“Mumbo Jumbo”, thriller afro-surrealista de Ishmael Reed, vira do avesso qualquer noção do que é um romance

Publicado originalmente em 1972, Mumbo Jumbo, publicado pela Zain, é o romance mais relevante da obra de Ishmael Reed. Mencionado em O arco-íris da gravidade, de Thomas Pynchon, Mumbo Jumbo também aparece na lista das obras mais importantes do cânone ocidental feita por Harold Bloom, um dos mais importantes críticos literários em língua inglesa.

Neste romance radical, uma espécie de thriller afro-surrealista que mistura gêneros textuais em uma narrativa incrivelmente inventiva e provocadora, fatos históricos e ficção se combinam de maneira singular. Estamos nas décadas de 1920 e 1930, nos Estados Unidos, em meio à Era do Jazz, à proibição do álcool, às guerras de gângsteres de Nova York, ao crash da Bolsa de Valores, à ocupação militar dos eua no Haiti (1915-1934) — e ao surto de uma “epidemia dançante” chamada Jes Grew.

No centro da trama está PaPa LaBas (figura baseada em Exu, Legba, Elegbara), um “detetive Neo-Hudu” que se encarrega de investigar essa ameaça. Jes Grew, no entanto, cujos efeitos lembram os vários episódios de coreomania (também conhecida como “praga dançante”) registrados na história, é, na verdade, uma “antipraga” popular de raiz africana, uma ameaça às estruturas rígidas e opressoras de uma civilização ocidental monoteísta, racista e misógina.

Com sua narrativa singular, Reed reconstrói a História em chave satírica e crítica, desde o Egito Antigo até os Estados Unidos dos anos 1970, confrontando a tradição filosófico-literária do Ocidente ao dar voz às figuras esquecidas da arte negra mundial e às práticas religiosas de matriz africana, como o vodu haitiano, a religião iorubá e o candomblé.

Leia também: Deboche, crônica social e crítica contundente em “De pé, tá pago”, crônica da imigração marfinense, do escritor Gauz

Obra extremamente original, Mumbo Jumbo é “um esforço evidente de descolonização simbólica do imaginário”, como escreve Vinícius Portella no posfácio; um livro que extrapola convenções cansadas, derruba os alicerces de uma tradição construída em séculos de escravidão, exploração e apagamento de diversas expressões artísticas não brancas; uma obra que vira do avesso qualquer noção do que é um romance.

Sobre o autor:

Ishmael Reed (1938) nasceu em Chattanooga, Tennessee. Romancista, poeta, ensaísta, dramaturgo e músico, Reed é conhecido por sua escrita satírica e experimental, que aborda temas como racismo, cultura afro-americana e a política dos Estados Unidos. Com mais de trinta livros publicados, recebeu em 2022 pelo conjunto de sua obra o importante prêmio Anisfield-Wolf, dedicado a homenagear autores que deram contribuições importantes para a compreensão do racismo e valorização da diversidade.

Sobre o tradutor:

João Vitor Schmidt (1996) nasceu em Curitiba, Paraná. É tradutor literário do inglês e pesquisador, com foco em literatura contemporânea. Atualmente é mestrando em estudos literários pela Universidade Federal do Paraná.

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