“A minha vingança é a minha fidelidade”, diz D. Eduarda, a certa altura de “Senhora dos Afogados”. Nesta tragédia brasileira de Nelson Rodrigues, em cartaz no Teatro Oficina, em São Paulo, os suicidas, os incestuosos, os assassinos e os loucos sentam-se à mesa para a autodevoração.
Misael (Marcelo Drummond), juiz que deverá ser nomeado ministro, assassinou a amante (Sylvia Prado) no dia do casamento com Eduarda (Leona Cavalli). Moema (Lara Tremouroux), filha do casal, faz o diabo na vida da mãe e das irmãs por amor ao pai. Diante do horror, dona Marianinha (Regina Braga) fica louca.
A diretora do espetáculo, Monique Gardenberg, desenterra “Senhora dos Afogados” para homenagear Zé Celso, diretor e fundador do Teatro Oficina, morto em 2023. Não por acaso, há na areia que invade o teatro a condição antropofágica tão cara à obra do diretor. A areia nasce do desmanche! E ainda adiciona-se aos símbolos esse terreno engolindo o Brasil continuamente, regurgitando o oposto daquilo que acreditamos ser civilizado, europeu e intelectualmente aceitável, já que os privilégios, a tradição e a influência da nossa elite, na verdade, não têm alicerce; são vulneráveis a qualquer vento.
Essa armação não empurra o espectador para leituras políticas óbvias. Diante do elenco vestindo roupas luxuosas para velar a filha morta (é um deleite olhar para Leona Cavalli e Marcelo Drummond), o efeito é inominável: estamos assistindo à celebração daquilo que não morre, do tempo que não passa e dos corpos que não foram enterrados.
O texto foi escrito em 1947. Mas a montagem de Monique Gardenberg joga a trama para o tempo presente destruindo nossos mitos contemporâneos. No segundo ato, quando a diretora coloca em sua praia os personagens comuns da orla carioca e cita até o show da Lady Gaga no Rio de Janeiro, a sensação de quem está nos andares superiores da construção verticalizada do Teatro Oficina é a mesma dos moradores dos prédios à beira-mar em Copacabana, assistindo o desmanche das ilusões brasileiras sem constatar a própria ruína.
Toda a direção de vídeo de Igor Marotti Dumont e Ciça Lucchesi, inclusive, operam essa fantasmagoria assistida, sobrepondo os tempos sem perder de vista o que está em jogo: essa família religiosa, respeitada e tradicional pode ser capaz dos maiores pecados, algo conectado ao contexto do Brasil de hoje.
Para Nelson Rodrigues, suas “peças desagradáveis” transformam o palco em “pátio de expiação”. A luz criada por Wagner Pinto e Sarah Salgado cria covas sensoriais, como se os personagens fossem engolidos pela revelação de seus crimes ou desejos. É pura catarse.
Na autodevoração das tragédias para regurgitar o sofrimento tipicamente brasileiro, Gardenberg transforma as vizinhas de Nelson Rodrigues em “moiras-juízas” e embaça a fronteira entre a evidente opção de “cancelar” a família Drummond e a vontade de participar dela. A mudança é contundente e realça a originalidade da visão da diretora. E o tratamento incestuoso de Moema, diante de tal contexto inserido dentro do texto, não é, necessariamente, sexual. Há fidelidade à imoralidade de Misael; na continuação, em quebrar as leis civis; em aportar às relações familiares um tipo ardiloso de manutenção do poder, quase como o modo de manter tudo puro. O fato de Eduarda ser chamada de “estrangeira” pela própria filha só amplia a trama “desagradável”.
Em outro lance genial, Monique corporifica o horror de Misael: a sua vítima. Como o espectro da amante morta, Sylvia Prado passeia entre a família Drummond e, mesmo no momento em que fica boa parte deitada na cama de seu algoz, impõe o corpo como a sentença possível para essa “família tradicional brasileira”. Não dá pra ignorar a semelhança da subtrama com “Hamlet”, especialmente quando o príncipe da Dinamarca encara o fantasma do pai, que o pede para vingar sua morte.
Ainda na sobreposição de tragédias clássicas do teatro, a meretriz não pede vingança a Misael, mas vinga-se dele. Suas aparições remetem aos mortos que não podem ser esquecidos, nos corpos indigentes largados na “ponta da praia” por homens de bem como Misael. É uma atuação magnética, rodeada pelos desempenhos excepcionais de Leona Cavalli, Marcelo Drummond, Regina Braga, o quarteto de vizinhas, Roderick Himeros, Alexandre Paz e Lara Tremouroux. Se há muitos personagens em “Senhora dos Afogados”, Gardenberg sabe a importância das menores brasas para manter vivo o fogaréu porque a tragédia brasileira não perde calor: é um país de famílias, não é mesmo? Juízes imorais pleiteiam ser ministros; esposas “belas, recatadas e do lar” ignoram a própria luxúria; prostitutas são mortas e seus corpos enterrados no breu; matar parentes não é problema, só que “tem que ser um que a gente mata antes dele fazer delação”…
Os anos passam, as configurações se repetem. É enorme o passado que o Brasil tem pela frente, como diria Millôr. Talvez, seja por isso que a fidelidade a esta ruína, ao eterno retorno, serve tanto como vingança quanto perdão.
FICHA TÉCNICA:
Família Drummond
Misael Drummond – Marcelo Drummond
Dona Marianinha – Regina Braga
Dona Eduarda – Leona Cavalli
Moema – Lara Tremouroux
Paulo – Kael Studart
Dora – Clarisse Johansson
Clarinha – Larissa Silva
Vizinhas
Cristina Mutarelli
Giulia Gam
Michele Matalon
Muriel Matalon / Lígia Cortêz
Cais
Noivo – Roderick Himeros
Mãe do Noivo – Sylvia Prado
Dona – Vick Nefertiti
Vendedor de Pentes – Marcelo Dalourzi
Sabiá – Alexandre Paz
Mulheres da Vida: Danielle Rosa,
Kelly Campêllo, Mariana de Moraes,
Selma Paiva, Zizi Yndio do Brasil
Michês: Tony Reis, Victor Rosa
Banda: Carlos Eduardo Samuel,
Felipe Botelho, Pedro Gongom Manesco
Realização:
Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona
Texto:
Nelson Rodrigues
Direção:
Monique Gardenberg
Direção de Vídeo:
Igor Marotti Dumont e Ciça Lucchesi
Arquitetura Cênica:
Marília Piraju
Figurino:
Cássio Brasil
Visagismo:
Sonia Ushiyama Souto
Desenho de luz:
Wagner Pinto e Sarah Salgado
Direção Musical:
Felipe Botelho
Direção de Cena:
Elisete Jeremias e Rafael Bicudo
Desenho e Operação de Som:
Camila Fonseca
Adereços e Objetos:
Abmael Henrique
Máscaras Vizinhas:
Ricardo Costa
Direção de Produção:
Tati Rommel
Produção:
Ana Sette e Filipe Fonseca
Produção executiva:
Anderson Puchetti
Ass. Direção:
Maria Borba
2º Ass. Direção:
Anderson Moreira Sales, Giovanna Parra e Vinícius Tardite
Câmera ao vivo:
Igor Marotti Dumont
Operação de vídeo:
Diego Avarte
Storyboard:
Renato Blaschi
Produção de luz:
Carina Tavares
Operação de luz:
Victoria Pedrosa e Pedro Felizes
Assistente de som:
Clevinho Ferreira
Microfonista:
Julia Ávila e Nick Guaraná
Técnico de palco:
Guira Bará
Assistente de Produção:
Sofia Rommel
Assistente de figurino:
Danni Tocci
Estagiárias de figurino:
Ana Flávia Manfredini
e Mariana Rosim
Assistente de Visagismo:
Érica Gabi
Camareira:
Cida Melo
Assistente de camareira:
Dan Salas
Cenotécnicos:
Cássio Omae, Bruno Ramon, Brenda Stephanie, Cléber Martins,
Deoclécio Alexandre, João Tadeu e Rivaldo Trevor
Contrarregas Areia:
Alex Augusto e Diego Monte
Identidade visual e programa:
Igor Marotti Dumont
Fotografias Programa:
Igor Marotti e Roseane Moura
Assessoria de Imprensa:
Adriana Monteiro
Coordenação Acervo Oficina:
Elisete Jeremias
Guardiã Figurinos / Acervo Oficina:
Cida Melo
Arquivo Acervo Oficina:
Thais Sandri
Apoio Cultural:
Salão 1838 Estados Unidos, Cantina e Pizzaria Piolin, Rancho Nordestino,
Nou Restaurante e Restaurante Plantaria