Segundo Mariana Henriquez, escritora argentina famosa por suas histórias de terror e horror, “o terror contemporâneo é um gênero capaz de falar sobre tudo, uma meta de gênero: pode ser um terror social, político, relacionado ao corpo, com traumas, com o sobrenatural. O gênero é muito apropriado para tempos de incerteza como estes que vivemos – também se aproxima cada vez mais do literário, com muitos escritores falando de realidades distópicas.”
A autora também reforça a inexistência de uma “literatura feminina”: “nós mulheres escrevemos e, em alguns casos, relatamos nossa experiência criativa, da qual pouco há registro em função de muitos anos de silenciamento, mas acredito que não há nenhuma essência, que uma mulher pode escrever sobre qualquer tema e que não existem temas específicos femininos.”.
É a junção desse terror contemporâneo com a escrita feita por mulheres, e suas experiências, que trazemos hoje aqui no Nota através de uma lista com 5 livros para você conhecer o que as mulheres latino-americanas veem escrevendo nesse gênero.
“Inventário de Predadores Domésticos”, de Verena Cavalcante
Kafka certa vez afirmou que “devemos ler apenas os livros que nos ferem, que nos apunhalam. […] Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós.” Se você concorda com o autor de “A Metamorfose”, então muito provavelmente compreenderá e apreciará “Inventário de Predadores Domésticos” de Verena Cavalcante.
Seus contos nos ferem, nos apunhalam repetidamente, marcam a mente do leitor como os corpos de suas personagens são marcados por violência, revelando os aspectos mais sombrios e sangrentos do ser humano
A primeira parte do livro é composta por narrativas contadas do ponto de vista de crianças, o que torna estes contos ainda mais macabros, pois as inocentes criaturas estão sempre em perigo, sendo ou prestes a serem vítimas de algum tipo de violência.
A forma como Verena adapta o estilo da linguagem de um conto para o outro, retratando o ponto de vista de uma criança pequena, como é o caso do conto “Shopping”, e o de uma pré -adolescente, no conto “Diário”, torna as narrativas mais realistas e, exatamente por isso, mais chocantes.
Na segunda parte do livro, encontramos contos com narradores diversos, alguns se utilizando de linguagens mais líricas, outras vezes variando para tons mais viscerais, enfatizando descrições mais fisiológicas dos eventos narrados, e concluindo com um conto de tons oníricos, em que a narrativa em segunda pessoa leva o leitor junto a explorar os recantos sombrios de sua imaginação.
Uma obra definitivamente marcante, para leitores de estômago forte e coragem de adentrar um mundo fictício selvagem e sangrento, reflexo assustador do mundo real.
Leia resenha completa de Amanda Leonardi aqui!
“Nossa parte de noite”, de Mariana Enriquez, com tradução de Elisa Menezes
Tendo como pano de fundo a Argentina dos anos 80 e 90 do século XX, mas também voltando à Londres psicodélica dos anos 60 e 70, “Nossa parte de noite”, publicado pela editora Intrínseca, é um livro perturbador, tenso e que, aos poucos, nos envolve em um submundo de escuridão e disputas por poder.
A narrativa começa como um Road Movie. Juan e Gaspar, pai e filho, vão de carro de Buenos Aires até Misiones, província onde ficam as famosas Cataratas do lado argentino da fronteira e reduto dos Bradford, a rica e influente família de Rosario, mãe do menino, morta sob circunstâncias suspeitas.
É uma viagem obscura, sob o peso do luto e da insegurança, pois, além dos militares (a Ditadura na Argentina durou de 1976 a 1983), eles precisavam se esquivar também da família que buscava tomar o que considerava legitimamente seu. No caso, eles desejavam uma herança perturbadora, uma conexão com a Escuridão, um poder sombrio que os ricos, em sua soberba, se achavam no direito de controlar e subjugar em busca da única coisa que não conseguiam comprar, a vida eterna.
Ao longo da narrativa Mariana também explora o body horror, o relato jornalístico e o ocultismo em uma história cujo estopim encontra-se nas circunstâncias históricas, sociais e culturais, e na forma como a autora trabalha os traumas da nação.
Afinal, a história de Juan e Gaspar é ficção, mas “Nossa parte de noite” também traz muita verdade. A ditadura foi real: os desaparecimentos, os sequestros, as torturas, as mortes, as valas comuns, o terror vindo dos homens.
“Jogam-se mortos na Argentina. (…) tinham lhe jogado um morto.”
A capacidade da Mariana Enriquez de despertar o horror, o terror, o asco, mudaram a minha relação com a literatura de terror e do que ela é capaz.
“Mas a verdade tinha maneiras de vir à tona, de raspar a pele, de chutar a nuca” e é isso que ela faz ao trazer à tona o horror que emana da própria realidade. Ela rasga a pele, chuta a nuca e esfrega os monstros que nos cercam na nossa cara.
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“Notívagas”, de Juliana Cunha
“Notívagas”, publicado via Catarse pela editora O Grifo em 2022, traz 14 contos arrebatadores da talentosa Juliana Cunha. O livro fez tanto sucesso que teve uma segunda edição, lançada em 2024, e levou o prêmio de Odisseia de Literatura Fantástica de 2023, com o conto “Devoradora”, o primeiro do livro.
Em “Notívagas”, temos narrativas inesquecíveis sobre mulheres vivenciando pesadelos, cada uma de sua forma. É difícil escolher os melhores contos, pois todos são maravilhosos, delirantes, líricos, sombrios, destrinchando os medos e horrores do mundo, com foco no universo feminino, por isso destacamos um pouco de diversos deles aqui, para dar uma amostra do que espera os futuros leitores.
O livro já abre com uma jovem virgem passando por uma gravidez misteriosa em “Devoradora”. O conto trata, de uma forma sobrenatural, do direito da mulher sobre o próprio corpo, visto que o desespero da jovem ao se descobrir grávida é aterrador, e a escrita de Juliana é visceral e cirúrgica em nos mostrar esse desespero.
Temos em seguida um conto que é uma preciosidade: em “A Jóia”, uma jovem que faz joias com dentes sofre bullying de antigas amigas de infância. A sua reação é surpreendente e definitivamente satisfatória.
“A noite em meus olhos” é uma prosa repleta de poesia: neste conto, Juliana revela o seu lado poeta, trazendo uma narrativa lírica de uma mulher que acorda, mas permanece nas trevas.
Já “O Desejo da Cobra” é uma fábula macabra, em que uma jovem se apaixona por um homem cobra, provindo de uma família de homens cobras, os quais apenas podem se tornar um homem de verdade após um ato de violência contra uma mulher. Uma fábula sobre a masculinidade tóxica, mas com um final sangrento e satisfatório.
Em “Presente de Casamento”, temos uma relação conturbada de uma jovem com um marido artista, obcecado por sua arte ao ponto de acabar com a saúde da esposa, a qual vê como nada além de um objeto de seu trabalho.
Leia resenha completa de Amanda Leonardi aqui!
“Rinha de Galos”, de María Fernanda Ampuero, com tradução de Silvia Massimini Félix
“Rinha de Galos”, publicado pela Editora Moinhos, se inicia com um conto que inspirou o nome da obra. Na história, uma menina acostumada com a violência dos homens desde a infância é sequestrada e se torna objeto de leilão. Enquanto isso ocorre, ela narra certos acontecimentos de sua infância que parecem terem a tornado mais forte, ou melhor dizendo: resistente.
Quando menina, seu pai a levava às rinhas de galos que frequentava. Lá, homens esquisitos a olhavam, a assediavam, a abusavam, e o pai, não menos abusivo, a chamava de mulherzinha medrosa enquanto a colocava para recolher os restos mortais dos galos que nenhum deles tinha coragem de tocar.
A narrativa emprega um tom ao mesmo tempo jocoso em relação à natureza masculina, como também apavorado. E a costura entre acontecimentos da infância da narradora com o fatídico dia do sequestro tem as violências como linha, unindo pela ferida da agulha dois episódios que, no fim, não parece que terão um fim: o retalho final é a noção de que essa não foi a primeira vez e não seria a última.
Em contos curtos, ao longo de toda obra, Ampuero debate questões de abuso e violência, mantendo uma sobriedade inquietante, de revirar o estômago. Talvez justamente pelas narrativas extremamente curtas, o choque permaneça do início ao fim do livro, dando empurrões firmes no leitor através da linguagem seca e intrigante, daqueles que te fazem se ajeitar na poltrona ou na cama para entender se aquilo que lê é real, para digerir o infesto.
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“Sacrifícios Humanos”, de María Fernanda Ampuero, com tradução de Silvia Massimini Félix
Originalmente publicado 3 anos depois de “Rinha de Galos”, “Sacrifícios Humanos”, também publicado pela Editora Moinhos, parece ter maturado o pernicioso da literatura de Maria Fernanda Ampuero.
Com textos mais robustos e de natureza acre, “Sacrifícios Humanos” constrói nos 12 contos que compõem o livro atmosferas mais distintas, porém, ainda assim, ligadas entre si pelo fio da perversidade e do medo. Com uma proposta de histórias mais longas e certa “permissão” mais clara para ousar, sair do cotidiano, a densidade desses contos se inflama nas mãos de María Fernanda Ampuero.
Por mais distantes, em termos de estrutura e enredo, que essas histórias apresentadas possam soar, o elemento comum a elas, tanto em “Rinha de Galos”, quanto em “Sacrifícios Humanos”, é este masculino estranho, que vive de forma parasitária ou insípida, mas sempre a perturbar, criando uma película turva do pernicioso nas histórias, uma sensação de que nossas vidas estão infestadas por esse mal.
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“Vespeiro”, de Irka Barrios.
Em “Vespeiro”, terceiro livro da escritora gaúcha Irka Barrios e publicado pela Darkside Books em 2023, encontramos 30 contos breves e marcantes, com extensão perfeita para serem lidos, como diria Edgar Allan Poe, de uma sentada, e cujo efeito sem dúvidas fica impresso na mente do leitor como um ferrão de uma vespa.
Dentre os 30 contos, destacamos alguns para demonstrar as temáticas insólitas da autora, começando pelo primeiro, intitulado “Sandra não tem dedos”. Neste conto, como diz o título, conhecemos uma mulher sem dedos e suas dificuldades e adaptações, bem como diferentes hipóteses que ela apresenta para a perda dos dedos, sem nunca nos deixar saber qual foi mesmo a causa. O conto se encerra de uma forma onírica muito interessante.
“Quarto minguante” mostra a força da prosa de Barrios ao tratar do universo feminino e os horrores, temores e tabus que o habitam, tratando corajosamente de um assunto pouco falado, ainda que vivenciado por toda mulher cis, que é a mesntruação, ou qualquer sangramento hormonal.
Com uma prosa forte e afiada, Barrios nos traz uma mulher assassina de homens no conto “A roda da fortuna”. A protagonista começa a matar se defendendo de um assalto, mas acaba adquirindo gosto pelo ato.
O antepenúltimo conto do livro, “Terrário”, é uma crítica sensacional e incrivelmente criativa ao machismo e à subjugação das mulheres, apresentando uma sociedade distópica em que mulheres servem apenas para procriar.
Leitura recomendadíssima para quem gosta de bons contos, com toques sombrios, muito insólito e que desperta muitas reflexões, revelando a versatilidade da escrita de Barrios, um dos maiores nomes da literatura nacional.
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“Voladoras”, de Mónica Ojeda, com tradução de Silvia Massimini Felix
Voladoras, da escritora equatoriana Mónica Ojeda e publicado pela editora Autêntica Contemporânea em 2023, é uma reunião de 8 contos que se encaixam no fantástico e no insólito como recurso narrativo para narrar experiências de mulheres dentro de sociedades conservadores de nossa América Latina, neste caso, do Equador.
Porém, é interessante notar que nem todas as personagens são mulheres. A ideia, me parece, é que esta experiência de uma violência estrutural componha a linha básica de sustentação das narrativas, cujas personagens, frágeis, precisem atravessar. Um dos exemplos é o conto inicial que é também aquele que dá nome ao livro “Voladoras”.
As Voladoras seriam seres femininos que invadem a casa onde a personagem feminina habita com a família. Porém, de forma cambiante, esses seres fantásticos conseguem burlar as regras do mundo e escapar a tudo. Ojeda descreve-as como “mulheres normais” que possuem apenas um olho, “como os ciclopes” e, com seus cabelos pretos, tal como bruxas, entram pelas janelas reais e dos sonhos.
Este ser acompanha a trajetória da personagem, some quando ela menstrua pela primeira vez, é enterrada pela mãe no quintal, recebe leite como alimento, mas sempre volta. Como uma espécie de companhia feminina mágica do além, a voladora é uma forma de resistência constante que não escapa jamais. Que se alimenta da casa, da rebeldia que ainda há na casa, e resiste às forças do mundo.
Mónica Ojeda, sem dúvida, é uma das autoras que mais recombina com alegria esses elementos para compor seus contos. Com controle narrativo, suas descrições que beiram o gore também convocam um horror das estruturas sociais, ao mesmo tempo que lhes dá tons poéticos nas linhas de fugas possíveis de construção.
“Voladoras”, como ela mesma diz, é uma geografia, a tentativa de traçar uma descrição, um mapa de vivências marginalizadas em um Equador que não aparece nas grandes fotografias. Com personagens terríveis, mas também sofredores, Ojeda humaniza as dores e as exclusões, dando a elas tons mágicos que fazem o mundo se tornar um pouco mais suportável. Quando sumir a magia, acredite, só vai sobrar a violência.