5 poemas para conhecer a moçambicana Sónia Sultuane

Sónia Sultuane é artista plástica, escritora e poeta moçambicana. Tem quatro livros de poesia publicados, além de obras voltadas ao público infantil. Roda das encarnações é o quarto livro da escritora, e o primeiro lançado no Brasil, em 2017, pela editora Kapulana. Foi escolhida como Escritora do ano 2014 pelo Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora e, em 2017, recebeu o Prêmio Femina na categoria Letras em Literatura e Poesia. Roda das encarnações (2017) traz uma poética suave, sensorial e mística. Temas como a espiritualidade, a memória e o amor também estão presentes.

Conheça alguns poemas do livro:

Roda das encarnações
Sou os olhos do Universo,
a boca molhada dos oceanos,
as mãos da terra,
sou os dedos das florestas
o amor que brota do nada,
sou a liberdade das palavras quando gritam e rasgam o mundo,
sou o que sinto sem pudor,
sou a liberdade de mãos abertas, agarrando a vida por inteiro
estou em milhares de desejos, em milhares de sentimentos
sou o cosmos
vivendo na harmonia na roda das encarnações.

Pontuação
Só tu conheces o texto onde me reescrevo,
só tu sabes onde colocar as vírgulas e os pontos finais,
onde estão as exclamações e as interrogações,
só tu sabes ler nas entrelinhas, nos espaços abreviados em mim,
só tu sabes como corrigir toda a pontuação.

Restos de verbos
A minha alma quer cantar poemas aluados,
quer rasgar versos prateados,
quer jogar no mar as rimas perdidas na noite de lua cheia,
restos de verbos deitam-se quietos no colo da lua.

Naufrágio
Quero soltar a âncora e velejar nesse mapa desconhecido,
e se o mar ficar bravo,
assobiarei aos céus para negociar a rota directa à lua,
e se os ventos forem fortes,
aguentarei firme nas coordenadas dessa viagem da vida.
Penso despertar em mim belezas ocultas
Tenho em mim esta garra
que me transforma
nessas mulheres de vários karmas
mulher agreste, selvagem
mulher luz, mulher poente
mulher confusa, mulher vidente
fico desperta quando descubro
que já vivi em outros mundos
com belezas ocultas de deusa, peregrina, supérflua, feiticeira,
todas guardadas nas profundezas do meu sangue,
da minha alma velha, mas de menina ainda contente.

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