Em 1836, Nikolai Gógol, um dos maiores escritores russos, publica um conto com um inesperado mote: um major acordou sem seu nariz. Ao procurar a polícia para resolver isso, o major vê seu nariz andando na rua – completamente independente e vestido como um oficial de alta patente. O nariz é um dos contos mais importantes da literatura mundial, uma obra cujo absurdo e comicidade também apontam uma crítica certeira de Nikolai Gógol sobre os costumes da sociedade.
A narrativa de Gógol está longe de dizer respeito apenas ao século 19. O que percebemos no século 21, talvez mais do que nunca, é que aceitamos o absurdo em nome do reconhecimento das outras pessoas. O aumento da busca por procedimentos estéticos por adolescentes foi uma das coisas que inspirou a escritora e professora de Literatura da USP Ana Pacheco a escrever seu primeiro livro juvenil: Ponha-se no seu lugar, o novo título da Série Vaga-Lume.
A coleção de livros infanto-juvenis mais querida dos brasileiros voltou a publicar depois de 13 anos, quando a Editora Ática anunciou a publicação de títulos inéditos. A série, que é responsável por clássicos de várias gerações, de autores como Maria José Dupré e Marcos Rey, estabeleceu um importante processo com professores ainda na década de 70 para a idealização dessas histórias.

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O primeiro livro publicado sob o selo foi A ilha perdida, de Maria José Dupré, ainda em 1973. O enfoque era sobretudo na educação pública, e na inserção de jovens na literatura. O importante nome por trás dessa iniciativa, o editor Jiro Takahashi, é responsável também pela série Para gostar de ler.
Na história de Ana Pacheco, a narradora Clara começa contando de quando seu irmão, Zizo, encontrou um nariz no meio de seu pão de queijo na cantina do colégio. Zizo logo o reconheceu como sendo de Lucas, seu arqui-inimigo – um garoto popular e privilegiado do colégio.

Em outro momento da história, a narradora de Pacheco faz uma referência ao início de A metamorfose, de Franz Kafka, ao descrever o despertar de Lucas sem o seu nariz:
Naquela manhã, depois de acordar de sonhos intranquilos, Lucas PPP de Albuquerque Lins, deu um grande bocejo; espreguiçou-se entre os lençóis de algodão egípcio, em sua suíte júnior, na mansão do Jardim Europa e, como de hábito, deu três espirros. Em vez da sensação de alívio normalmente trazida por essa sequência, sentiu um enorme vazio. Parecia que sua alma tinha saído pelas narinas. Lembrou-se do incômodo com uma espécie de cogumelo nascido em sua cara na noite anterior. Justo há dez dias da festa de 16 anos da Florinha.
Ponha-se no seu lugar (via Instituto Claro)
O que a história acompanha é a crescente popularidade do nariz de Lucas que, como o nariz do major de Gógol, enfurece o seu ‘dono’ e o desafia. como não poderia ser diferente para um livro da série Vaga-Lume, há um vínculo forte com as questões contemporâneas vivenciadas pelos jovens, e ainda uma deferência aos clássicos de várias gerações.
Dentre as temáticas abordadas pela narradora Clara, temos a disputa pelo status e a transformação do corpo em uma mercadoria, numa juventude cada vez mais afetada por transtornos de imagem. Tudo de sua perspectiva: uma menina bolsista de um colégio caro, onde muitas garotas só comem ovos cozidos para não engordar – e que nutre uma difícil paixão por Lucas, o nariz em pé que perdeu seu nariz.
A juventude pode ser mais uma vez abordada pelos olhos dos escritores da Vaga-Lume. Agora, na especificidade cada vez mais brutal da geração do século XXI, onde o corpo virou o maior espetáculo.

