Dizem para não julgarmos um livro pela capa, mas quem gosta de livros de verdade sabe que um livro, para além da ideia que ele contém, é um objeto que de cara já carrega a significância que podemos dar a ele à partir do que nos é apresentado.
Hum tem sua capa áspera feita em lixa, o que já causa na ponta dos dedos do leitor parte do incômodo que a história está prestes a nos apresentar. Com seu miolo todo ilustrado por imagens produzidas pelo autor com carimbadas de pedras, a obra publicada pela editora Quelônio teve uma importante atuação de Mesquita no projeto gráfico para nos transportar para uma realidade distante: a menor cidade do mundo, composta em letra, tinta e profundo isolamento.
Hum de fato existe, mas se você for dar um google precisa digitar o nome seguido de “cidade”, ou então se deparará com sua definição da língua portuguesa que diz “interjeição expressa geralmente com alongamento da vogal nasal, dúvida, receio, inquietação…” Acho curioso, pois, se tratando ou não de uma cidade factual localizada na Croácia, o título também desperta certa inquietação que antecipa, tal como a capa, um desassossego.
Na Hum de Mesquita, os muros de pedra que cercam a pequena cidade desempenham um papel de conservação daquele lugar habitado por menos de 30 pessoas, que também parecem se esforçar para mantê-lo como é. Pequena, quase desabitada e isolada, a cidade já desperta curiosidade por si só fora das páginas de um livro, mas na obra do escritor e artista, ela ganha certa magia ou ao menos alguma estranheza.

Das duas dezenas de pessoas que vivem ali, a primeira a nos ser apresentada é Karlo, a única criança do vilarejo, que se responsabiliza por receber visitantes de todo o mundo despertados pela curiosidade de uma vida tão pacata. Karlo vive com a inquietação de não saber muito sobre sua origem, além da noção de que não nasceu em Hum, mas se mudou para lá em uma fuga com sua mãe. O menino assim que chega na vila transforma instantaneamente a vida daquelas pessoas que pareciam fora do tempo – ou que de fato eram, já que o relógio da torre nunca havia sido consertado. Sendo a única criança de lá e, consequentemente, um signo de passagem do tempo e vida nova, ele se torna o “príncipe” de Hum.
Algo de praxe nas produções artísticas sobre lugares isolados é que sempre há nas cidades pacatas o que parece um pacto entre os de dentro e os de fora para mantê-las intocadas. Em Hum, os visitantes dão uma volta em menos de uma hora e depois se despedem e a lei de “não deixar ninguém impuro entrar” se cumpre.
O que parece ser a única conexão dos cidadãos com o resto do mundo é Tomo, cego e poeta, considerado por uns como louco e por outros como sábio. Seu passado é tão incerto quanto o de Karlo, e talvez por isso haja uma conexão entre ambos, além do pé no mundo de fora que cada um tem diante de suas próprias circunstâncias: Karlo vem de outro lugar e Tomo parece estar em outro lugar. O pequeno não se agrada do poeta, prega peças nele e desconfia de suas falas. Além disso, sobe nos muros de pedra da cidade para observar tudo o que acontece, tal como Tomo faz com os ouvidos.
Estes dois personagens da narrativa parecem, portanto, como duas instâncias de observação externa, que não se misturam por inteiro àquele comportamento dos habitantes de Hum. Karlo, na saudade do pai, parece se atrair por aquilo que vem de fora, e por isso recebe os visitantes enquanto fantasia sobre o retorno da guerra que, segundo sua mãe, foi a responsável por levar o pai. Já Tomo, com um passado também ligado à guerra, relembra a todo momento desses traumas, inclusive o de sua cegueira.
Karlo não sabe o que é moral.
Só ouviu essa palavra na poesia de Tomo,
então não sabe o seu real sentido.
Entretanto, Karlo sabe o que é uma arma.
E uma caneta.
Todos ensinam coisas a karlo,
porque Karlo não tem pai
para lhe ensinar coisas.
Por mais que tentem,
Karlo ainda não se dá por satisfeito
com as respostas que lhe dão.
A cada pergunta sem resposta, volta sempre aos muros.
Aos poucos vamos notando que há algo de errado naquela pequena cidade, algum acontecimento recente envolvendo um tiro e manchas de sangue na calçada de pedras parece ter mudado toda a dinâmica de paz dos habitantes.
Pois eis que, um dia, o habitual não se realiza, algo parece fora do lugar. Gojko, um dos habitantes, não visita Sanja e esta não lava os lençóis como faz todos os dias, tudo isso é observado por Karlo, até que um estrondo interrompe de fato a vida ali.
Textos e traços, a narrativa por inteiro
Toda essa trama é contada por Samir Mesquita de uma forma ímpar através, é claro, de suas ilustrações que ora complementam o texto poético, ora o provocam. Mas, também, por uma escolha curiosa de apresentar a narrativa em relatos de diferentes pessoas, não citadas em nenhum acontecimento, mas na voz de quem narra. São eles Mirka, Drazen e Rajko.
Os três relatos têm semelhanças indiscutíveis, mas em suas sutis diferenças ajudam a completar o quebra-cabeças do ocorrido, ou pelo menos auxiliam nas especulações do leitor. No entanto, a forma com que são narrados, por tanto se assimilarem, ganham um teor de ensaio ou de conivência, reforçando a ideia de um pacto entre aqueles habitantes da menor cidade do mundo que se proteje pelos muros e pela falta de contato com o externo, se resguardando, segundo eles, da guerra e da violência.
Quando a violência ocorre dentro de Hum, motivada pela presença da “mãe” e Karlo, que vieram de fora, as coisas se desencaixam. Eis, assim, um possível fim de Hum.
A guerra entra nas casas sem bater à porta.
A guerra não bateu no portão de Hum.
Veio no ventre da mãe.
Em Hum o príncipe
não é filho do rei,
é filho da guerra.
Ao lado disso, uma ilustração de fundo escuro que revela na penumbra duas figuras em movimento e uma paisagem distante ao fundo. Uma fuga? Uma despedida? Hum não dá respostas prontas, pelo contrário: espera que o leitor as ache a partir de sua experiência própria de leitura, uma experiência de extrema imersão e encantamento provida por traços carimbados e linhas escritas.

