Reflexões sobre o racismo, publicado pela editora Perspectiva, com tradução de J. Guinsburg, reúne dois textos do filósofo Jean-Paul Sartre publicados separadamente, ainda que na mesma época e sob os efeitos do imediato pós-Segunda Guerra Mundial.
Orfeu Negro (1948) avalia o movimento da negritude a partir da obra poética de Aimé Césaire e Léopold Senghor, e insere a crítica ao racismo antinegro no horizonte conceitual do existencialismo, em uma articulação entre estética, identidade e luta pela liberdade.
Reflexões sobre a questão judaica (1946) aborda do ponto de vista filosófico o antissemitismo, no contexto do pós-Holocausto, propondo uma análise crítica desse tipo de racismo ainda profundamente enraizado no Ocidente. Através de uma desconstrução do comportamento e da postura psicológica do tipo antissemita, aliada a uma análise de aspectos relevantes da história da Europa, procura provar a incoerência das ideias racistas contra o povo judeu. A análise de Sartre busca as raízes existenciais do antissemitismo e, no fundo, de todo racismo.
“Destruição, auto de fé da linguagem, simbolismo mágico, ambivalência dos conceitos, toda a poesia moderna está aí, sob o seu aspecto negativo. Mas não se trata de um jogo gratuito. A situação do negro, sua “dilaceração” original, a alienação que um pensamento estrangeiro lhe impõe sob o nome de assimilação obrigam-no a reconquistar sua unidade existencial de negro ou, caso se prefira, a pureza original de seu projeto, por uma ascese progressiva para além do universo do discurso. A negritude, como a liberdade, é ponto inicial e termo final: trata-se de passá-la do imediato ao mediato, de tematizá-la.
Apontei, há pouco, que o antissemitismo se apresenta como uma paixão. Todo mundo compreendeu que se trata de uma afecção de ódio ou de cólera. Mas, comumente, o ódio e a cólera são solicitados: odeio quem me faz sofrer, quem me desdenha ou me insulta. Acabamos de verificar que a paixão antissemita não poderia ter esse caráter: ela se antecipa aos fatos que deveriam suscitá-la, vai procurá-los a fim de se alimentar deles, deve até interpretá-los à sua maneira para se tornarem verdadeiramente ofensivos. No entanto, quando falamos do judeu ao antissemita, este externa todos os sinais de uma viva irritação. Aliás, se nos lembrarmos de que devemos sempre consentir a cólera para que ela possa manifestar-se e que segundo a expressão tão precisa, a gente se toma de raiva, teremos de convir que o antissemita escolheu viver no modo apaixonado. Não raro opta-se por uma vida apaixonada em vez de uma vida racional.”
A obra apresenta a visão de Sartre sobre a questão racial das duas minorias que impactam a consciência e as sociedades ocidentais e o quanto o filósofo ainda tem a dizer no que concerne aos identitarismos e à luta antirracista na atualidade.
“Ao entrelaçar as análises desenvolvidas em Reflexões sobre a questão judaica e “Orfeu Negro”, torna-se evidente que Sartre aponta para uma crítica profunda à concepção ocidental de universalidade, tal como formulada a partir de uma imagem normativa: a do homem branco europeu. Tanto o judeu quanto o negro, em suas respectivas experiências de marginalização no Ocidente, revelam que essa pretensa universalidade repousa sobre a exclusão sistemática das alteridades.” — do prefácio, escrito por Lia Vainer Schucman
Sobre o autor:
Jean-Paul Sartre (1905–1980), filósofo existencialista francês, destacou-se também por seu engajamento político contra o colonialismo e o racismo. Influenciado pelo marxismo e pela fenomenologia, tornou-se uma voz crítica da opressão sistêmica, defendendo a liberdade como essência humana.
Sua luta antirracista ganhou ímpeto com o apoio aos movimentos anticoloniais. Em 1961, escreveu o prólogo de Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, denunciando a violência colonial como um mecanismo de desumanização. Sartre argumentava que o racismo era um instrumento do colonialismo europeu para justificar a exploração, e defendia a violência revolucionária como resposta legítima à opressão. Recusou o prêmio Nobel de Literatura em 1964, alegando que nenhuma instituição deveria intermediar a relação entre cultura e justiça social. Sua parceria com Simone de Beauvoir também reforçou seu ativismo, incluindo a fundação da revista Les Temps Modernes, voltada aos debates sobre direitos humanos e igualdade.
Deixou um legado que une pensamento e militância, inspirando gerações a combater o racismo e a defender radicalmente a liberdade contra todas as formas de opressão.