Jean de La Fontaine nasceu em 8 de julho de 1621, em Château-Thierry, na França, e morreu em 13 de abril de 1695, em Paris. Foi um poeta e fabulista francês, conhecido principalmente por suas Fábulas em versos franceses, publicadas entre 1668 e 1694 em doze livros, nas quais adaptou histórias da tradição greco-latina e oriental, notadamente atribuídas a Esopo e Fedro. Iniciou seus estudos eclesiásticos, mas os abandonou para seguir a carreira civil, formando-se em Direito.
Atuou como inspetor de águas e florestas antes de dedicar-se inteiramente à literatura. Ele, ainda, foi membro da Academia Francesa a partir de 1684. Além disso, seu trabalho foi marcado pelo uso do verso e pela crítica social implícita nas alegorias animais, tendo desempenhado papel importantíssimo na consolidação da fábula como gênero literário moderno.

A Cigarra e A Formiga
Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o verão
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.
Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.
Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso estio.
— Amiga, — diz a cigarra —
Prometo, à fé de animal,
Pagar-vos antes de agosto
Os juros e o principal.
A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
— No verão em que lidavas? —
A pedinte ela pergunta.
Responde a outra: — Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
— Oh, bravo! — torna a formiga
— Cantavas? Pois dança agora!
Versão traduzida por Bocage
A raposa e o Corvo
Mestre Corvo, numa árvore poisado,
No bico segurava um belo queijo.
Mestra raposa, atraída pelo cheiro,
Assim lhe diz em tom entusiasmado:
— Olá! Bom dia tenha o Senhor Corvo,
Tão lindo é: uma beleza alada!
Fora de brincadeiras, se o seu canto
Tiver das suas penas o encanto
É de certeza o Rei da Bicharada!
Ouvindo tais palavras, que feliz
O Corvo fica; e a voz quer mostrar:
Abre o bico e lá vai o queijo pelo ar!
A Raposa o agarra e diz: — Senhor,
Aprenda que o vaidoso se rebaixa
Face a quem o resolve bajular.
Esta lição vale um queijo, não acha?
O Corvo, envergonhado, vendo o queijo fugir,
Jurou, tarde de mais, noutra igual não cair.
O Leão e o Rato
Certo dia, estava um Leão a dormir a sesta quando um ratinho começou a correr por cima dele. O Leão acordou, pôs-lhe a pata em cima, abriu a bocarra e preparou-se para o engolir.
— Perdoa-me! — gritou o ratinho. — Perdoa-me desta vez e eu nunca o esquecerei. Quem sabe se um dia não precisarás de mim?
O Leão ficou tão divertido com esta ideia que levantou a pata e o deixou partir.
Dias depois o Leão caiu numa armadilha. Como os caçadores o queriam oferecer vivo ao Rei, amarraram-no a uma árvore e partiram à procura de um meio para o transportarem.
Nisto, apareceu o ratinho. Vendo a triste situação em que o Leão se encontrava, roeu as cordas que o prendiam.
E foi assim que um ratinho pequenino salvou o Rei dos Animais.
O Homem e a sua Imagem
Um homem singular nos fumos da vaidade,
Tinha-se para si na conta de gentil;
No espelho a que se vê sempre acha falsidade,
E vivia feliz nessa ilusão pueril.
Para o curar do achaque, a sorte, que é cruenta,
Aos olhos lhe apresenta
— Por toda a parte os tais conselheiros das damas:
Espelhos nos salões, nas lojas, nas batotas,
Nos bolsos dos janotas,
Têm-nos criadas e amas.
O que lembra ao Narciso?
Ele vai-se ocultar
Desesperado, então, num ignoto lugar
Sem de espelhos querer entrar noutra aventura.
Nesse local, porém, corria a linfa pura
De aprazível regato,
Que reflete fiel o grotesco retrato,
O qual julga inda assim ser fantasia vã.
Tenta à pressa fugir por não ver essa imagem,
E da linda paragem
Partiu com certo afã.
Percebe-se o meu fito.
Aludo a toda a gente; o caso acha-se a esmo,
Cada qual o que é seu crê ser o mais bonito,
Nossa alma é este tal vaidoso de si mesmo.
Os espelhos sem conta, eis as tolices do homem,
Dos defeitos nos dão legítima pintura;
E pela linfa pura
Das Máximas o livro é bem que todos tomem.
Tradução de Teófilo Braga
A Morte e o Desgraçado
Chamava um desgraçado, a toda a hora,
Em seu socorro a Morte.
— Vem, ó Morte! — gritava — e, sem demora,
Ceifa-me a rude sorte!
Quis a Morte fazer-lhe um bom serviço,
E à porta lhe bateu.
Entrou-lhe em casa, sem se dar por isso,
E disse-lhe: — Sou eu!
— Que vejo! — grita ele — ó monstro horrendo!
Espectro de pavor! Foge de mim!.
Nunca pensei — clamou todo tremendo —
Que fosses feia assim!
Ora, Mecenas foi um homem douto,
Que disse; — Tornem-me antes impotente,
Tolhido, manco, tendo só um coto,
Gotoso — mas que eu viva longamente!
Nós dizemos o mesmo à Omnipotente.
Tradução de Gomes Leal

