O feminino teve seu espaço negado na sociedade, principalmente nos âmbitos intelectuais e profissionais. Ler poderia ser perigoso, ou melhor, por que uma mulher deveria aprender a ler? Não seria útil, já que sua tarefa principal seria a maternidade. Caso aprendesse a ler e escrever, não poderia escrever histórias. Se conseguisse escrever livros, era aconselhável anonimato ou um pseudônimo masculino.
Cito, por exemplo, Jane Austen e Mary Shelley, que publicaram seus romances, Orgulho e preconceito e Frankenstein respectivamente, no anonimato. Conseguiríamos citar, ainda, as irmãs Brontë, que optaram por nomes masculinos para publicarem seus livros de poemas. Em outros cenários, o marido poderia escrever um prefácio na obra da esposa, como forma de validar a ficção da companheira. Poderíamos continuar citando outros casos, circunstâncias nas quais o gênero foi subestimado. Séculos mais tarde, as insalubridades vivenciadas pelas mulheres no universo da literatura seriam discutidas pela crítica feminista. Proponho, então, pensar sobre autoria feminina com base nos escritos da inglesa Virginia Woolf e da latino-americana Glória Anzaldúa.
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Anzaldúa e Woolf não foram contemporâneas nem mesmo dividiram o mesmo território geográfico, no entanto, ambas discutiram, cada uma em seu tempo histórico, acerca da mulher na literatura. Woolf, em 1929, escreveu um ensaio que, mais tarde, seria fundamental para a crítica feminista. Em Um teto todo seu (2014), a autora questiona as condições materiais necessárias para a mulher exercer sua atividade intelectual. Para isso, eram necessários estabilidade financeira e um espaço privado, onde poderia organizar seus pensamentos e passear por suas imaginações. Em outro ensaio, Profissão para mulheres (2012), a escritora pensa sobre o quão difícil é definir os empecilhos que nós, mulheres, precisamos ultrapassar: “de fora, quais os obstáculos para uma mulher, e não para um homem?”
Sob a perspectiva de Virgínia, o primeiro impasse para uma escritora é o dinheiro. A mulher, durante séculos, foi pobre. Não trabalhava. Não cuidava das finanças, a pecúnia era propriedade de seu marido. Sua única preocupação era administrar o lar e cuidar, zelosamente, de suas crianças. Woolf trouxe para o centro do debate as condições econômicas. A fim de que uma mulher execute livremente o seu ofício, para Woolf, era indispensável a liberdade financeira. Ainda reforça que “talvez pareça uma coisa brutal dizê-lo, e é triste dizê-lo, mas, na dura realidade, a teoria de que o gênio poético floresce onde é semeado, e de igual modo entre pobres e ricos, contém pouca veracidade” .
Quando os problemas pecuniários forem resolvidos, há outra adversidade a qual precisa ser resolvida, a escritora precisa de um quarto com fechadura, a fim de que nada perturbe a criação, a fantasia, o estado de transe da romancista. Percebo que, de certa forma, ambas as reivindicações de Woolf estão interligadas. A poesia precisa de liberdade intelectual e para exercer a intelectualidade, em sua forma plena, são indispensáveis os subsídios.

lguns anos depois, o quarto defendido por Virginia Woolf chegou para algumas mulheres. Discutiu-se acerca da literatura das mulheres que moram no centro do mundo, a Europa e os Estados Unidos. Dentro desse cenário estabelecido, onde nós, mulheres periféricas da América Latina, estamos inseridas? Onde está a autoria feminina do terceiro mundo? Glória Anzaldúa, intelectual mexicana, propõe-se a falar com essas mulheres. O feminismo, então, passa a refletir sobre raça, gênero, cor, classe social e como que esses aspectos interferem e, às vezes, até marginalizam a produção literária de uma mulher:
A mulher de cor iniciante é invisível no mundo dominante dos homens brancos e no mundo feminista das mulheres brancas, apesar de que, neste último, isto esteja gradualmente mudando. A lésbica de cor não é somente invisível, ela não existe. Nosso discurso também não é ouvido. Nós falamos em línguas, com os proscritos e os loucos. (Anzaldúa)
Apesar da ausência do privilégio de cor e classe social, Alzaldúa não desestimula a escrita das chicas, pelo contrário, ela aconselha para que esqueçamos o quarto da Woolf. Devemos escrever em todos os lugares: “escreva no ônibus ou na fila da previdência social, no trabalho ou durante as refeições, entre o dormir e o acordar.” Podemos perceber, de acordo com os espaços citados pela intelectual, com quem ela está querendo se comunicar, as mulheres, mães trabalhadoras das margens do mundo. Anzaldúa demonstra compreender o cansaço de nossos corpos após uma jornada de trabalho e os deslocamentos que temos de enfrentar em transportes públicos.
Percebe, ainda, que, muitas vezes falta tempo e energia para quem “[…] cuida do marido ou amante, crianças, e muitas vezes do trabalho fora de casa […]”. Em outras palavras, como a mulher de cor, tendo em vista seu acúmulo de tarefas, achará um momento propício para exercitar a intelectualidade? Ignoremos, pelo menos por enquanto, nosso quarto com fechadura, que possamos atingir nosso estado de transe de romancista enquanto observamos a paisagem através da janela do ônibus; mergulhemos em nossos subterrâneos sempre que estivermos cozinhando para os nossos.
Assim, é possível dizer que as ideias de Anzaldúa e Woolf entrelaçam-se. Enquanto Woolf defende a liberdade financeira e física para a criação, Anzaldúa convoca as vozes marginais, aquelas ocultas pelas sombras do mundo hegemônico branco e eurocêntrico, a tecer suas narrativas em cada recanto da existência. Nesse diálogo entre as duas vozes, percebemos que não há um único caminho para a expressão literária feminina, mas sim um mosaico de possibilidades que se encontram na luta por uma voz autêntica.
Bibliografia
ANZALDÚA, G. (2000). Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Revista Estudos Feministas, 8(1), 229.
WOOLF, Virginia. Profissões para mulheres e outros artigos feministas. Porto Alegre: L&PM, 2012.
WOOLF, Virgínia, 1882-1941 Um teto todo seu / Virgínia Woolf; tradução Bia Nunes de Sousa, Glauco Mattoso; [capa: Andrea Vilela], – 1. ed. – São Paulo: Tordesilhas, 2014,

