O Brasil segue entre os países com as mais altas taxas de feminicídio do mundo, um dado que, por si só, já escancara a urgência de debater a violência de gênero para além das estatísticas policiais. Mas como chegar às origens de um problema tão enraizado? É esse o ponto de partida de “Há Testículos no Meu Útero”, novo trabalho da Azenha de Teatro, que estreia em São Paulo neste mês de julho.
Com dramaturgia assinada por Adriana Azenha e David Carolla, a partir de uma provocação inicial da atriz Nany di Lima, a peça desloca o foco do agressor para um território muitas vezes negligenciado: a relação entre mães e filhos. Em vez de repetir o diagnóstico já conhecido sobre o machismo estrutural, a montagem pergunta: como se ensina um menino a ser homem numa cultura que naturaliza a dominação e o poder?
Construída na linguagem do teatro documentário, a obra costura autobiografia, entrevistas reais e invenção cênica. Oito quadros temáticos conduzem o público por uma viagem que vai da gestação à vida adulta, passando por educação de gênero, violência psicológica, heranças familiares e os silêncios que atravessam gerações. O resultado é uma narrativa híbrida, que oscila entre o relato íntimo e a escuta coletiva, sem medo de expor contradições, mães também são filhas de um mundo patriarcal.
“O espetáculo não aponta dedos. Ele provoca perguntas incômodas sobre o que carregamos no útero, no testículo, no afeto”, resume a diretora Adriana Azenha. A opção pelo documentário cênico não é casual: ao dar voz a depoimentos reais e a improvisações dos atores, a montagem recusa a resposta pronta e abre espaço para a complexidade. Cada cena funciona como um fragmento de espelho, refletindo não apenas os personagens em cena, mas também as plateias que se reconhecem naquelas histórias.
Mas a experiência não termina no palco. Como desdobramento da proposta, todas as apresentações de domingo serão seguidas por encontros abertos com especialistas em gênero, masculinidades e parentalidade. A cada semana, um convidado diferente integra o bate-papo, ampliando o leque de olhares e transformando o teatro em fórum.
“Queremos que o público saia do teatro com a sensação de que a conversa ainda não acabou”, diz David Carolla. “A ideia é que cada espectador se sinta implicado, seja como filho, como mãe, como pai ou como alguém que um dia vai educar.”
Com fomento da Fundação Nacional de Artes (Funarte), vinculada ao Ministério da Cultura, “Há Testículos no Meu Útero” chega num momento em que o debate sobre masculinidades ganha força no campo artístico e acadêmico. Mas sua potência está justamente em não se furtar ao contraditório: afinal, falar de cuidado, afeto e responsabilidade também é falar de dor, frustração e heranças que custam a ser desmontadas.
Para quem busca teatro contemporâneo que dialogue com urgências sociais, a montagem é um convite, desconfortável, necessário e, acima de tudo, humano, a olhar para dentro do útero e dos testículos, e descobrir que, ali, também moram perguntas que ainda não soubemos responder.