Quem poderia ensinar uma menina romântica e sonhadora de dez anos a chamar uma pá de pá?” Maya Angelou
“Eu sei porque o pássaro canta na gaiola” é o primeiro volume das autobiografias da autora, e contempla o período entre sua infância e seus 16 anos, quando a pequena Maya — nascida Margueritte Ann Johnson — morava em Stamps, Arkansas, com sua avó Momma, seu irmão Bailey e seu tio Willie. Entre sua casa, a rua e o único mercado que vendia para negros, do qual sua avó era dona e onde ela e o irmão passavam muito tempo, Margueritte cresce e vai aos poucos descobrindo as inúmeras formas como o racismo atravessa a vida de uma criança negra no sul dos Estados Unidos da era da segregação racial.
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Os trechos que selecionamos mostram a força e a singeleza com que a autora conta sua experiências, a partir de seu olhar quando criança. São citações inspiradoras e que nos convocam a refletir sobre o racismo e buscar meios de combatê-lo. Confira:
“Não existe agonia maior do que guardar uma história não contada dentro de você”.
“Em Stamps, a segregação era tão completa que a maioria das crianças Negras não tinha a menor ideia de como os brancos eram. Fora isso, eles eram diferentes, deviam ser temidos, e nesse medo estavam incluídas a hostilidade do impotente contra o poderoso, do pobre contra o rico, do trabalhador contra o patrão e do maltrapilho contra o bem-vestido. Eu me lembro de nunca acreditar que os brancos eram muito reais”.
“Como a maioria das crianças, eu achava que, se conseguisse enfrentar voluntariamente o pior perigo e triunfar, teria poder sobre ele para sempre”.
“Momma pretendia ensinar a Bailey e a mim a usar os caminhos da vida que ela e a geração dela e todos os Negros anteriores encontraram e achavam seguros. Ela não gostava da ideia de que se podia falar com os brancos sem botar a vida em risco. E sem dúvida não se podia falar com eles com insolência. Na verdade, mesmo na ausência deles, não se podia falar sobre eles com rispidez, a não ser que usássemos o pronome ‘eles’. Se lhe perguntassem e ela decidisse responder se era covarde ou não, ela diria que era realista”.
“Ah, poetas Negros conhecidos e desconhecidos, com que frequência suas dores loteadas nos seguraram? Quem vai computar as noites solitárias amenizadas por suas canções, ou as panelas vazias ressignificadas pelas suas histórias? Se fôssemos um povo dado a revelar segredos, nós poderíamos erguer monumentos e fazer sacrifícios às memórias dos nossos poetas, mas a escravidão nos curou dessa fraqueza. Pode ser que seja suficiente, no entanto, dizer que nós sobrevivemos na proporção exata da dedicação de nossos poetas (incluindo pregadores, músicos e cantores de blues)”