no audiovisual, que acabou gerando novos postos de trabalho em vez de deixar milhões desempregados.

Também salta aos olhos na seleção o fato de que três dos quatro filmes foram “dirigidos” por homens, e o quarto não se pode afirmar com certeza. Isso aponta para a necessidade de políticas públicas para que não aumente o gap entre homens e mulheres nas áreas de STEM – Ciência, Tecnologia, Engenharias e Matemática. Meninas e mulheres também são aptas e criativas para mexerem com IA e devem ser incentivadas a fazê-lo para não ficarem para trás.
Concluindo…
Num curso recente que fiz sobre IA, ouvi que “robôs humanizados só substituirão humanos robotizados”. Para não ficar nas frases feitas, vamos ouvir a opinião da primeira programadora da História, Ada Lovelace (1815-1852): sem a ajuda de humanos, as máquinas não podem criar nada novo. Nos filmes supracitados, a criatividade veio de mentes humanas para burilar as tramas. O uso consciente da IA ainda está nas nossas mãos – vejamos por quanto tempo.

