“Tá Pra Vencer”: debate a escassez da qualidade de vida

  Com um texto veloz e ácido, um coletivo extremamente competente, Naruna Costa consolida sua parceria com Jhonny Salaberg em Tá Pra Vencer, peça que após uma breve temporada entrará em cartaz no Sesc.

  É lindo assistirmos trabalhos que nos intrigam pela proximidade da história e pela dor espelhada nos palcos, e Jhonny Salaberg provoca justamente esse tipo de sentimento ao apresentar sua nova dramaturgia, Tá Pra Vencer. Muito bem desenhado em suas partituras, Salaberg apresenta ao público a história de um grupo de amigos que preparam uma festa de aniversário surpresa para um quarto amigo que está sempre atrasado e que sofre por excesso de trabalho. 

  Num estilo à la Esperando Godot, o grupo se prepara e preenche essa espera com um humor ácido e preciso, apresentando temas sociais e síndromes que mesmo não sabendo o nome são sentidas na pele.

 O elenco composto por Ailton Barros, Bia Rezi, Filipe Celestino e Jennifer Souza é extremamente engajado, com atuações potentes e jogos rápidos, o que faz com o que o público fique vidrado na energia proposta em cena. Logo nos primeiros minutos é proposto cenicamente uma alta velocidade na fala, instaurando uma energia de urgência e ansiedade, quase cotidiana e comum para a maioria de nós.

Os monólogos apresentados por todos se encaixam perfeitamente dentro da dramaturgia, e o trabalho apresentado por cada ator contribui para que de alguma forma nos identifiquemos com as personagens. Todos estão ótimos em cena, e fica nítido a maturidade e entrega do grupo, mas vale destacar Jennifer Souza, que com sua atuação brilhante e jogo de humor, ganha mais espaço em nossos corações.

Direcionados por Naruna Costa que foi convidada para contribuir com o projeto, o grupo debate a escassez da qualidade de vida, de uma forma bem humorada, mas com muita proximidade de um olhar periférico, o que torna a encenação ainda mais atraente. 

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Com ótimos nomes compondo o coletivo da montagem como Emicida na direção musical, Gabriele Souza  no desenho de luz, Washington Gabriel na preparação de comicidade,  Rager Luan na cenografia e Guilherme Santti no figurino, o trabalho como todo se torna lindo, potente e basilar, mas nessa lista o meu destaque vai para Washington Gabriel que com seu conhecimento e experiência de palhaçaria contribui para que assuntos tão dolorosos se tornem palatáveis ao público.

Artaud em seu livro O Teatro e Seu Duplo, questiona que nosso teatro nunca chega ao ponto de perguntar se, por acaso, esse sistema social e moral não seria iníquo. Que o teatro contemporâneo está em decadência porque perdeu, por um lado, o sentido da seriedade, e, por outro, o do riso. Mas ao presenciar obras como o Tá Pra Vencer, acredito que o teatro contemporâneo brasileiro vem se encontrando belissimamente de forma eficaz e nociva, porque trabalhos como esses nos mantém vivos.

Saiba mais sobre o espetáculo aqui!

Ficha técnica

Idealização: Ailton Barros, Filipe Celestino e Jennifer Souza 

Direção geral: Naruna Costa 

Direção Musical: Emicida 

Texto: Jhonny Salaberg 

Elenco: Ailton Barros, Bia Rezi, Filipe Celestino e Jennifer Souza 

Trilha Sonora Original: Emicida, Damien Seth e Thiago Jamelão 

Assistência de Direção: Ailton Barros 

Preparação Corporal: Castilho 

Preparação Comicidade: Washington Gabriel 

Cenografia: Rager Luan 

Auxiliar Cenotécnico: Ronaldo Macedo Dias 

Figurino: Guilherme Santti 

Costureiro: Joseph Eliezaire 

Tranças: Erick Malccon 

Artesão das Tranças 

Desenho de luz: Gabriele Souza  

Operação de luz: Renan Estevão e Diego França 

Operação de som: Dj Akinn 

Social Mídia: Luis Felipe Machado 

Designer gráfico: Lais Oliveira 

Fotografia: Helbert Rodrigues 

Assessoria de Imprensa: Marrom Glacê 

Direção de Produção: Jéssica Turbiani 

Produção: Corpo Rastreado | Jack Santos.

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