Comentarista da TNT afirmar que “Ainda Estou Aqui” é brasileiro e “O Agente Secreto” é recifense é injusto e violento até se for elogio

No fim da transmissão de ontem, uma comentarista da TNT, disse uma frase que tem gerado polêmica. Ela afirmou que “Ainda Estou Aqui” é um filme brasileiro e “O Agente Secreto” é um filme recifense. Sem expor pessoas ao hate, precisamos esclarecer algumas coisas.

O Nordeste brasileiro é uma invenção do Sudeste brasileiro. Ou seja, o centro de poder inventa a periferia, dá nome a ela e a chama de “regional”. O regionalismo brasileiro é uma invenção. E não sou eu que digo isso. Existe um belíssimo livro chamado “A invenção do Nordeste e outras artes”, de Durval Muniz de Albuquerque Jr., em que ele trata exatamente desse ponto.

Minha tese de doutorado sobre o piauiense Assis Brasil trata disso e se chamou “As memórias de uma literatura infinita: Assis Brasil e um glossário múltiplo entre a (re)invenção do moderno e a (des)invenção do Nordeste” falava disso. Assis editou suplementou do JB por décadas, teve uma vida austera no Rio de Janeiro, dedicada às letras, rejeitou a elite carioca. Ficou esquecido. Foi o primeiro a escrever bem sobre Guimarães Rosa e permaneceu até o fim da vida em Teresina.

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Outro livro chave do tema é “Orientalismo”, de Edward Said. Sua tese é: o Ocidente inventou o Oriente. O eixo Rio-SP faz o mesmo com o Nordeste: homogeneíza-o como uma massa única e exotiza tudo de lá, folclore, lenda, misticismo, “cultural”.

Enquanto o centro-sul faz arte, o Nordeste faz artesanato. Enquanto o centro-sul faz teatro, eles fazem “mambembe”, e assim vai. Por isso, o termo “sudestino” é uma invenção genial, porque descoloniza o pensamento ao inverter o eixo de quem pensa. Por isso Alice Carvalho usa lindamente o mapa ao contrário. É o Nordeste pensando o Sudeste de ponta à cabeça.

Dito isso, o que parece é que, para a comentarista, dizer que “O Agente Secreto” é recifense é tentar empurrá-lo de volta ao Nordeste depois de ele ter passado quase um ano sendo mundial, minutos após sua derrota. Enquanto ganhava (ou era cotado), era o filme do Brasil no mundo; depois que perde, volta a ser nordestino em excesso. Não podemos deixar isso passar porque é violento demais.

“O Agente Secreto”, pelo contrário, é brasileiro até demais. E isso é elogio, viu?

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