A história do Irã é uma das mais antigas – e ricas – do mundo. O Irã moderno está no centro do que um dia foi a antiga Pérsia – uma das maiores potências da antiguidade, talvez a primeira superpotência no sentido similar ao que pensamos hoje. O império aquemênida, fundado no século VI a.C., chegou a abarcar territórios que iam do atual Paquistão até a Líbia, do Cáucaso até o Golfo Pérsico — tornando-se, em seu auge, o maior império que o mundo havia visto até então.
Sob governantes como Ciro, O Grande, o império persa governou territórios vastíssimos com sistemas complexos de administração, estradas e impostos, além de relativa tolerância religiosa, bastante avançados para seu tempo. A famosa “Estrada Real”, que conectava Sardes, na Anatólia, a Susa, no coração do império, permitia comunicação e comércio numa escala sem precedentes. Ciro ficou também conhecido pelo Cilindro de Ciro, frequentemente citado como um dos primeiros documentos de direitos humanos da história, no qual declarava permitir que os povos conquistados mantivessem seus idiomas, religiões e costumes.
Essa herança é muito valorizada por uma boa parcela dos iranianos – cujo idioma é persa, e que ainda se referem à si próprios, com frequência, como persas. Vale notar que o nome “Irã” deriva do avéstico airyana, que significa “terra dos arianos” — sendo uma designação antiga que coexistiu com “Pérsia” por séculos, até que, em 1935, o governo iraniano pediu formalmente à comunidade internacional que passasse a usar “Irã” nos documentos diplomáticos. O termo ainda é usado informalmente e faz parte da linguagem da cultura. Para muitos iranianos, essa continuidade histórica — da Pérsia aquemênida ao Irã contemporâneo — não é apenas questão de orgulho, mas de identidade viva.
Um país governado por Xás
Por mais de 2.500 anos, o Irã foi uma monarquia sob governantes chamados de Xás. O título em si — shāh, em persa — significa simplesmente “rei”, mas carregou ao longo dos séculos um peso simbólico muito maior: os xás persas frequentemente se apresentavam como intermediários entre o divino e o humano, herdeiros de uma legitimidade que remontava à criação do mundo. O título completo mais usado era Shāhanshāh, “rei dos reis”, refletindo que o soberano persa governava não apenas um povo, mas uma multiplicidade de nações e etnias sob uma única coroa.
Essa longuíssima tradição de reis durou até o século XX. Ao longo desses milênios, o Irã foi governado por dinastias de origens e características muito distintas — persas, partas, sassânidas, e depois, após a conquista islâmica do século VII, por linhagens turcas, mongóis e safávidas, entre outras. Os safávidas, que governaram entre 1501 e 1736, merecem destaque especial: foram eles que estabeleceram o islã xiita como religião oficial do Estado iraniano, uma decisão que moldou profundamente a identidade do país e o distinguiu dos impérios sunitas vizinhos, como o Otomano. Já os Qajares, dinastia de origem turcomana que governou de 1789 a 1925, presidiram um período de intensa pressão externa, com a Rússia e a Grã-Bretanha disputando influência sobre o território iraniano.
O petróleo mudou tudo
Petróleo foi encontrado pela primeira vez no território do país em 1908, na região de Masjed Soleiman, no sudoeste do Irã — a primeira descoberta comercialmente significativa de petróleo em todo o Oriente Médio. A notícia rapidamente atraiu a atenção de empresas estrangeiras e interesses estratégicos. Em 1909, foi fundada a Anglo-Persian Oil Company, posteriormente renomeada Anglo-Iranian Oil Company e, mais tarde, British Petroleum — a hoje conhecida BP. O acordo original que concedeu direitos de exploração aos britânicos era amplamente considerado leonino: o Irã recebia uma fração pequena dos lucros, sem acesso real aos livros contábeis da empresa e sem participação nas decisões estratégicas.
Firmas controladas pelos britânicos dominaram a extração e o lucro do petróleo por décadas, levando à demandas crescentes dos iranianos por soberania sobre seus próprios recursos. O ressentimento foi se acumulando ao longo de uma geração inteira, alimentado pela percepção — amplamente justificada — de que a riqueza do solo iraniano enriquecia Londres enquanto a população local via pouco retorno. No início da década de 1950, o primeiro ministro democraticamente eleito do Irã, Mosaddegh, movimentou-se para nacionalizar a indústria petrolífera, escalando as tensões entre o Irã e o Reino Unido e os Estados Unidos.
A resposta ocidental foi imediata e pesada: a Grã-Bretanha organizou um boicote internacional ao petróleo iraniano, e os Estados Unidos acabaram se alinhando aos britânicos. Em 1953, a CIA e o serviço de inteligência britânico MI6 orquestraram um golpe de Estado — conhecido pelo codinome Operação Ajax — que depôs Mosaddegh e reinstalou o Xá Mohammad Reza Pahlavi no poder. O episódio ficou gravado na memória iraniana como prova concreta da interferência ocidental em seus assuntos internos, e suas consequências reverberam nas relações entre o Irã e o Ocidente até hoje.
A Era Pahlavi foi complexa
A CIA e o MI6 restauraram e fortaleceram a autoridade do Xá – Mosaddegh tinha limitado o poder real, reduzindo o xá a uma figura cada vez mais cerimonial durante seu governo. O golpe de 1953 inverteu esse processo de forma abrupta. Depois do golpe, o governo do Xá se tornou muito mais consolidado e autoritário, firmemente apoiado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido durante a Guerra Fria.
Mohammad Reza Shah Pahlavi governou o Irã por mais duas décadas após o golpe, com apoio financeiro, militar e político crescente do Ocidente. Em 1957, com assistência direta da CIA e do Mossad israelense, foi criada a SAVAK — a polícia secreta do regime, temida por sua eficiência na repressão a dissidentes políticos. A SAVAK monitorava a população, prendia opositores e era acusada sistematicamente de tortura. Para Washington, no entanto, o Irã do Xá era um aliado estratégico insubstituível: uma potência regional estável, anticomunista, com petróleo abundante e fronteira com a União Soviética.
Ao mesmo tempo em que tinha um posicionamento cada vez mais autoritário, porém, o Xá também conduziu um ambicioso programa de modernização e ocidentalização do país, chamado de Revolução Branca, lançado em 1963 — que incluía reforma agrária, expansão do direito ao voto para mulheres e um vasto programa de industrialização. As mudanças foram reais, mas implementadas de cima para baixo, e frequentemente em atrito com setores tradicionais da sociedade iraniana, especialmente o clero. O crescimento econômico coexistia com repressão política sistemática — uma contradição que foi se tornando insustentável ao longo dos anos 1970, e que preparou o terreno para o que viria a seguir.
A Revolução de 1979
Em 1979, ocorreu uma revolução popular. O descontentamento com o regime do Xá havia se acumulado por décadas — a repressão da SAVAK, a desigualdade econômica, o ritmo acelerado da ocidentalização, e a percepção generalizada de que o governo servia a interesses estrangeiros antes dos iranianos. Quando a crise eclodiu, ela varreu o país com uma velocidade que surpreendeu até os próprios revolucionários.
A Revolução inicialmente não era apenas religiosa, unindo reformadores seculares, esquerdistas, centristas, clérigos, estudantes e trabalhadores unidos em oposição ao Xá – embora suas visões à respeito do futuro do país diferissem de maneira dramática. Havia marxistas que vislumbravam uma revolução socialista, liberais que queriam uma democracia constitucional, nacionalistas que seguiam a tradição de Mosaddegh, e religiosos que defendiam um Estado islâmico. O que os unia era a rejeição ao Xá; o que os dividia era tudo o mais.
O aiatolá Ruhollah Khomeini, que havia passado anos no exílio — primeiro no Iraque, depois na França — soube capitalizar esse momento com habilidade política considerável, apresentando-se como figura agregadora antes de consolidar o poder. O resultado – uma teocracia chamada de República Islâmica do Irã – não foi o que a maior parte dos iranianos esperava ou queria. Nos anos seguintes à Revolução, as facções seculares e de esquerda que haviam participado ativamente da queda do Xá foram sistematicamente marginalizadas, presas ou eliminadas. O novo regime se mostrou ainda mais intransigente com a oposição interna do que o anterior.
Muitos abandonaram o país ou foram presos ou mesmo mortos por rejeitá-la. A diáspora iraniana que se formou a partir de 1979 — concentrada nos Estados Unidos, na Europa e em outros países do Oriente Médio — carrega até hoje essa fratura original: a memória de uma revolução que prometeu liberdade e entregou outra forma de autoritarismo.
O Irã hoje
A República Islâmica não é a história toda. Desde 1979, o Irã vem sendo governado como uma república islâmica sob liderança clerical — um sistema político singular, no qual o poder máximo pertence não a um presidente eleito, mas ao Líder Supremo, cargo ocupado por Khomeini até sua morte em 1989 e desde então por Ali Khamenei, assassinado em fevereiro último após ataques militares dos Estados Unidos e Israel.
O Irã mudou de maneira dramática – restringindo direitos de minorias, direitos das mulheres, e reprimindo muitas partes da vida comum dos iranianos. O código de vestimenta imposto, as restrições à música e às artes, a criminalização de comportamentos considerados contrários à lei islâmica — tudo isso transformou profundamente o cotidiano de uma população que, em grandes centros como Teerã, havia vivido de forma consideravelmente mais liberal nas décadas anteriores.
Mas a sociedade iraniana em si própria é diversa, educada, artística e constantemente negociando formas de preservar sua cultura e dignidade em meio à limitações políticas. O Irã tem uma das maiores taxas de alfabetização do Oriente Médio e uma tradição universitária robusta — com muito mais mulheres do que homens matriculadas no ensino superior em vários períodos recentes, um dado que contradiz imagens simplificadas, e frequentemente municiadas para justificar o preconceito e a intervenção estrangeira, do país.
A literatura, a poesia, o cinema e as artes visuais iranianas continuaram a florescer mesmo sob restrições, frequentemente operando nas frestas do permitido ou desafiando abertamente os limites. Diretores como Abbas Kiarostami e Asghar Farhadi ganharam reconhecimento internacional precisamente por obras produzidas dentro do Irã.
Os protestos também fazem parte dessa história. Em 2009, o Movimento Verde contestou os resultados eleitorais e levou multidões às ruas. Em 2019 e 2022, ondas de protestos varreram o país — os últimos deflagrados pela morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia da moralidade, gerando o movimento “Mulher, Vida, Liberdade” que ganhou repercussão mundial. A resistência da sociedade iraniana ao controle total não é nova, tampouco passiva.
Um país de óleo e arte
O sistema da República Islâmica é, por qualquer métrica razoável, autoritário. Reprime dissidentes, restringe liberdades fundamentais, persegue minorias e governa através de estruturas que concentram poder em mãos de uma liderança clerical não eleita. Isso não está em disputa.
O que está em disputa é o que se segue daí. O Irã chegou à sua teocracia por um caminho que passa, de forma direta, pela intervenção estrangeira. A democracia iraniana foi interrompida em 1953 não por uma falha interna, mas por um golpe financiado por Washington e Londres para proteger interesses petrolíferos. O autoritarismo que se seguiu, apoiado pelo Ocidente por décadas, gerou as condições exatas que tornaram 1979 possível. Dificilmente se pode diagnosticar a doença ignorando a etiologia.
A história do petróleo iraniano, por sua vez, não terminou em 1953. O Irã possui algumas das maiores reservas de petróleo e gás do mundo — e essa geografia não deixou de ser relevante para nenhuma das potências que, ao longo dos últimos cem anos, demonstraram interesse em sua estabilidade ou instabilidade. Quando governos ocidentais falam em intervenção no Irã como instrumento de libertação do povo iraniano, convém lembrar que essa retórica tem precedentes, e que esses precedentes terminaram, invariavelmente, em benefício de quem extraía o petróleo, não de quem vivia sobre ele.
O povo iraniano não precisa de intervenção; já conhece seus custos de perto. O que o Irã tem, e sempre teve, é uma civilização. Uma língua com milênios de literatura. Uma tradição poética que atravessou impérios e revoluções. Uma população jovem, instruída e consciente de sua própria história, que já demonstrou, nas ruas, que é perfeitamente capaz de articular seus próprios descontentamentos, sem precisar que potências estrangeiras os articulem por ela, com bombardeiros.
Condena-se o regime; respeita-se o país. A distinção não é difícil — apenas, com frequência, inconveniente.
Leia também: Conheça Ramin Karimloo, o iraniano que se tornou um dos maiores nomes do teatro musical do mundo.