Caetano & Bethânia trazem para o palco as divindades da história da música popular brasileira em turnê tropicalista

Mesmo quem já viu Caetano Veloso e Maria Bethânia em outras ocasiões se emociona ao vê-los juntos no palco. Em São Paulo, no Allianz Parque, onde acontece o terceiro e último show da turnê no ano, “Alegria, Alegria” abre o repertório numeroso, mas a verdadeira anunciação acontece em “Os mais doces bárbaros”, canção que amalgamou os dois irmãos, Gal Costa e Gilberto Gil em 1976. Com o aprumo visual, é quando o público se dá conta de estar à frente do mar, reparando em tudo que esse pôr-do-sol pode significar. A imagem de Caetano e Bethânia, portanto, abre o tempo para atiçar em nós a certeza de que jamais saberemos todos os mistérios da vida. 

Não é exagero dizer que “Gente” e “Oração ao Tempo” formam o círculo que “Motriz” vai manter girando para além da história, tamanha a força da sequência. De algum modo, a última canção fecha este primeiro momento devotado à passagem, a uma travessia a desembocar em “Não identificado”, “Filhos de Gandhi”, “Tropicália” e “Um índio”, quando figuras dos povos originários amplificam o tom obviamente político. 

Ao assumir a cena, Caetano, sem demora, pega o violão para fazer “Sozinho”. Seu repertório é versátil, vai do político ao pop, mas o compositor segue na linha romântica com “Leãozinho”, “Você não me ensinou a te esquecer” e “Você é linda”.

Contudo, há deuses sem deus que não se cansam de brotar na religião brasileira e nos últimos anos se incorporaram na cultura, política e sociologia do país. Por isso, não deixa de ser ferino o timing do artista para cantar um louvor. Tido como anticlímax por boa parte da imprensa, ele explica os motivos de incluir “Deus cuida de mim” no repertório: “o crescimento das igrejas evangélicas tem me despertado interesse”. 

A frase é curta e até enigmática. O fato é que mesmo aos 82 anos, dono de uma obra que exalta o axé, afoxé, o carnaval e a cultura africana, Caetano gosta de provocar. Isso porque o sucesso do encontro com a irmã era previsto muito antes da turnê acontecer. Então, por que se arriscar diante de um público que é o avesso do avesso do avesso? 

A resposta pode estar na biografia do autor de “Deus cuida de mim”. Nascido na periferia de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, Kleber Lucas é um dos pouquíssimos pastores negros do Brasil. Recentemente, ele foi perseguido pela própria igreja por se opor à eleição de Jair Bolsonaro – inclusive, uma de suas músicas, “Messias”, é uma crítica contundente ao pleito. Além disso, se apresentou em terreiros de umbanda. Várias casas foram destruídas por fanáticos religiosos e ele ajudou ativamente na reconstrução. “Eu tenho vários cortes na perna. Não tinha SUS ali: quem cuidava da gente era a mãe de santo, era o pai de santo. Se machucava, cortava a cabeça e quebrava um dedo, era ali que a gente ia”, confessou o pastor. 

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Não dá pra saber se a reação do público seria diferente, caso Caetano explicasse esse contexto antes de entoar o cântico. Mas seja Xangô mandando chamar ou só tendo fé na vida, em si mesmo ou até para “enfrentar esses filhos da puta”, várias crenças povoam o show. Há um interesse criativo da parte dele que é genuíno. Para mim, ao cantar o louvor, Caetano está fazendo um gesto tão intelectual, quanto político: se há nesse meio gente como Kleber Lucas, por que ele cabe no seu não?

Ao retornar, Bethânia desenlaça a apatia do público com “Brincar de Viver” e “Não dá mais para segurar (Explode Coração”). E não importa qual seja seu gosto musical, idade, nacionalidade, sei lá! Poucas coisas no mundo arrepiam tanto quanto ouví-la cantar “As canções que você fez para mim”, do Roberto Carlos. Novamente juntos, os irmãos dispensam os textos longos porque “Baby” e “Vaca Profana” falam por eles: “Gal Costa, para sempre”. 

Ainda que ouvir “Força Estranha”, “Desde que o samba é samba”, “Não enche”, “Meia lua inteira” e “Qualquer coisa” ressoe na expectativa, o que instiga no repertório é a sua coesão. Há uma história dos dois sendo contada.

A direção musical de Jorge Helder, um craque em qualquer time, e a liderança de Pretinho da Serrinha nos tambores, conseguem domar o tsunami que o público vê diante de si. Não é tarefa fácil, não. E até a entrada de “Fé”, cover de IZA, mostra o quanto todo mundo ali está interessado em fazer um grande espetáculo, atravessar um diálogo entre sensações e provocar algo diferente do habitual; criar uma inquietação que precisa ser estimulada para estimular. Talvez, seja o jeito dos artistas de relembrar quem é foda e forte que a crença não pode ser institucionalizada. 

Assim, quando “Odara” cobre o estádio, a impressão não é de ter visto um show. Diante das divindades de Caetano & Bethânia, diante da história da música popular brasileira, do tropicalismo, das canções criadas para protestar, amar ou reverenciar e de todos os atos em favor da cultura multifacetada, todos nós nos daremos conta, algum dia, de termos prestado um culto. Sem ironia. 

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