Agora é Que São Elas, de Paulo Leminski: escrever é estar, a todo instante, diante (e transando) com a norma

“As aparências enganam mas enfim aparecem, o que já é alguma coisa comparado com outras que nem isso”
Catatau, Paulo Leminski

Agora é Que São Elas recebeu muitas críticas quando lançado, como se fosse uma “obra menor” de Paulo Leminski. Dizia-se que a obra teria sido um “erro”, fato que foi repetido, inclusive, pelo próprio autor, principalmente após a boa repercussão de Catatau, considerada por muitos o seu Ulisses.

Leminski, no primeiro capítulo de seu livro, diz: Nada poderia ser mais estranho para o leitor habitual de fábulas, ávido por emoções fáceis, detalhes picantes ou registros agudos do cotidiano, arquiteturas, redondas e enredos envolventes. (…) Seu romance é abstrato. Quer dizer, um romance feito de todos os romances, seus personagens são todos os personagens possíveis.

Talvez por ser abstrato, talvez por conter todos os romances no interior dele, talvez por entender que uma escrita contemporânea só pode se dar naquilo que confunde as bordas do gênero, mais do que naquilo que constroem de coesão, o romance foi pouco lido assim que lançado. Entretanto, alguns anos após o lançamento a obra começa a receber atenção. Agora é que são elas é, a meu ver, um grande ensaio sobre o ato de fazer um romance, e digo ensaio no sentido estrito a palavra, como se fosse a obra uma espécie de preparação de um romance que não se escreve, que permanece enquanto preparação. Em alguma medida, isso também foi apontado por Boris Schnaiderman – em um incrível posfácio da obra – para quem Agora é que São Elas é um romance que se “desescreve” a todo instante. Mas do que fala o livro?

De Norma, me lembro bem. Como esquecer com quantas bocas se faz uma daquelas, aquela multidão de abismos em que ela consistia?

A história é dividida em alguns planos: o principal deles é sobre um homem que está sempre frente a uma festa cujas regras ele não consegue compreender. Nela, acaba por se envolver ou se ver envolvido com uma mulher, Norma. Em outro plano, ele está sendo atendido por Dr. Propp, uma espécie de psicanalista à lá Freud e acaba por se envolver com sua filha, também chamada Norma. Em um terceiro plano, o sujeito se envolve em uma história de sci-fi com uma menininha sonhadora com nome Norminha.

“Sei que não devia estar dizendo as coisas desse jeito. Propp tinha me dito para eu sentir COM COISAS. Com fatos. Acontecimentos. Assim fazem os verdadeiros heróis, ele dizia, invocando Napoleão.
Sinto desapontá-lo, mas não sou imbecil o suficiente para APENAS contar uma história com o corpo da minha vida. Desculpe, professor, mas eu comecei A PENSAR. Sei que talvez seja um pouco cedo. Talvez não leve a nada.”

Leminski, ao que parece, busca fazer um romance que encontra sua autonomia inclusive em relação a si, o autor, como se, uma vez lançado ao mundo, ele pudesse ser desgovernado por quem o escreve e, assim, apresentar uma autoria fracionada entre a mão do escritor e a própria materialidade que se inscreve nas palavras. A linguagem, então, por um lado, gira em círculos por estar desarranjada por um “resoiner” ou alguém cuja mão pesa sobre sua escrita, de outro, ela tem a potência de avançar o tempo inteiro por circunvoluções que buscam acumular-se sem que isto, como uma seta apontada para o futuro, chegue em algum lugar. O resultado é uma linguagem potente que se dissolve em si própria.

Para resumir, trata-se de um romance em que Leminski está a todo instante diante da linguagem, diante de um batalha frente a uma força desconhecida que escreve e frente ao gênero romance propriamente dito. Sua personagens, assim como ele, também: está diante da Norma.

Edição: Agora É Que São Elas, Iluminuras, 2012
Foto e capa: Site Livro e Café (leia a resenha deles também!)

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