“Amores Materialistas” (2025) não é uma típica comédia romântica

Há um aspecto muito divertido em Amores Materialistas que, provavelmente, não era a intenção da diretora e roteirista Celine Song, que é perceber o quanto o discurso de seus personagens se assemelha ao que o culto da redpill e afins vivem divulgando na internet. A casamenteira Lucy (Dakota Johnson), suas colegas de trabalho e seus clientes descrevem as relações românticas usando termos como “valor”, “mercado”, e atributos físicos e sociais que diminuem ou aumentam o “valor” de alguém para seu possível par. Um ponto importante da trama é a altura de um personagem, aspecto que é motivo de obsessão dos incels.

Não, o filme não é uma tese incel sobre como os relacionamentos atuais se dão mais como transações do que por um amor capaz de superar todos os obstáculos, mas curiosamente, ele não deixa de ter um aspecto um tanto tradicionalista sobre as relações amorosas. A abertura do filme é uma cena absurda e ahistórica: Um homem pré-histórico retorna para sua parceira, ele carrega consigo flores e diversas ferramentas rudimentares. Ele, então, confecciona um anel a partir de uma flor e, silenciosamente, se casa com sua parceira.

Apesar dessa cena, muito mais adiante, se revelar como um sonho de Lucy, a mensagem está dada: o casamento monogâmico e hétero existe desde que o mundo é mundo. Um imaginário que faria qualquer conservador salivar, vindo de um filme, aparentemente, progressista.

As implicações dessa abertura pairam sobre Amores Materialistas, que contrasta essa cena de “amor puro” com as relações utilitaristas que são o ganha-pão de Lucy.  Seus clientes descrevem o tipo de par romântico desejam, e ela é responsável por encontrar alguém que caiba dentro dos parâmetros estabelecidos. É mais um quebra-cabeça lógico do que um ato de entrega irracional.

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Mas é evidente que isso não irá durar, afinal, está lá a cena dos neandertais se casando. Esse mundo matemático irá ruir em algum momento. A previsibilidade não é necessariamente algo ruim, a graça muitas vezes é acompanhar a jornada de uma transformação óbvia.

Os polos opostos são representados nos dois interesses amorosos de Lucy, o ricaço gente boa Harry (Pedro Pascal) e o ex-namorado pobretão, mas também gente boa, John (Chris Evans). Harry é a escolha lógica, enquanto John é a aposta arriscada, tudo por conta do aspecto de classe, pois reitero, nenhum dos dois possui falhas profundas de caráter. Todo mundo é muito saudável e com terapia em dia, assim como em Vidas Passadas.

A maneira como Lucy se relaciona com ambos é simbólica dos problemas de Amores Materialistas, pois há pouco atrito. Suas afeições não são disputadas pelos homens, nem ela exatamente fica em dúvida entre os dois. Ela namora um, percebe que não o ama, e depois fica com o outro, assim como sua transformação de uma pessoa com visão prática sobre o amor para uma idealista acontece de modo fugaz, com uma ingenuidade que o filme não trabalha para conquistar.

Se trata de uma narrativa antenada com os problemas dos relacionamentos modernos, e chega até abordar, brevemente, a questão da violência, mas que quer abraçar o amor romântico de forma acrítica, como se o ideal de “o amor supera tudo” também não acobertasse um sem-fim de violências. É uma obra reflexiva até não ser mais.

É por ficar nesse meio termo entre comédia romântica e reflexão crítica sobre relações amorosas que Amores Materialistas se torna uma experiência um tanto vazia. Nem os personagens passam por transformações significativas. Lucy, por exemplo, mesmo diante da desilusão com seu ofício, parece aceitar a promoção que recebe ao final do filme. É uma crítica que não quer lidar com as consequências de assumir essa crítica

Song coloca um aspecto dos relacionamentos sob à lupa, mas pede que não pensemos muito sobre outros aspectos, pois como diz a cena inicial, o amor está aí desde os primórdios! Só não pense muito sobre o que esse tipo de amor simbolizou, quem ele excluiu ou feriu ao longo dos anos. O amor hétero monogâmico não é lindo?

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