A escrita sem autoria ,quase sempre, é de uma mulher, como diria Virgínia Woolf. Seres desprovidos de opiniões e vontades, elas, de alguma forma, expressavam-se em silêncio. Dessa vez, usaram a gastronomia como meio de manifestação. A jornalista e escritora Yanet Acosta resgatou mais de 5000 manuscritos de receitas dos séculos XVIII e XX das Ilhas Canárias, na Espanha. As mulheres cozinhavam, mas deixavam, literalmente, nas margens dos papéis, os resquícios de seu tempo.
A motivação de Acosta foi se reconectar com suas raízes, já que estava há muito tempo longe das Ilhas Canárias. Além disso, afirma ao jornal El País que há poucas pesquisas sobre o assunto.
“Queríamos compartilhar a existência desses documentos valiosos porque, por um lado, eles são patrimônio material, porque são livros de receitas, e, por outro, são patrimônio imaterial, porque contêm a história de muitas mulheres e sua culinária.”

Há receitas em papéis timbrados do exército espanhol, anotações em anúncios da morte de um papa e escritos culinários nas margens de crises políticas. Uma mulher, por exemplo, fez de seu caderno de receitas um registro íntimo que percorreu sete anos da trajetória de sua família. Já outras utilizavam a escrita culinária como modo de transmitir às filhas uma herança carregada de afeto. Preparar alimentos era, para muitas, uma maneira de afirmar sua presença no mundo.
As próprias receitas deixam suas marcas históricas. A banana só passou a fazer parte da culinária quando a elite passou a comê-la em doces, em forma de pudim. Antes, era comida ainda verde e substituía a batata para a camada mais pobre da sociedade. As receitas, a cozinha e seus ingredientes mostram-nos que cozinhar — ação muitas vezes feita por mulheres — é sobre silêncio e memória.
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