10 clássicos da literatura universal indicados por Hozier

Hozier é um daqueles artistas que parecem ter saído direto de um livro — ou de vários ao mesmo tempo. Filho de músicos e leitores, educado com piano clássico, espiritualidade duvidosa e uma pilha de literatura irlandesa no colo, ele escreve como quem já viveu sete vidas e ainda não decidiu em qual delas acreditava mais. As canções são sombrias, as letras cheias de fogo e floresta, e os vocabulários — às vezes — mais próximos de um seminário de literatura comparada do que das paradas de sucesso.

Não surpreende, portanto, que seus livros de cabeceira formem um cânone próprio: poetas nacionais, autores mortos de febre romântica, distopias políticas, monstros melancólicos e pelo menos um homem andando por círculos infernais em busca de redenção. Os clássicos indicados por Hozier dizem muito sobre o músico, mas dizem ainda mais sobre a música dele — essa coisa viva, lírica, filosófica, às vezes furiosa, às vezes quieta, sempre com uma citação literária à espreita. Aqui vão dez livros clássicos indicados pelo cantor irlandês:

1. 1984 – George Orwell

Não é de hoje que Hozier demonstra fascínio por distopias políticas. Em entrevista à Dazed Digital, ele citou 1984 como um de seus livros favoritos, dizendo que “o aspecto mais assustador de Orwell é o quanto tudo continua sendo verdade”. A influência está por toda parte — das letras de resistência de Nina Cried Power à estética visual de Take Me to Church, que claramente evoca ambientes de vigilância, punição e resistência individual. Em sua música, Hozier parece sempre escrever com o fantasma de Orwell sobre o ombro: há um senso de que o amor é um último refúgio, e a arte, uma última forma de dissidência.

2. Retrato do Artista Quando Jovem – James Joyce

Nascido em Bray, na Irlanda, e profundamente relacionado com as pautas políticas de seu país, Hozier tem uma relação quase inevitável com James Joyce — um dos pilares da literatura irlandesa. Em uma entrevista à Rolling Stone, ele citou Retrato como uma leitura de juventude que moldou sua percepção de linguagem, dizendo que ficou “encantado com a musicalidade do texto, com a forma como Joyce usa as palavras como um instrumento”. Essa musicalidade não é coincidência: o lirismo de Joyce ressoa profundamente nas letras de Hozier, que constantemente equilibram religiosidade, sensualidade e culpa com uma cadência quase litúrgica.

3. 100 Poemas – Seamus Heaney

Poucos autores influenciaram Hozier tão diretamente quanto Seamus Heaney. Ele o chamou, em diversas entrevistas, de “poeta do sagrado cotidiano” e disse que 100 Poemas é um livro que ele “reabre constantemente”. Heaney, também irlandês, trata da terra, da linguagem e da perda com uma clareza dolorosa — temas que aparecem com frequência no trabalho de Hozier, principalmente no álbum Wasteland, Baby!. O próprio cantor declarou que a maneira como Heaney escreve sobre morte e renascimento “é um guia, um consolo e um chamado”.

4. O Apanhador no Campo de Centeio – J.D. Salinger

É difícil pensar em um artista como Hozier, eternamente entre o desencanto e a esperança, e não imaginar Holden Caulfield em algum lugar de sua formação. Em entrevistas, ele citou O Apanhador no Campo de Centeio como uma leitura marcante da adolescência, ressaltando “a solidão crua e a tentativa desesperada de se agarrar ao que é puro num mundo contaminado”. Holden, assim como muitas das vozes nas canções de Hozier, é alguém que ama em silêncio, julga demais, mas ainda sonha. A rebeldia silenciosa e o romantismo ferido de O Apanhador ecoam até nas melodias.

5. Os Dublinenses – James Joyce

Os Dublinenses é, segundo o próprio Hozier, “um espelho sujo da alma irlandesa” — e ele quis dizer isso como elogio. A coleção de contos de Joyce, que retrata a paralisia emocional, a religião sufocante e os silêncios da vida cotidiana, tem influência clara no modo como Hozier compõe sobre amor, morte e arrependimento. O conto Os Mortos, em particular, é uma de suas maiores referências — ele já declarou que a última cena do conto é “o que acontece quando a arte alcança a perfeição”. O lirismo melancólico de Joyce se mistura com a melodia melancólica de Hozier: ambos sabem que os mortos nunca nos deixam.

Leia também: 13 músicas políticas de Hozier para você conhecer

6. A Divina Comédia – Dante Alighieri

Hozier é conhecidamente obcecado pelo simbolismo religioso — e nenhum livro lhe oferece tanto material quanto A Divina Comédia. Em algumas entrevistas, já brincou que “certas faixas do primeiro álbum poderiam ter um mapa de Dante como encarte”. O músico já citou Dante como influência direta nas imagens de céu, inferno e purgatório que permeiam suas letras. Em uma conversa com a BBC Radio 1, ele disse: “A jornada de Dante é também a jornada de quem ama alguém que está se destruindo.” Canções como Arsonist’s Lullaby e Work Song carregam esse peso escatológico — amores que queimam, salvam ou condenam, enquanto músicas de Unreal Unearth – especificamente Francesca e Hymn To Virgil (Hino à Virgílio, poeta favorito de Dante Alighieri e personagem de destaque na Divina Comédia) – fazem referência direta à Divina Comédia (sobretudo a Inferno) e em certas ocasiões citam diretamente o poeta – com frases como “I’d walk through Hell on living feet for you” em Hymn to Virgil, referenciando Dante, que em Inferno, Canto XVI, escreve “Thy living feet move along through Hell” (“Eu andaria com pés vivos pelo Inferno por você” // “Teus pés vivos andam pelo Inferno”). Hozier canta como quem atravessou círculos — e voltou com cicatrizes.

7. Poemas Completos – Emily Dickinson

Para Hozier, Emily Dickinson é uma espécie de santa pagã. “Ela escreve como se soubesse um segredo que ninguém mais sabe”, disse ele em entrevista à The Irish Times. A concisão, a espiritualidade radical e a solidão vibrante dos versos de Dickinson aparecem como ecos sutis em diversas músicas dele, especialmente em faixas como Cherry Wine ou In a Week. A tensão entre vida interior e mundo exterior, entre o êxtase e o silêncio, é algo que ambos compartilham. E, assim como Hozier, Dickinson escreve como quem tem pressa de morrer — e ainda assim canta.

8. Frankenstein – Mary Shelley

A obsessão de Hozier com o apocalipse emocional e os monstros que criamos está presente desde seu primeiro álbum — e Mary Shelley é, para ele, uma espécie de madrinha espiritual. Em entrevistas sobre o processo de Wasteland, Baby!, ele citou Frankenstein como uma influência direta: “a história não é sobre o monstro, mas sobre o medo do que a gente se torna quando ama algo demais.” Shelley escreveu o fim do mundo em escala íntima, e Hozier canta como quem já passou por todos os laboratórios. Amor, culpa, exílio — tudo isso pulsa nas letras dele com a mesma tensão trágica que move a criatura de Shelley em busca de um nome.

9. O Morro dos Ventos Uivantes – Emily Brontë

Talvez o único livro que consiga rivalizar com a carga emocional do desespero e da obsessão de uma canção de Hozier seja O Morro dos Ventos Uivantes. Embora ele nunca tenha feito um grande pronunciamento sobre a obra, já a incluiu em listas pessoais e citou sua atmosfera como influência estética. O romance de Emily Brontë é puro fogo gótico: amor doentio, paisagens que gritam, almas condenadas a sentir. Hozier entende esse terreno como poucos. Em músicas como In the Woods Somewhere ou It Will Come Back, é possível ouvir ecos desse tipo de amor violento que assombra — e que, como Cathy e Heathcliff, se recusa a morrer.

10. Folhas de Relva – Walt Whitman

A mística sensual de Folhas de Relva nunca deixou de pairar sobre o trabalho de Hozier. Ele já citou Whitman em entrevistas e playlists, e há algo de profundamente whitmaniano na forma como ele canta o corpo, a terra e o desejo como uma só matéria viva. Whitman escreveu: “Eu me celebro e canto a mim mesmo” — Hozier, com mais sombras e reverência, parece responder: “eu me desfaço e canto o que restou”. Ambos celebram o sagrado no carnal, a alma no toque, e a beleza que existe quando se olha o mundo de baixo para cima, com os pés enterrados na lama e os olhos apontados para a eternidade.

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