Pode uma vida inteira realmente caber em alguns parágrafos nas folhas de um jornal ou, como os diários ultimamente são vendidos, em forma digital? Pode uma vida inteira ser resumida em quantas colunas, laudas, linhas, palavras ou toques? É possível mesmo essa façanha?
Despedido do banco onde trabalhava, Danilo Paiva poderia ser a perfeita descrição de milhares e milhares de brasileiros por esse país afora. Casado, pai de uma filha e jornalista de formação acadêmica, de repente, se vê sem sua rotineira vidinha de caixa de banco quando parte, então, para usar aquilo à que milhares e milhares de brasileiros também recorrem: o Q.I. Não, não é o “Quociente de Inteligência” que cada um de nós possui, mas o “Quem Indicou”. Aliás, diga-se de passagem, nem todos nós temos a felicidade de valer-se desse segundo mencionado Q.I.. E é desta forma que começa “Tudo o que ainda é”, romance de estreia do escritor e advogado, Davi Capelatto, onde ele discorre, em 351 páginas, a história de vida de Danilo Paiva.
A origem do nome Danilo é hebraica. Vem diretamente do nome Daniel cuja tradução, em português, é “Deus é meu juiz”. E não é que esse Danilo consegue um emprego – num jornal de Sorocaba, munícipio do interior de São Paulo – para justamente escrever obituários! Torna-se então um obiturário a partir de uma entrevista estranha (Danilo é questionado, à queima-roupa, quem ele é; a resposta vem somente com a leitura desse romance, leitor) e cheirando à cigarro, conseguida através do genro, amigo do editor-chefe, cujo patrão mantém o jornal aberto não somente para ser a fonte de notícias do público leitor da cidade, mas também para a publicação de seus inúmeros poemas delirantes e ruins. Ninguém duvida que esta atividade, para muitos, possa encaixar e se aproximar inquestionavelmente ao ser Divino, pois as palavras, contidas num obituário tecladas num computador, lidam forçosa e evidentemente com a vida e a morte. Não é mesmo?
Para outros, escrever obituários é motivo de estranhamento e muita superstição. É neste quisito que o romance Tudo o que ainda é mostra maravilhosamente bem o preconceito das pessoas em geral não só pelo fato de um jornalista, como Danilo, ter como tarefa a de escrever obituários, mas como a sua própria profissão, na qual é formado, e, no romance, é relegada a uma desmesurada, injusta e ignóbil opinião que vem dos lábios de sua avó: “Se der sustento para sua familia, tudo bem.” É triste, sim, constatar que num país como o nosso, uma profissão como essa, a que lida com o intelecto e a informação, não seja considerada uma profissão “de verdade”.
Em outras palavras, o intelectual não é um trabalhador. Trabalhador, para milhares e milhares de brasileiros, é aquele que produz algo com o seu suor, que cavoca, que colhe e que bate o martelo; como se o ato de escrever não fosse um trabalho digno e que requer, sem dúvida alguma, suas gotas de suor também. Para milhares e milhares de brasileiros, a produção de textos e, mais precisamente, a de livros não passa de um mero ato de diletantismo que, segundo eles, o autor pode-se ocupar certamente nas horas vagas.Triste lembrar que um famigerado ex-presidente “patriota” brasileiro (que segundo consta, espera até hoje a concessão de sua cidadania italiana) teve a pachorra de dizer, em cadeia nacional, que não lê livros porque “têm muita coisa escrita”.
Borba, o editor-chefe da Gazeta Sorocabana, pede-lhe um obituário, de quem quer que seja, como se fosse um teste – e Danilo escolhe escrever justamente o de Fernando Pessoa. Esta passagem é, sem duvida, genial, pois como sabemos, o poeta português escrevia nas vozes de várias pessoas. Ou seja, tinha supostamente algumas “vidas” dentro de si. Infelizmente, o texto produzido por Danilo, não agrada muito ao editor-chefe com seu eterno cigarro no canto da boca e o gabinete fedendo a uma mistura de café e nicotina.
Passeios a cemitérios e funerárias – com suas salas de velórios “para se aclimatar” –, começam a fornecer inspiração e material para a sua nova vida de profissional de jornalismo que, até então, existia apenas em forma de um diploma e em algumas anotações feitas em cadernos, em classe, ainda na época da faculdade. O narrador, numa passagem, talvez seguindo a indecisão de seu personagem se é capaz de ser não somente um jornalista, mas um obiturário, menciona que obituários ocupam um “espaço marginal, que existe por tradição[…] a qual ninguém dá a mínima”. No entanto, é bom ressaltar que, em alguns grandes jornais pelo mundo, a redação – assim como nas estações de rádio e TV – começa a preparar um obituário mesmo antes de que alguma celebridade dê seu último suspiro.
Correndo a notícia de que uma estrela de cinema, da música ou um renomado político tenha dado entrada a um hospital qualquer, os dedos rápidos de um jornalista-obiturário começam a teclar sobre a vida dele ou dela. Os obituários, por exemplo do The New York Times podem chegar – quando a pessoa é enormemente famosa – a ocupar uma chamada de capa, com duas a três páginas de texto no miolo do jornal, além, é claro, de fotos para ilustrar a vida da tal celebridade que, agora, se encontra morta.
Durante uma conversa com a colega de redação, encarregada de dar conselhos aos leitores do jornal, Dita confesssa a Danilo que o trabalho dela é mais literatura do que psicologia. Interessante isso, pois, no decorrer do romance, pode-se constatar que a coluna de Danilo (acompanhada do nome de família, Paiva, por imposição do chefe), também possui essa mesma característica. Seus textos têm a incumbência de ressaltar o que foi de mais interessante (talvez não o mais relevante) sobre as vidas daqueles que ele (d)escreve. São textos – que a princípio aparecem publicados três vezes por semana e, posteriormente, todos os dias –, baseados nos relatos, atributos e peculiaridades que Danilo recolhe ao entrevistar os parentes dos mortos que, por sua vez, passarão a ser os protagonistas em sua coluna, Últimas Palavras.
Intercalando o particular com o profissional, inclusive inserindo os conselhos de Dita, o texto reúne fatos da vida de seu personagem de uma maneira tão minuciosa que, ao lê-lo, temos a nítida impressão de que, na realidade, o narrador-autor está escrevendo – quem sabe com seus post-its e uma estatuazinha de Fernando Pessoa ao lado do laptop –, um longo obituário de seu próprio personagem. É neste sentido que, menciono o que Borba, numa reunião de comilança regada a muita bebida, declara aos presentes:
“É a tinta preta no papel quem decide. Só o texto imortaliza o corriqueiro”.
E, leitor, lanço agora algumas perguntas direcionadas a você: Ainda lê jornal? Versão papel ou digital? Se sim, ao menos, passa os olhos na seção de obituários? E vou mais além com uma quarta pergunta relacionada diretamente ao livro de Davi Capelatto: costuma visitar seus entes queridos – num coemeterium – que passaram desta vida para uma melhor? Mas nem no único dia destinado a eles, o de Finados? E será que é melhor mesmo? Aqui fica uma sugestão: por que não ler Tudo o que ainda é antes daquela devida visitinha aos seus antepassados?
Wilson Loria é professor de idiomas, ator e escritor. Exerceu essas atividades por três décadas e meia nos EUA. Formado em língua e literatura inglesas pela PUC-SP, fez seu mestrado em Estudos da Performance na Universidade de Nova York (NYU). Em 2024, publicou seu romance Amores Terás Vivido (Ed. Patuá).