A obra “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, apresenta a personagem Macabéa, uma nordestina pobre, na maior parte do tempo também desajeitada, que migra para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Trago aqui uma hipótese de que seu nome seja carregado de significados simbólicos, oferecendo uma oportunidade para investigar os aspectos sócio-histórico-culturais do povo nordestino em uma determinada época. Busquei, então, elucidar como o nome Macabéa reflete a identidade cultural, social e histórica de uma classe marginalizada no Brasil, ao mesmo tempo que destaca a introspecção característica da obra de Clarice Lispector e a sua transfiguração identitária ao longo da obra, além da influência de sua origem judaica.
Clarice Lispector nasceu em 1920, na Ucrânia, em uma família judaica que imigrou para o Brasil fugindo das perseguições e dos pogroms que assolavam os judeus na Europa Oriental. Essa experiência de deslocamento, talvez a busca por uma nova vida marcou, de forma interna e externa, a vida e a obra da autora, refletindo-se em seus personagens e temas literários.
A herança judaica de Lispector pode ser percebida em sua constante busca por identidade e sentido, assim como em seu constante questionamento existencial. Em “A Hora da Estrela”, essa introspecção se manifesta tanto na figura da narradora, Rodrigo S.M., quanto na personagem Macabéa.
O nome Macabéa não é comum e minha inquietação partiu disso. Por que Clarice teria escolhido justamente esse nome para a sua protagonista? Será que ela queria enfatizar a singularidade e a tragédia da personagem? De qualquer forma, descobri que o nome da nossa querida datilógrafa é derivado dos “Macabeus”, figuras bíblicas que representam resistência, mas o nome contrasta com a fragilidade e passividade de Macabéa, o que ressalta a ironia e a crítica social que são tão próprias de Clarice. O nome “Macabéa” também pode significar “lutadora” (derivada de “Matzbi”, que significa “general” ou “comandante de um exército), o que abre interpretação para a luta da própria personagem para encontrar seu lugar no mundo.
Primeiramente, a história dos Macabeus é relatada nos livros de 1 Macabeus e 2 Macabeus, que são parte dos livros deuterocanônicos do Antigo Testamento da Bíblia católica e dos livros apócrifos para as igrejas protestantes. Esses textos contam a história de uma revolta dos judeus contra o domínio selêucida no século II a.C. A revolta começou em 167 a.C., liderada por Matatias, um sacerdote judeu de Modin, e seus cinco filhos: João, Simão, Judas, Eleazar e Jônatas. Judas, chamado de “Macabeu” (possivelmente derivado da palavra aramaica “maqqaba/maqqabh”, que significa “martelo”), se destacou como líder militar após a morte de Matatias.
Macabéa, por sua vez, é uma representante típica dos migrantes nordestinos da década de 1970, época marcada por um intenso êxodo rural em busca de melhores condições de vida nas grandes cidades do Sudeste brasileiro. A personagem aqui simboliza a luta desses migrantes, que enfrentaram preconceitos e dificuldades extremas. Assim, a origem de Macabéa remete ao sertão nordestino, uma região historicamente afetada pela falta de investimentos e oportunidades. Seu nome, portanto, carrega a memória coletiva de um povo resiliente. Ao migrar para o Rio de Janeiro, Macabéa enfrenta o desafio de se adaptar a um novo ambiente urbano e hostil. A interpretação do nome aqui poderia revelar a tensão entre a identidade nordestina e a tentativa de assimilação na sociedade carioca, evidenciando a marginalização e a exclusão social que os migrantes enfrentavam.
Voltando à referência bíblica no nome Macabéa, essa análise pode ser vista como uma alusão à fé e à religiosidade do povo nordestino. No entanto, ao contrário dos Macabeus, Macabéa não consegue resistir ou lutar contra seu destino, o que destaca a crítica de Clarice Lispector à condição humana e à passividade social.
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Clarice Lispector, ainda, é conhecida por sua escrita introspectiva e pela exploração dos estados emocionais e existenciais de seus personagens. Em “A Hora da Estrela”, essa introspecção é mascarada tanto na figura de Macabéa quanto na do narrador, Rodrigo S.M. Macabéa, como sabemos, é uma personagem que vive na superficialidade de sua existência, sem plena consciência de si mesma ou de sua situação. Sua ignorância e passividade são, na verdade, um reflexo do recolhimento e da busca por sentido que permeiam a obra de Clarice. A simplicidade de Macabéa contrasta com a complexidade de sua criação. Já o narrador Rodrigo S.M.,a o meu ver, é uma extensão da própria Clarice Lispector, servindo como um mediador, numa tentativa falha de se distanciar, entre a autora e a personagem. Sua narrativa é marcada por reflexões filosóficas, que revelam novamente a introversão, mas também a inquietude, da autora. Rodrigo S.M. representa sua voz interna, questionando a própria capacidade de narrar e de compreender a essência de Macabéa.
Assim, o nome Macabéa, em “A Hora da Estrela”, serve como uma ferramenta literária para Clarice Lispector explorar e criticar os aspectos sócio-histórico-culturais dos migrantes nordestinos na década de 1970. Através da personagem, Clarice ilumina a dura realidade de um povo marcado pela pobreza luta constante por sobrevivência. O nome, portanto, enriquece a compreensão da obra e destaca a maestria da autora em utilizar a linguagem para refletir as nossa expressões humanas e sociais.

