“Não existe exceção”: em próximo volume de “Vera”, José Falero discute os impactos da masculinidade tóxica da infância à adolescência

Homem não-branco veste camiseta vermelha sem manga estampada. Na ilustração, à direita, stá a capa do livro chamado "Vera"

Não existe exceção à masculinidade tóxica. É o que acredita José Falero, escritor gaúcho que constrói o seu mais recente romance, “Vera” (Todavia, 2024), narrando as profundas desigualdades nas relações de gênero, com enfoque em mulheres periféricas. O livro, que se passa nos anos 1990 porto-alegrenses, é atravessado também por temáticas como o racismo, a LGBTfobia, as desigualdades econômicas, mas deixa à mostra o caráter inescapável do machismo estrutural.

Falero, que escreve no momento o segundo volume da série, cujo título deve chamar-se “Luzia”, pretende seguir a temática explorando a vida do personagem Vanderson, filho de Vera, que ganha protagonismo já no primeiro romance e que deve ser o guia dos enredos seguintes. O autor reconhece a falta de exceções às mazelas provocadas pelo machismo, inclusive de si mesmo, e quer construir uma exceção literária com Vanderson. Da infância à adolescência, o segundo livro deve abordar os impactos do machismo quando o personagem chega à idade da iniciação às relações amorosas. 

“Vera” é o segundo romance do autor. (Imagem: Todavia/Reprodução)

Em entrevista para o Jornal Nota, José Falero contou como tem sido a recepção do primeiro volume da série entre o público, seu desejo de que a literatura seja uma possibilidade para todos e as necessidades que o movem a escrever.

Você falou em outra ocasião que tinha medo de como o livro “Vera” seria recebido pela crítica. Como tem sido a recepção do livro desde que foi lançado?

Esse medo que eu tinha foi já desfeito. Na verdade, as pessoas têm feito uma leitura positiva. De que não é uma apologia, mas uma problematização, um exame. Eu tentei fazer um negócio que, talvez, em “Os Supridores”, eu não tenha sido tão bem sucedido, que é afastar a opinião do narrador e do autor também ー a minha própria ー a respeito da coisa em si. Em “Os supridores”, se percebe muito fortemente uma defesa de certos valores que são apresentados ali, tanto por parte do autor, como por parte do narrador, Pedro. Mas o Vera tem um narrador mais afastado. Ele simplesmente apresenta as coisas, ele não emite opinião sobre isso, mesmo as coisas mais terríveis. O meu medo é que isso fosse interpretado como uma espécie de “a sociedade é assim, não há o que fazer”. Não se trata disso.

E como tem sido a recepção entre as mulheres?

Tem uma coisa engraçada sobre a recepção do “Vera”, que eu tenho até comentado com algumas pessoas. Veja, a maioria dos meus leitores são mulheres, desde que eu publiquei o meu primeiro livro, depois os outros, sempre mulheres. Eu tenho leitores homens também, mas a maioria são mulheres. No caso do “Vera”, há um sumiço dos homens. Eu não sei se é pelo tema, pelo assunto que eu tento explorar, eles talvez não tenham querido comprar. Ou, talvez, tenham lido e não tenham querido se manifestar, mas o fato é que é muito claro esse sumiço. Até agora um homem se manifestou sobre o livro, um só.

As mulheres têm feito uma interpretação diferente daquela que eu temia. Mas isso é uma questão que foge completamente do meu controle. A gente tem observado um fenômeno que já se observava antes, mas que certamente foi potencializado pelas redes sociais, que é o comportamento de manada. Isso já existia, mas tá muito agravado agora. Se uma pessoa fizer uma interpretação, se essa pessoa tem seguidores, mais dez fazem essa interpretação, daqui a pouco são cem, daqui a pouco são mil, daqui a pouco são um milhão, e não interessa mais a verdade. Interessa é que se tem uma massa de pessoas caminhando naquela direção e, quanto maior esse número de pessoas, mais gente chega para tomar como verdade aquilo que foi reproduzido. Esse era o meu medo, e isso foge completamente ao meu controle. Se algumas pessoas tivessem feito essa leitura equivocada do livro, independente de se o livro tem ou não esse problema, se torna uma verdade. Importa mais a crítica que é feita do livro do que a história que o livro está contando em si.

Podes falar um pouco dos planos dessa série? Já tens outro livro em produção que segue a história do “Vera”?

Eu estou trabalhando no segundo volume nesse momento. A ideia era publicar um livro grande. O nome original do livro seria “Quase Homem”. A ideia era acompanhar o Vanderson, filho da Vera. Porque o Van seria essa exceção que eu tô dizendo que não existe. Eu ia construir essa exceção de maneira literária de um menino que tenta desempenhar esse papel da masculinidade e simplesmente não consegue. A ideia era acompanhar esse menino, desde a infância passando pela adolescência e até a vida adulta. Seria um livro bastante grande.

Nesse primeiro terço do livro, se vê que a história não gira em torno do Van. Justamente porque ele é muito novo. Uma criança tão nova não tem ações o suficiente para construir um romance em torno daquilo. Forçosamente, a história teria que girar em torno de outras pessoas. No caso, gira fortemente em torno da Vera. Tem outros personagens, mas a Vera tem um lugar mais central.

Eu queria trabalhar na infância do Vanderson certos traumas. Já trabalhei dois deles: o que ele presencia no ônibus e o que ele presencia com a própria mãe dele. E há, ainda, um terceiro trauma que eu quero trabalhar, agora no segundo volume que começa ainda na infância, mas avança para a adolescência. Na adolescência, eu vou falar de frustrações amorosas, como a desse menino dessa série “Adolescência”, como do [personagem] Marcelo também. Como o Vanderson experimenta e como ele reage a tudo isso. Depois, trabalhar a vida adulta no contexto do trabalho.

A gente chegou a conclusão que era melhor por uma série de motivos dividir o livro em volumes. Então, “Vera” é o primeiro volume. O segundo deve se chamar “Luzia”. A gente tem a ideia de fazer três livros, os três com nome de mulher. Mas, se eu defino que o nome vai ser de mulher, então sou obrigado a escrever de tal modo que isso faça sentido. Então, talvez não seja possível, mas o segundo está sendo.

Nas redes sociais, após brincar que deixaria de ser escritor em virtude do 1º de abril, Falero anunciou o lançamento do segundo volume do romance, previsto para novembro deste ano.

O enredo entre Vera e o personagem Marcelo, o porteiro, lembra também a problemática debatida na série “Adolescência”, que aborda a frustração de homens que, quando não correspondidos pelo desejo feminino, partem para ataques misóginos. Em Vera, no entanto, não existem redes sociais quando a história se passa, nos anos 1990. Como observa isso?

Eu já senti o que o Marcelo sentiu, mas também já observei em outros homens. Isso é quase um uma regra, um padrão. E que eu acho que está relacionado a uma sensação de posse e de objetificação da mulher, de desumanização da mulher. Em algum momento, o Marcelo chega a pensar que é como se um prêmio que tivesse sido prometido para ele, agora fosse levado por outra pessoa.

Eu tive muitos objetivos com esse livro. Um deles era tentar fazer esse exame no sentido de que as coisas parecem muito piores do que eventualmente as pessoas percebem através dos debates públicos sobre gênero. E eu tenho insistido em dizer que as pessoas não me considerem uma exceção, porque não há exceção a esse respeito. Não há exceção. Eu nunca vi uma exceção. As mulheres, principalmente, tem uma tendência de pensar: “Não, mas o meu marido, não; o meu filho, não; meu irmão, não”. O que tem são diferentes graus de masculinidade, isso sim. Tem o cara que é capaz de bater, e tem o outro que não, mas existe um grau de masculinidade tóxica que é bastante significativo. Mesmo nos graus menores, é bastante significativo.

É uma espécie de sociedade secreta. Logo no começo do livro, há uma menção a esse mundo. Depois o livro procura explorar. É quando o personagem Seu Sebastião, está por ali e os caras estão falando palavrão e ele fala: “Olha aí a boca suja, tem mulher e criança”. Esse era o mundo que eu queria explorar: o mundo quando não tem mulher e criança por perto. É um mundo ao qual as mulheres não têm acesso.

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Tu escreveste o “Vera” a partir da tua vivência como homem heterossexual, olhando para questões patriarcais. Tu pensas em um público leitor específico que vai ler, homem ou mulher?

Eu nunca faço isso. Inclusive essa é uma resposta bastante decepcionante para muita gente, sobretudo quando eu abordo questões de classe ou étnico-raciais. As pessoas têm uma expectativa de que eu estivesse pensando “nossa, eu estou escrevendo para que os negros leiam, para que as pessoas da periferia leiam, para que os trabalhadores leiam” e isso não me passa pela cabeça em nenhum momento.

É evidente que gostaria muito que o meu livro chegasse em certos públicos, mas isso eu penso depois que o livro está pronto. Eu tenho preferência que o livro chegue, na maioria das vezes, aos meus iguais, às pessoas da periferia, aos trabalhadores. Se acontecer, é outra coisa. Mas enquanto eu estou elaborando um livro, pensando no que eu vou escrever, escrevendo de fato, eu sempre me preocupo com demandas internas e não com demandas externas. Eu acho isso uma tentativa de ser honesto com os meus leitores, inclusive, porque, veja bem, eu não quero subornar a leitura das pessoas. Por exemplo, agora eu já sei o que as pessoas gostam, porque elas me acompanham, então vou tentar reproduzir de novo isso que eu sei que elas gostam para eu tentar mantê-las fiéis. Não, eu tento ser fiel às minhas demandas internas e se as pessoas quiserem ler, se elas acharem interessante, elas leiam, elas podem gostar ou não, não precisam acompanhar o meu trabalho se acharem que não devem.

Eu escrevo sempre sobre coisas que estão borbulhando dentro de mim. Ideias, sentimentos, assuntos sobre os quais eu tenho pensado com frequência. Foi assim com “Os supridores”, as crônicas do “Mas em que mundo tu vive?”, os contos do “Vila Sapo” e agora com o “Vera” também.

Evidentemente eu não ia me interessar pelas relações de gênero de maneira espontânea. Acontece que eu namoro a Dalva Maria Soares, escritora também e uma feminista ferrenha. As relações de gênero, na nossa convivência, aparecem a todo momento, a todo momento. Não é que a gente teve uma conversa específica e então eu decidi escrever o livro. Não, é o convívio, é a conversa que a gente tem todos os dias sobre essas questões. Isso virou um tema do meu interesse, virou uma coisa na qual eu fiquei interessado, Eu comecei a refletir sobre essas questões e o Vera nasceu por isso, porque era uma ideia que estava muito presente nos meus pensamentos e nos meus sentimentos. É uma demanda interna e tem que precisar acontecer dentro de mim primeiro, não se trata do que alguém de fora espera.

José Falero nasceu em 1987, em Porto Alegre. É autor de “Vila Sapo” (contos), “Os supridores” (romance) e “Mas em que mundo tu vive?” (crônicas), todos publicados pela Todavia. (Imagem: Diego Apoli/Reprodução)

Tu ainda moras em um bairro periférico de Porto Alegre, a Lomba do Pinheiro. Como as pessoas de lá te leem?

Tem de tudo. Da mesma forma que a maioria dos meus leitores são mulheres, a ampla maioria também é gente de classe média e, portanto, pessoas que não moram no Pinheiro, nem em qualquer periferia do Brasil. Eu não vou me aprofundar nisso, mas tu vai encontrar razões para as coisas serem assim. Razões históricas, a tradição da literatura brasileira que é muito excludente, com períodos de políticas públicas contra isso, em que as pessoas pretas não podiam frequentar a escola, por exemplo. Tudo isso é reflexo da história do Brasil tal como a gente conhece. Então, o que acontece é que pouca gente no Pinheiro me lê, pouca gente nas periferias me lê.

Tem pessoas que vem falar comigo que moram na periferia, mas são minoria, e o Pinheiro tá dentro dessa minoria. E dentro dessa minoria das pessoas que acompanham meu trabalho, tem de tudo. Tem essas exceções – por enquanto – de pessoas da periferia que têm se interessado por literatura, pessoas que estão fazendo cursos acadêmicos, pessoas que já estão inseridas num contexto de intelectualidade, cultura, literatura. Elas acompanham meu trabalho, mas é um tipo de relação bastante singular, porque essas pessoas já são leitores. Têm o hábito da leitura há muito tempo, lêem muitas coisas e aí esbarraram no meu trabalho. Mas tem gente que passa a ler porque quem escreveu fui eu. Pessoas que não tinham o hábito da leitura, tem gente da minha família, amigos, que não tinham o hábito da leitura, alguns nunca tinham lido um livro e começaram a ter o interesse de ler um livro, porque, poxa, dessa vez quem escreveu foi meu camarada, foi meu vizinho. Já é uma outra relação que eu tenho com essas pessoas a respeito do meu trabalho. Isso é inclusive uma das coisas que eu mais me orgulho e que mais me deixam feliz.

Eu acho que a situação mais emblemática desse tipo de relação que eu posso te dar, foi quando eu peguei o meu primeiro livro publicado e dei de presente para um camarada meu. Era um livro de contos, o “Vila Sapo”, um livro curtinho. Ele leu de pé na minha frente. Quando ele acabou, ele disse o seguinte: “veja, isso aqui eu também faço”. Percebe? Quando conto essa história tem gente que pensa que ele estava tentando me desqualificar, mas não era isso. Era uma surpresa: “Poxa, mas isso aqui não é impossível, né? Eu conheço essas histórias, eu conheço esse modo de falar, eu já tive experiências parecidas, eu posso fazer”. Quando esse tipo de recepção acontece eu acho muito gratificante.

Tu falaste na Folha recentemente no desejo em se tornar um escritor popular, quais barreiras você vê para esse desejo se cumprir?

É claro que eu tenho esse desejo, é uma coisa que me deixaria muito feliz de me tornar popular, mas isso é uma coisa completamente fora das minhas atribuições. Não tem o que eu possa fazer para que isso aconteça. Isso é um problema muito mais relacionado com a história da literatura, precisaria de uma mudança de paradigma, uma mudança de contexto social tão ampla, que evidentemente não me diz respeito, não diz respeito a como eu elaboro o meu trabalho.

Eu tenho esse desejo, mas eu acho que eu produzo de uma maneira que eu fico muito satisfeito. Eu não vejo como eu poderia modificar o meu trabalho para que isso acontecesse. Isso tem muito mais a ver com uma questão externa. Isso é tão amplo que isso não só não me diz a respeito, como eu acho que extrapola inclusive o contexto literário, eu acho que é uma coisa maior. A gente, às vezes, pensa sobre um problema de um nicho da sociedade, um setor específico, sem perceber que esse é um problema de ordem maior, um problema da distribuição de renda. Então a gente sai da literatura para falar sobre sociedade.

O que possibilitaria me tornar um escritor mais popular, e, quando eu digo popular, eu digo como é um músico, como é um ator da Globo, isso passa por um amplo trabalho de formação de leitores. Um livro que vende dez mil exemplares no Brasil já é considerado um best-seller, porque é muito difícil vender dez mil livros, mas isso é insignificante se pensar que o Brasil tem 200 milhões de pessoas. Passaria por entender a literatura de uma maneira diferente, completamente diferente, porque a literatura é ainda muito elitista como reflexo dessa tradição literária brasileira.

Tem muita coisa cujo valor agregado é um lance de distinção. O valor que faz algo ter um custo alto é o fato de que tu tem e o outro não tem. Essa distinção entre quem pode ter e quem não pode ter, é o que faz ela custar esse preço. E a literatura tem isso, por incrível que pareça. Eu diria até, tristemente, que a maioria das pessoas que estão envolvidas no meio literário se deixam levar justamente por esse tipo de mentalidade: “eu não sou qualquer um, eu sou um leitor, me respeite, eu sou um escritor, eu publico livros”. A gente precisaria encarar a literatura como um direito humano, como uma coisa de que todos nós somos capazes e da qual fomos desapropriados.

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