Eu sou encantado pelas palavras. Por ouvi-las dizer, repetir, ressoar, ressonar. Ouvir a palavra dizer não só o que ela é, mas também o que ela guarda e esconde de nós. No caso dos livros, isto acontece principalmente com os títulos. Ao ler um belo título, os sentidos do livro começam a falar antes mesmo que se comece a ler e ficam ali ressoando as múltiplas possibilidades de um mundo que ao mesmo tempo se abre e se forma. Foi isto a primeira coisa que me cativou, ao abrir o livro Refúgio, de Íris Cavalcante.
Digo isso porque a palavra refúgio se abriu de forma a poder significar muitas coisas: de um lugar objetivo onde a gente pode se esconder, onde se sente seguro, até um sentido mais metafórico, de um lugar que serve de amparo e proteção. A própria palavra refúgio guarda em si o verbo “fugir”, que junto com o prefixo “re” pode significar fugir duas vezes. A primeira fuga é a saída de um lugar, a segunda é o encontro de outro lugar para se estar.
No caso do livro de Íris Cavalcante, a palavra Refúgio ganha ainda outro sentido: se torna não só um substantivo que denota um lugar, mas também um nome próprio: uma pessoa que diante da vida é ou precisou de refúgio e de amparo, ampliando ainda mais o sentido da palavra. Refúgio, para Íris Cavalcante, é onde a gente encontra um ombro para descansar da vida.
Refúgio é uma novela ou um breve romance que vai se montando e moldando diante de nossos olhos enquanto lemos. Nele, temos a história de uma série de mulheres de uma família, todas elas atravessadas pelas suas dores, seus amores, seus traumas do passado e, principalmente, pela passagem do tempo. Dividido em duas partes, o livro retrata na primeira parte a história de duas irmãs, Rezinha (Maria do Refúgio) e Caetana. As duas irmãs, já idosas, se reúnem para conversar sobre suas vidas pregressas.
Todas as tardes, acompanhadas de um chá cuja receita é segredo de uma delas, descobrimos, por exemplo, que elas não são irmãs de sangue: Rezinha, após um começo de vida conturbado e violento, fora adotada pela mãe das duas e, mesmo havendo outros irmãos, foram elas as que criaram uma relação de maior proximidade. Por isso, escolhem-se para dividirem suas memórias.
“Viver é muito longo’, diz Rezinha para sua irmã.”
Enquanto Caetana relembra seus casamentos fracassados e os motivos pelos quais a presença dos homens sempre fora um lugar de opressão para ela, Rezinha evita contar a história de um trauma do passado e, enquanto a história caminha, vai nos dando pistas daquilo que fora seu maior segredo: violências sexuais sofridas que a levaram a fugir de casa e viver nas ruas. No começo dessa vida, Rezinha destaca duas condições, o medo:
“Era o medo. Nunca mais olhei o mundo com um olhar inocente, eu só conseguia ver o mundo pelos olhos do medo.”
E a fome:
“A fome também eram uns vermezinhos (…) Era como se um tecido se houvesse rasgado, bem ali no peito. Esse rasgar-se era de verdade mesmo, me doía demais, como se o peito tivesse sido aberto de cima até abaixo”
Neste ponto, Íris, como uma artesã das palavras, vai tecendo uma narrativa com ecos de um Guimarães Rosa aqui e uma singeleza de Cora Coralina acolá. Tecendo a trama das duas, para que não se despeje a história toda de uma vez só, o que nos vai ficando é um traçado que, com a palavra refúgio, nos dá a ver um jogo nas e com as palavras.
A escolha do uso apenas de diálogos para esta primeira parte é propriamente inteligente porque escapa das descrições de espaços e sentimentos que não podem ser compartilhados entre as duas. Estar, pensar e viver só passam a existir quando são ditos entre elas, quando eram transformados em palavras que atravessam ambas as personagens. Existir é falar. Inclusive, as palavras são parte do tecido central das duas:
“Nós não sabemos nada sobre as palavras. As palavras é que sabem sobre nós. As palavras nos lêem, não somos nós que lemos as palavras.”
A saída de Rezinha para escapar de um mundo que foi reduzido pela violência no seu começo de vida é um mergulho nos livros. Através daquilo que Íris chama de “inventário de coisas inúteis”, a personagem vai acumulando experiências de diversos personagens de diversos livros que vão, de alguma forma, não apenas lhe consolando, mas dando forma a sua dor que é transformada em palavras:
“Por isso, eu digo: Leiam livros. Eles ajudarão a suportar a gravidade do existir. Não tenho a ilusão de saber muita coisa sobre a vida, apesar do tanto de livro que eu li, não se sabe é nada da vida. Caetana, uma vida é muito pouco para aprender a viver.”
Na segunda parte do livro, Íris abandona o formato de escrita em diálogo para avançar em um outro mergulho. Agora, há um lapso temporal em que Miranda Benedito, sobrinha neta de Maria do Refúgio, a vó Rezinha, assume a narração para nos revelar um outro lado da história: para além daquilo que havia sido dividido entre as duas, uma outra camada arrasta e desloca a narrativa para outros cantos ainda não explorados.
Neste ponto, Refúgio percorre um espaço biográfico de Rezinha: uma menina que chega aos 13 anos naquele sobrado matriarcal e é registrada como filha, embora nunca tenha sido chamada de filha propriamente dita. Ao mesmo tempo, como se a mera biografia e narração não pudessem dar conta dos mistérios do mundo, Refúgio ganha também tons mágicos, de um realismo fantástico à lá Garcia Marquez que nos faz rever e refazer tudo aquilo que havíamos dado como fato até aquele instante da obra. Dessa parte, pouco se pode dizer sem estragar a experiência de ler.
Refúgio é uma breve obra de uma singeleza sincera que assume o lugar protagonista das mulheres em suas biografias, dando ver as vicissitudes de vidas distintas, mas todas atravessadas pelas questões de gênero, das violências, dos silenciamentos, mas principalmente da possibilidade de se construir comunidades afetivas, ilhas de afeto e companheirismo que se ultrapassam no tempo, na história e na memória.
É uma obra cuja narrativa serve de inspiração, espécie de guarda-chuva de proteção e esperança para mundos possíveis de se construir, de modo que a violência do passado pode ser reescrita de forma distinta, senão nessa vida, em outras ou em outras. Se não em uma personagem, também em muitas outras. Refúgio é uma obra que acolhe porque o tempo redime a dor.