“La Cazadora” (2026) analisa o trauma deixado pela violência de gênero

Similar ao outro filme que vi em Sundance, Rock Springs, La Cazadora tem sua base fincada na realidade, ainda que, no caso do longa mexicano, ela se misture a um aspecto quase mítico, fruto tanto da oralidade quanto da necessidade simbólica de dar forma a uma violência recorrente. Dirigido por Suzanne Andrews Correa, o filme se inspira na história de “Diana, a caçadora de motoristas de ônibus”, mulher que, em 2013, assassinou dois motoristas em Ciudad Juárez, ambos suspeitos de crimes sexuais.

Nunca capturada, Diana acabou se tornando mais do que um caso policial: sua figura passou a circular como lenda urbana e, ao mesmo tempo, como emblema da violência de gênero em uma região marcada por índices alarmantes de feminicídio. La Cazadora se afasta da curiosidade sensacionalista em torno do mito para se concentrar no que ele deliberadamente apaga: a dimensão humana por trás da narrativa.

Aqui, Diana ganha o nome de Luz (Adriana Paz), uma mulher de 40 anos que trabalha em uma fábrica de eletrodomésticos e leva uma vida marcada pela rotina, pelo desgaste físico e por uma sensação constante de invisibilidade. Não há grandiloquência nem traços de heroísmo em sua caracterização; ao contrário, o filme insiste em aproximá-la da normalidade: ela precisa se explicar porquê atrasou para o trabalho, por exemplo.

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Luz está muito distante da firmeza assassina que uma alcunha como “A Caçadora de Motoristas de Ônibus” poderia sugerir. Em seu primeiro ato de justiça, cometido em plena luz do dia, o olhar é tomado pelo medo, a mão treme ao segurar a arma. Após os disparos, ela se refugia em um banheiro público e vomita. Não se trata de uma figura impiedosa ou resoluta, mas de uma mulher comum, atravessada por hesitação, repulsa e fragilidade.

Parte importante da sua caracterização é a maternidade. Sua filha, Alejandra (Jennifer Trejo), de 14 anos, e está começando a despertar a atenção dos homens – elemento que vem à tona em uma das cenas mais tensas do filme – e parte dos atos da protagonista envolve oferecer um mundo seguro para a filha e protegê-la de uma violência que a mesma sofreu: Luz é sobrevivente de um estupro, perpetrado por um motorista de ônibus.

La Cazadora, a priori, pode parecer mais um no subgênero rape revenge mas rapidamente se distancia de suas convenções mais reconhecíveis. Não há aqui a catarse da vingança nem o conforto moral de uma justiça clara e delimitada, além do foco no trauma duradouro que tal ato deixa em uma mulher. 

A trama também não deixa de olhar para violências mais simbólicas que perpassam as relações de gênero, como comentários inconvenientes de homens em espaços públicos, olhares insistentes e pequenas invasões do cotidiano que, isoladamente, poderiam ser descartadas como banalidades, mas que, acumuladas, constroem um ambiente de permanente ameaça.


Assim, La Cazadora entende a figura da caçadora como inevitável, uma resposta direta à negligência institucional e social que normaliza a violência contra mulheres e as obriga a viver em estado de alerta permanente. O longa se firma como um retrato incômodo e necessário de um mundo onde a autoproteção feminina surge não como escolha, mas como último recurso diante de um sistema que falhou.

Texto de Cobertura do Festival de Sundance 2026

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