A poesia como inutensílio: as ‘Impressões Poéticas’ de Everton C. R. Conca

Manoel de Barros diz que o “poema é antes de tudo um inutensílio”. A escolha da palavra não é casual. Afinal, ele poderia ter dito que o poema é inútil, mas isso seria insuficiente. O inutensílio não é aquilo que não serve para nada; é, antes, aquilo que escapa à lógica imediata da utilidade. Aquilo, portanto, carrega uma utilidade imaginada, talvez intuída, mas jamais plenamente contida. 

O poema, nesse sentido, não se justifica por um fim exterior a si mesmo: sua razão de ser reside no próprio gesto de existir. O trabalho poético pode nascer de muitas ânsias: compreender o mundo ou reinventá-lo; dar som ao que pulsa internamente ou descobrir, no próprio movimento da escrita, aquilo que se sente. A poesia é sempre movimento, seja entre o dentro e o fora, entre a percepção e a linguagem e há um caleidoscópio de razões para fazê-la. Em Impressões Poéticas, Everton C. R. Conca parece atravessar esse vasto campo de possibilidades, explorando-o em suas múltiplas direções.

Publicada em 2025 pela Editora Viseu, a obra reúne poemas escritos ao longo de vinte anos, um arco temporal que não apenas remonta uma história de maturação, mas evidencia uma persistente disposição contemplativa diante do mundo. A antologia se constrói como registro das formas pelas quais a realidade se imprime nesse sujeito que a observa — ou, mais precisamente, nos diversos sujeitos que o fazem, com uma alternância de vozes poéticas que amplia o campo de observação do livro. 

Os poemas transitam entre conflitos íntimos e tensões compartilhadas, mas não se limitam a essa camada da existência. Há, também, uma atenção dedicada aos níveis simbólicos dos objetos, dos animais e das cenas deslocadas no tempo e no espaço, como se cada elemento cotidiano pudesse revelar uma camada latente de significação. 

Um poema como A faca — um utensílio por excelência — exemplifica essa operação. Ao assumir a voz do próprio objeto, o texto desloca a faca de sua função e a reinscreve em um campo mais amplo de sentidos: o objeto se transforma em signo aberto, capaz de revelar algo sobre os usos humanos e sobre as ambiguidades que os atravessam:

Sou uma arma para os loucos
Um brinquedo perigoso para os inocentes
Uma diversão para os cruéis.

Posso ser uma ferramenta valiosa para um artista
que me usará para dar forma aos seus objetos

A faca continua sendo uma faca, mas, no espaço do poema, torna-se também metáfora da ambivalência humana, aspecto a ser abordado ao longo de toda a obra

A antologia se abre com Um outro olhar, poema que funciona como chave de leitura do conjunto. Ao longo de quatro páginas, o texto percorre impasses e contradições, afirmando uma sensibilidade que prefere a incerteza às definições rígidas:

E então – o que vem depois?
Nada é lógico; nada tem razão
E se existisse a sanidade lhe diria o contrário
Ela ainda está aí? Pergunto
O que ela está fazendo?
Todos os caminhos estão levando ao mesmo lugar,
Mas esse lugar é deserto e solitário.
Como pode permanecer nele? Não há quem possa.

Essa postura reaparece em diferentes momentos da obra: nos significados silenciosos dos cemitérios, nos embates entre realidade e fantasia, nos encontros sempre tensos com o próprio Eu. 

Sua maior força é também sua maior fraqueza
Aquilo que te fortalece é também aquilo que te destrói
É seu maior inimigo – como se sairá vitorioso?
O caçador implacável que faz de si mesmo a vítima. 

O que atravessa o livro é uma recusa às delimitações estreitas e às respostas prontas. Em seu lugar, instala-se um olhar atento e por vezes inquieto, que se volta tanto às singularidades da experiência quanto à condição compartilhada da vida. 

Nos poemas finais, o próprio fazer poético ganha centralidade: a escrita surge como ética e como exercício contínuo de atenção. A contemplação, assim, não se encerra, mas perpetua-se, como em Da angústia dos poetas que se inicia com a ideia anteriormente discutida: Olha eu aqui de novo! / Tentando fazer algo de útil 

Impressões Poéticas afirma que a poesia talvez não seja um ponto de chegada, mas um modo de permanecer em movimento diante do mundo, um inutensílio que se precisa. 

Sobre o autor:

Everton C. R. Conca é brasileiro, natural de Marialva, cidade do interior do Paraná. Formado na área de exatas, em tecnologia de sistemas para Internet, mas também com formação livre em Psicanálise e outros cursos livres relacionados à mente humana. Tem na escrita e na poesia uma legítima forma de se expressar, imprimindo suas percepções e sentimentos sobre o mundo e sobre si mesmo de forma genuína e sem rodeios.

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