Com linguagem simples e um tom de voz acolhedor, a psicanalista e escritora Vera Iaconelli nos cutuca com vara curta para imergir em um tema espinhoso, mas de caráter essencial por meio do seu texto Manifesto Antimaternalista (2023), publicado pela Editora Zahar.
Recebi este livro em seu lançamento e demorei quase dois anos para pôr as minhas mãos e meus olhos nele. A psicanálise não me assusta, mas o maternalismo, com certeza. E vamos deixar claro que a autora não está enunciado um discurso de ANTIMATERNIDADE, mas ANTIMATERNALISTA – sempre bom frisar.

Iaconelli começa seu texto nos informando sobre o quanto o objeto de pesquisa “persegue” a pessoa que pesquisa – e eu sei exatamente como isto se dá. Logo, falar de maternidade, falar de maternidade e maternalismo, segundo a autora, é uma consequência de suas vivências e inquietações.
Preliminares textuais
Nas preliminares textuais, a autora também informa sobre seu lugar de privilégio e deixa claro nos próximos parágrafos a importância dos atravessamentos entre psicanálise e outras disciplinas, sobretudo um olhar interseccional para compreender que todas nós, pessoas que gestamos, estamos sob a júdice do maternalismo, mas cada uma de um jeito diferente:
“A insistência em desagregar a família negra era uma tática política para dificultar que os escravizados se unissem e se rebelassem. A história é repleta de insurreições e atos heroicos dos ultrajados pela escravização, mas mesmo esses fatos são invisibilizados pela narrativa da suposta cordialidade do brasileiro e da miscigenação pacífica (p. 35).”
Como Vera Iaconelli expõe em seu texto, não somente as pessoas que gestam e que são negras são vítimas não somente do maternalismo, mas também das opressões resultantes de uma sociedade racista e cunhada sob o mito da democracia racial.
Maternidade x Maternalismo
Para evidenciar o quanto os marcadores sociais e raciais afetam as diversas perspectivas acerca da maternidade e do maternalismo, a autora utiliza ostensivamente da literatura, como um instrumento para elucidar a ação do sistema sobre os corpos, em especial, aos corpos femininos:
“Anna Kariênina e Madame Bovary, personagens que dão título aos romances clássicos de Liev Tolstói e Gustave Flaubert, estão aí para servir de exemplo do destino aguardado por aquelas que não se dobrarem às expectativas sociais […] Muito além de produzir personagens individuais, Tolstói e Flaubert, cada um à sua maneira, trouxeram à luz o destino trágico da mulher do século xıx que não se encaixasse no padrão esperado. Se renunciasse à família e ao lar para dar vazão a seus anseios e paixões, a mulher tornava-se decaída e sem salvação. […] De fato, o que se esperava das mulheres era não só a resignação à condição de mãe e esposa, mas a gratidão e o júbilo por sê-lo (p. 60-61).”
E assim como na literatura, os corpos das mulheres também são devidamente vigiados e controlados, bem antes do século XIX, atravessando o século XX, como ela tão bem nos relembra quando nos relembra sobre a existência e produção de Carolina Maria de Jesus.
E ao pensar em literatura e todas as questões que cercam a maternidade e o maternalismo, lembrei-me do conto “Quantos filhos Natalina teve?“, presente no livro Olhos D’água (2014), de Conceição Evaristo. Esse conto é uma representação clara que ter filhos não necessariamente faz de alguém uma mãe, e eu diria que nem mesmo o faz mulher!

A literatura, entretanto, não é suficiente para esclarecer de que maneira o maternalismo se sobrepõem e como institucionalizou nossas relações sociais desde a família até o social. Mas, o que é esse tal maternalismo? Para Iaconelli:
“O maternalismo seria, então, o discurso que a sociedade – mas não todas – adota para justificar e dar apoio às mulheres historicamente reduzidas à função de mães e trabalhadoras domésticas não remuneradas, no exercício de tarefas imprescindíveis para a consolidação e manutenção do capitalismo e da reprodução social (p. 79-80).”
Ao vislumbrar o significado do termo, me dei conta de que não havia nada novo sob o sol. Nenhuma novidade sobre o que significa essa “confusão” sobre ser mulher e necessariamente ser mãe e do quanto o sistema em que estamos inseridas faz com as vidas de mulheres (cis ou trans).
A autora avança cautelosamente sobre as questões de gênero relacionadas com o discurso maternalista, mas acredito que acerca deste tema, há espaço para a produção de um outro livro (bemmmm robusto) para dar conta de maneira profunda.
Manifesto Antimaternalista: uma visão psicanalista
Chamo a atenção para o capítulo “Genitoridade, perinatalidade e parentalidade” (p. 106-110), em que ela destaca as principais diferenças entre esses três termos e do quanto essas diferenças implicam em relações diferentes daquela que está responsável por parir, daquela que cuida e daquela que fica.
Após dissecar alguns termos, a autora passeia pela psicanálise e transborda em alguns conceitos dos quais não tenho condições de esmiuçar, como por exemplo: corpo erógeno, imagem corporal, constituição subjetiva, funções constituintes da subjetividade, entre outros.
Apesar de não ser um texto exclusivo para psicanalistas e profissionais da área da psicologia, senti falta de conhecer alguns conceitos da psicanálise. Sinto que se soubesse um pouco mais sobre as teorias freudianas e lacanianas, aproveitaria melhor a discussão proposta ao longo do texto, o que significa basicamente uma porta aberta para a releitura em breve.
Para mim, a pergunta chave deste livro é: “O que leva alguém a ter filhos?” Não há respostas e nem pontos finais para esta pergunta, porque reverbera em quem lê e tem filhos e em quem lê e não tem filhos, que não é a mesma coisa de gestar, muito menos de parir.
Este Manifesto Antimaternalista é um convite honesto para repensar o lugar da pessoa que escolhe gestar uma criança, mas também para contribuir com a construção de uma realidade no qual as mulheres e pessoas com útero possam ter direito reprodutivo sobre seus próprios corpos. Poderíamos todas, todos e todes sermos Antimaternalistas?

