Nesse 8 de março, conheça 10 poetas que abordam questões relacionadas à mulher e ao feminismo.
O dia 8 de março é um dia de luta que marca a história de reivindicação de direitos das mulheres. Apesar de ter se tornado uma data comercial, ela guarda um valor histórico e político importantíssimo.
A desigualdade de gênero, a divisão sexual do trabalho e a violência contra a mulher são alguns temas que, nessa data, ganham evidência, para que possamos, juntas e juntos, encontrar formas de lutar contra todo tipo de violência e opressão contra as mulheres.
A literatura, como manifestação artística, política e cultural, nos ajuda a ver a potência e a força de mulheres e nos permite refletir sobre esse tema.
Por isso, selecionamos 10 poemas de escritoras brasileiras e estrangeiras que mostram a importância da luta das mulheres e nossa força revolucionária. Confira:
1- Vietnã, de Wyslawa Szymborska
“Mulher, qual é o seu nome?” “Não sei.”
“Quantos anos você tem?” “Não sei.”
“Por que você cavou esse buraco?” “Não sei.”
“Há quanto tempo está escondida?” “Não sei.”
“Por que você mordeu meu dedo?” “Não sei.”
“Você sabe que não irei machucá-la?” “Não sei.”
“De que lado você está?” “Não sei.”
“Estamos em guerra, você tem que escolher.” “Não sei.”
“Seu vilarejo ainda existe?” “Não sei.”
“Aqueles são seus filhos?” “Sim.”
2- Bénedicte Houart
são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia
Veja mais sobre Bénedicte Houart aqui!
3- Do Desejo (I), de Hilda Hilst
Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.
4- Vozes-mulheres, de Conceição Evaristo
A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
5- Alice Ruiz
espero
desde um telefonema
até um poema
espero
nem que seja
um problema
esse tema
que eu não toco
não porque tema
e sim
porque não entra
em nenhum esquema
espero
dentro da noite
algo que faça
com que eu gema
espero
e tudo é espera
nessa noite amena
menos teu nome
menos meu telefone
menos este verso
ou será um poema?
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6- Alejandra Pizarnik
O poema que não digo,
o que não mereço.
Medo de ser duas
a caminho do espelho:
alguém em mim adormecido
me come e me bebe.
7- Contagem regressiva, de Ana Cristina Cesar
Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos.
8- Elisa Lucinda
Estou virando uma menina
tornada mulherinha
com tanta coleirinha
de maturidade
ainda assim me sinto parida agora
tenra, maçã nova
nova Eva novo pecado.
Tudo gira e eu renasço
menina vestido curto na alma de dentro…
Deixo no mar os velhos adereços
a velha cristaleira, os velhos vícios
as caducas mágoas.
Nasce a mulher-menina de se amar
com água no ventre e no olhar.
Nasce a Doudou das Águas.
9- Rua do Alecrim, de Matilde Campilho
Uma menina desenha uma estrela de cinco pontas
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.
Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdade a bofetadas.
10- Pós, de Angélica Freitas
“os homens as mulheres nascem crescem
veem como outros nascem
como desaparecem
desse mistério brota o cemitério
enterram carcaças depois esquecem”.
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