Sem categoria

Fogo na Carne: romance de Marcos Emílio Frizzo retrata violência e invisibilidade social através do gentil ato de narrar e escutar

O retrato da invisibilidade social na literatura brasileira é sempre feito através de personagens e figuras marcantes. O escritor piauiense Assis Brasil, falecido nos últimos anos e autor de mais de 130 obras, costumava dizer que não se considerava um marxista porque considerava o termo pouco para traduzir como se sentia diante do mundo. Para ele, os seres humanos eram figuras oprimidas não só socialmente pelas classes dominantes, mas também cosmicamente pelos deuses que dominam os planetas.

Corroboro com ele porque só isso poderia me fazer explicar a morte da cachorra Baleia em Vidas Secas, de Graciliano Ramos. A fiel escudeira de Fabiano e da família de retirantes, depois de tanto andar e de tanto caçar presas, tanto sofrer até seu sacrifício, é, sem dúvida, uma perda irreparável. Mas também sofro a dor de Clara dos Anjos, de Lima Barreto, e de Eugênia, de Memórias Póstumas, aquela que era “bela e coxa”.

Se na cachorra Baleia temos a pobreza, a questão da terra e a fome como principal atravessamento, em Clara dos Anjos era a raça e a classe; já em Eugênia, o gênero e a classe é que predominam. Porém, creio que seja em Carolina Maria de Jesus que a invisibilidade social reúne seus principais contornos, principalmente porque Carolina é uma personagem real. 

Desde o “achamento” dos diários por um jornalista até o fim, novamente em um silêncio da mídia, Carolina vivenciou as experiências de ser uma minoria em um país tão desigual. Pois é disso que vamos tratar, talvez com ainda mais profundidade, ao falar do romance Fogo na Carne, do escritor Marcos Emílio Frizzo, publicado pela Editora Litteralux, em 2026.

Fogo na Carne, de Marcos Emílio Frizzo, conta a história de Daniel, um morador de rua que, a princípio sem memória, vai, pouco a pouco, narrando a sua história a uma doutora que lhe faz visitas. Dividido em quatro capítulos: A praça; a família; a rua; e o fogo, vamos, ao longo das 120 páginas, descobrindo a história dessa figura ao mesmo tempo em que ela lembra de si.

Minha cabeça está desse jeito agora.  
Parece que perdi o fio do meu tempo. Tem horas que me vejo menino, em outras, nem sei bem quem sou.

Narrado por essa voz, uma espécie de narrador-personagem, vamos conhecer esta figura que passa por uma série de dificuldades na vida, ao mesmo tempo em que vivencia uma experiência plural de um brasileiro que habitou nosso país do século XX: ele passa pela zona rural, sobrevive à seca ao lado de sua família e, em seguida, passa a viver nas cidades e precisa sobreviver também ao caos urbano que vai se construindo nas cidades médias e grandes.

Entretanto, as primeiras páginas do livro nos deixam com uma série de perguntas: Por que ele está narrando essa história para uma doutora? Quem é esta doutora? É uma médica? Uma pesquisadora da universidade? Por que ela não fala também? Onde exatamente Daniel está? Por que ele precisa lembrar sua história? Qual a intenção da necessidade dessa lembrança?

Um dos grandes méritos da narrativa de Marcos Emílio é nos engajar de cara nessas questões, mesclando uma narrativa densa pela temática com uma construção de imagens poéticas, repletas de imagens, metáforas e metonímias. Digo isso porque meu livro ficou todo marcado com as belíssimas citações. Ao mesmo tempo, Marcos não precisa de muito para construir essas imagens, o livro é todo marcado por frases curtas e parágrafos pequenos, de modo que somos sempre levados a um frasear que nos empurra a seguir lendo.

No primeiro capítulo, “A Praça”, por exemplo, Marcos Emílio nos faz uma espécie de “geolocalização” da personagem, dando-nos a ver Daniel dentro do espaço urbano da cidade. Ali, ele situa a figura como uma pessoa em situação de rua, alguém que não fazia uso de nenhuma substância e que tinha uma boa relação com a vizinhança apesar da desconfiança de alguns.  

É ali que descobrimos também o que ele estava procurando na cidade: o seu filho. Mas ainda sem muitos detalhes, apenas o suficiente para sabermos o motivo de sua estadia nas ruas:

Rostos e risos que estão aqui dentro, bem aqui na minha cabeça, num lugar que não consigo encontrar.  
Por isso, ficava desse lado da praça. Nunca sabia o que viria do passado. Tanta vida guardada na gente… não dá pra saber o que virá…

E é a partir desse fiozinho de memória que ele puxa que toda a memória resolve sair e dali surge todo o resto do romance:

A memória parece que funciona com uns fiozinhos: se a gente puxa o fio certo, lembra.

No segundo capítulo, A Família, o título do capítulo deixa de ser topológico, A Praça,  para se tornar morfológico. Ora, se topos, do grego, significa lugar e morfos significa forma, poderíamos ter a impressão de que estaríamos fazendo um deslocamento do espaço para as formas, da região para as pessoas.

Leia também: “Canção de Ninar”, de Leila Slimani: um jogo de espelhos que esconde em thriller romance sobre pertencimento

Entretanto, não creio que este seja o caso. Fogo na Carne é produzido através de um ethos geográfico cujo eixo central organiza todas as pontas do romance. Vejamos: em A Família, temos dois pontos centrais. O primeiro é que Daniel relembra a história de sua própria biografia de infância, de sua mãe e de seu irmão. Um destaque para sua mãe que, apesar do pouco estudo, sempre fez questão de incutir aos filhos o valor do estudo e dos livros:

“Da minha mãe já lhe contei, mulher de pouco estudo, mas que sabia ler e tinha bem o valor da leitura. Disso me lembro, sempre: ‘Daniel, os livros alimentam a alma’, dizia ela.”

E isto foi essencial para que Daniel despertasse também o poder da imaginação que só a leitura pode trazer:

Quando eu lia, caía no mundo, dava até medo, a senhora sabia?  
É que lendo, minhas ideias corriam sozinhas, e eu não sabia pra onde… Daí tinha que seguir pra entender, às vezes dava medo de perder o caminho e não poder voltar.  

Minha mãezinha dizia, da época que ela tanto lia, que a leitura é caminhar no caminho do outro, daquele que escreveu, e que só ele sabe o destino da prosa e se tem verdade naquilo que você leu.

A trajetória da personagem vai seguir com sua paixão pela leitura, vai casar e ter um filho. Em seguida, no entanto, virá  a grande tragédia de sua vida: o desaparecimento desse seu filho. E este é o último ponto da história que trarei nesta resenha: o pedido de sua esposa que Daniel saia de casa para ganhar o mundo e encontrar seu filho.

Eis que temos em seguida o capítulo A Rua, retornando, saindo da construção da biografia e voltando para os lugares das cidades. Note que o romance vai se construindo através desta espécie de geografia afetiva entre o desejo de retratar a vulnerabilidade social e o esforço de traduzir uma subjetividade subjugada por duas forças: de um lado a rural e, de outra, a urbana.

Até quando Marcos Emílio descreve a importância dos livros, a descrição é de uma ideia que corre sozinha e o sujeito precisa ir atrás, tal como faz seu filho, como se a subjetividade, o sonho, o desejo, a força, o amor, a paz, o bem, fossem coisas social e cosmicamente retiradas de nós a todo instante e fôssemos relegados a topologicamente correr atrás delas. E isso não é destino, são forças e dinâmicas sociais que são construídas e das quais somos vítimas, de deuses, talvez?

É só quase no fim do romance que descobrimos onde está o personagem Daniel e qual foi o motivo pelo qual ele está onde está e porque ele fala com uma doutora. E é por isso que compreendemos suas razões de porque ele precisa relembrar a sua história e porque sua memória, neste momento, é tudo que lhe resta. Mas não é só dele que estamos falando, mas de muitos em situação análoga que têm seus direitos às suas histórias a serem contadas: dos indígenas queimados, dos Cachorros Orelhas, a qualquer travesti que é atendida pelo Padre Julio Lancellotti. Todos merecem que suas vidas sejam vividas, dignamente e narradas.

No caso de Daniel, de Fogo na Carne, o título é muito sugestivo de sua história  e seu presente que se atualiza todos os dias que alguém lhe lê. Mas um título serve pra quê? Pra quem?

Daniel. Este é meu nome.  
Mas pra que um nome, se ninguém vai me chamar?  Perdi tudo que eu tinha, o nome que tenho não importa mais pra mim. Desde que fiquei na rua, nunca alguém me perguntou, povo da rua não usa nome, igual fala pouco, nem tem com quem conversar. (…) A rua desmonta e descarna, igual como aquele açougue da vila fazia com os bois.

Enfim, um livro essencial, de uma beleza ímpar, de um cuidado minucioso de respeitar as personagens que cria com tanto zelo. É possível sentir o amor e cuidado que Marcos Emílio teve e tem com Daniel, um gesto de gentileza diante da injustiça com que fez sua própria criação passar. Mas…é preciso escrever.

Afinal, é muito difícil traduzir uma injustiça quando uma injustiça maior foi cometida. Aliás, um crime, mas chamar de crime também não resolve a injustiça, nem salva a vítima da violência. E chamar de violência também não cura as feridas, nem traz a paz, nem salva o corpo das marcas e cicatrizes. As palavras não salvam ninguém. Nem nada, nem ninguém.

Sobre o autor:

 Natural de Porto Alegre, o autor é professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Possui mestrado, doutorado e pós-doutorado na área de Neurociências. Fogo na carne é seu terceiro romance publicado.

Na literatura, interessa-se pela temática social, abordando temas do cotidiano, como a miséria hereditária e diferentes formas de exclusão e preconceito.

Instagram: https://www.instagram.com/marcosemiliofrizzo/


Compre aqui!