Os Fantasmas, de César Aira, um convite à construção da literatura

Autor: César Aira
Editora: Rocco
Edição: 2017
Tradução: Joca Wolff

Os Fantasmas, de César Aira, é um livro feito de convites. Cabe lembrar que a origem latina da palavra traz consigo o sufixo com que significa junto mais o extinto verbo vitare, que significa querer, sendo um convite nada mais nada menos do que um querer junto. E digo que o livro é um convite porque a literatura nem sempre convida, muitas vezes ela exige, impõe, recorre, afirma, precisa, manda…então pensar no ato de escrever como um convite é mais do que levar em conta sua generosidade, é presenciar um ato raro, em especial em um mundo de uma literatura tão focada num “eu”, tão rejeitada por Aira. Entretanto, Por que Os Fantasmas seria um romance-convite? E se um convite, é um convite a que? Respondo: de certa maneira, a uma festa da literatura. E digo festa em todos os sentidos, uma celebração da imaginação e do verdadeiro prazer do texto.

Os Fantasmas, o curto romance de Aira, como costumam ser todos os livros do autor argentino, foi publicado em 1990 e conta a história da família de um porteiro chileno que habita o terraço de um prédio em construção na rua José Bonifácio 2121, na capital da Argentina, Buenos Aires. Evidentemente, antes de começar a ler dei um Google no endereço para ver como era o prédio. E essta é uma foto de sua fachada:

Bom, o romance se passa no dia 31 de dezembro de um ano qualquer, ou seja, na celebração do reveillon dessa família, composta pela esposa do porteiro, sua filha mais velha (chamada Patri, uma espécie de protagonista) e seus três filhos ainda crianças. Assim, conforme anoitece e acabam os trabalhos da obra que, no último dia do ano recebera visita de todos os futuros proprietários, a família reúne mais alguns parentes para a ceia e, do lado de fora, sentam-se para comer e celebrar suas vidas. Porém, junto com eles no prédio em construção estão também aqueles que dão nome ao título do livro: os fantasmas.

Antes de começar meu texto, li algumas resenhas que buscavam “solucionar” ou desvendar as motivações do livro. Em alguns casos, viam no livro uma espécie de retrato satírico da reconstrução da Argentina nos anos do pós-ditadura, enquanto outros focalizaram nas relações de classe dos chilenos que são vistos como “inferiores” pelos argentinos em comparação com os fantasmas e, ainda, alguns reparavam na alegoria ou fábula da própria construção que é a vida coletiva e urbana de toda cidade moderna e contemporânea.

Eu considero todas essas opções bastante pertinentes e parte da possível interpretação de Aira, entretanto, a meu ver, Aira escreve simultaneamente sobre o mundo e sobre o próprio ato de escrever. Em Como me Reí, Aira reclama de como as pessoas insistem em ler suas obras como sátiras cômicas cujo objetivo final seria o riso, alegando que o riso é consequência de quando se abre mão do detalhe a da estranheza do que se conta. Ao entender este ponto, ou seja, o fato de que Cesar Aira não busca diluir as questões no riso, além de buscar escrever de forma irônica, mas numa ironia que se dá no caminho avesso do riso, pude perceber como Os Fantasmas é uma obra que encara uma série de questões e as atravessa por linguagens díspares que se confrontam.

Em primeiro lugar, acredito que a própria construção em que Aira localiza a obra serve justamente como um esqueleto aberto, transponível, atravessável e penetrável que pode adquirir uma série de formas em seu interior e, assim oscilar diante das múltiplas linguagens que ele próprio busca utilizar. Depois, porque o autor dá as suas personagens caraterísticas próximas do pensamento infantil, ou seja, uma forma de pensar cuja abertura para a invenção e imaginação é total, o que significa, no fim das contas, que Aira não precisa ser responsável sequer pelo universo que cria, sendo o romance uma espécie de construção infinitamente incompleta, tal como num sonho:

Sonhou com o edifício no cume do qual dormia, mas sem se adiantar à construção, sem vê-lo completo e habitado senão tal como se encontrava agora, quer dizer, em obras. Era uma visão tranquilo, sem profecias inquietantes, sem invenções, quase um modo de constatar os fatos. (…) Neste caso, a diferença se refletia na arquitetura, que já em si é um reflexo entre o que se construiu e o que se construirá. E a ponte dos reflexos era um terceiro termo, que é praticamente tudo na matéria: o não construído.

Encontrando como o exemplo máximo de não construído justamente a literatura:

Mas se poderia pensar em uma arte em que as limitações da realidade tocassem no seu mínimo, em que o feito e o não feito se confundissem, uma instantaneamente real e sem fantasmas. Talvez exista, e seja a literatura.

Assim, ele reflete sobre os efeitos da arquitetura, ou seja, a arte da construção, de suas formas e seus adornos, seus desenho, e suas invenções para além da construção, refletindo se “a arquitetura não construída” seria a própria literatura. Porém, para ele, um mundo sem fantasmas do texto literário ainda é pouco, afinal é preciso ser mais que criança, é preciso ser uma criança que escreve: Assim, essa família que celebra o reveillon, em especial Patri, tem como prática viver em uma espécie de contato pacífico e comunitário com os fantasmas, interagindo com esses seres que adoram dar risadas e ficarem pelados pelos cantos, atravessando paredes, dando voltas para assustá-los, pegando sol na antena parabólica, passando a ideia de quea vida de fantasma é não apenas invisível, mas também bastante cômoda, simples e mais divertida que a humana. Porém, Aira espelha nos fantasmas, invisíveis, a vida das classes mais baixas de Buenos Aires, principalmente dos chilenos que emigram em busca de subempregos e trabalhos mal remunerados: as suas festas são melhores, mais alegres e felizes, mas serão as suas vidas? Um reflexo ambivalente entre potência de vida e invisibilidade social acaba se tornando uma marca importante de reflexão, porém indissolúvel.

Assim, Os Fantasmas se projeta como uma escrita que a todo instante se debruça sobre os invisíveis, os vivos e os não vivos, apontando como a cidade iluminada esconde neste terraço alguns seres que comemoram as festas, mas o fazem com a pouca luz de uma única lâmpada pela simples falta de possibilidades: não há estrutura, não há dinheiro, uma vida em eterna construção. Ou ainda, pelo fato de que diante de tantos sonhos que vivem e que poderiam habitar o mundo, ainda assim estão ali estas pessoas que, são obrigadas a viver nas construções e ruínas da vida das demais classes. E elas sorriem e festejam como fantasmas.

Por fim, deixo um convite: gostaria você de viver como fantasma tal como os fantasmas ou aceita a vida que tem porque é a única vida que tem? Cesar Aira escreve uma história sobre tudo isso e sobre tanta coisa que eu, sem imaginação, sou incapaz até de imaginar, quanto mais dizer. Porém, no fim das contas, posso viver este livro junto com o autor porque aceitei seu convite e passei a viver no interior de sua construção. Ao lado dele, fui também um fantasma.

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