“Filipiñana” (2026) – A enganosa tranquilidade de um campo de golfe

A única cena fora de um campo de golfe em Filipiñana é reveladora. Dentro de um ônibus, turistas chineses se isolam da realidade das Filipinas, enquanto do lado de fora, a população luta para conseguir uma garrafa de água no meio de um calor tão insuportável que até a guia de turismo ensina aos turistas termos locais para expressar o desconforto térmico. Os planos seguintes mostram partes do campo de golfe central à história, e é impossível deixar de notar a quantidade de água usada no espaço.

O campo de golfe é um espaço que ilude. Uma visão superficial revela um espaço verde, de contato com a natureza, de tranquilidade. Contudo, se trata de um local altamente artificial, de formas definidas. Os morros gramados e os lagos perfeitamente circulares, a posição estratégica de certas árvores, que são transportadas por caminhões.

Essa rigidez das formas se estende para as pessoas que ali habitam. Há uma hierarquia bem definida ali. “Somente os jogadores e os caddies podem estar no campo” relembra uma gerente para suas funcionárias, e até o modo que os jogadores se dispõem em dado momento é ordenado, sincronizado, e sempre reforça a ordem das coisas. A protagonista, Isabel (Jorrybel Agoto), fica agachada próxima ao jogador, substituindo as bolas, enquanto ele fica acima dela. O diretor Rafael Manuel a enquadra entre as pernas do golfista.

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Essa relação de poder, marcada visualmente pelo enquadramento e pela disposição dos corpos no espaço, sintetiza muito do que Filipiñana articula ao longo de sua narrativa, e que marca a história das Filipinas. Um dos campos de golfe do país, o Luisita Golf Club, foi construído em cima de uma antiga plantação de açúcar, palco da morte de 14 trabalhadores grevistas em 2014.

Filipiñana evoca essa herança sem recorrer a explicações didáticas. O peso histórico emerge da própria lógica do lugar, de como a terra é utilizada e de quem tem permissão para ocupá-la. Isabel, nesse sentido, carrega no corpo essa continuidade: seu trabalho silencioso e invisível é herdeiro direto de um sistema que sempre exigiu submissão para funcionar. O campo de golfe, com sua grama aparada e seus lagos geométricos, se sustenta sobre camadas de violência que permanecem fora do enquadramento explícito, mas nunca fora do sentido.

Ao transformar o campo de golfe em um espaço de observação rigorosa, Filipiñana expõe como luxo, lazer e ordem aparente são construídos sobre desigualdades históricas profundamente enraizadas. O filme encontra sua força justamente na recusa ao discurso explicativo, permitindo que a violência estrutural se revele na composição dos planos, na organização dos corpos e no uso da terra.

Texto de Cobertura do Festival de Sundance 2026

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