Os 8 melhores poemas da obra Tradutor de Chuvas, de Mia Couto

Mia Couto destaca-se como um dos nomes da literatura moçambicana da atualidade. Tem diversos livros publicados em diferentes países. Recebeu vários prêmios nacionais e internacionais como o Prêmio Vergílio Ferreira (1999) e o Prêmio Camões (2013). O livro Tradutor de Chuvas, publicado em 2011, reúne mais de 60 poemas.

Os meus primeiros versos foram escritos para o meu pai
e falavam de relação que ele, na sua poesia,
criava entre as palavras e a chuva.
Ainda hoje o meu pai continua
chovendo dentro dos meus poemas.
(Mia Couto)

Confira os poemas selecionados:

TRADUTOR DE CHUVAS

Um lenço branco
apaga o céu.

A fala da asa
vai traduzindo chuvas:
não há adeus
no idioma das aves.

O mundo voa
e apenas o poeta
faz companhia ao chão.

ERRO POÉTICO
Sou o açúcar
procurando a formiga.
Meu carreiro
não tem linha.
É um ponto, um planetário grão.
A minha natureza
é uma inacabada caligrafia:
apenas os erros me defendem.
O amor apenas
me rasura a alma.
Com a formiga
partilho alucinogénios:
migas de paixão, migalhas de doçura.

DESLIÇÃO DE ANATOMIA

Quase fui médico.
Cedo acreditei
ter inclinação.
Aconteceu, em menino,
frente aos compêndios escolares.
Fascinava-me,
no humano corpo, o vocabulário em flor:
o suco gástrico,
o bolo alimentar,
o trânsito intestinal,
as papilas gustativas.

Ante o meu prematuro pasmo,
a professora vaticinou: vai ser médico!

Em casa, porém,
meu pai diagnosticou diverso:
não era a anatomia que me atraía.

Eu apenas amava as palavras.
Meu pai adivinhava.
E eu, de poesia, adoecia.

POEMA DIDÁTICO

Já tive um país pequeno,
tão pequeno
que andava descalço dentro de mim.
Um país tão magro
que no seu firmamento
não cabia senão uma estrela menina,
tão tímida e delicada
que só por dentro brilhava.

Eu tive um país
escrito sem maiúscula.
Não tinha fundos
para pagar a um herói.
Não tinha panos
para costurar bandeira.
Nem solenidade
para entoar um hino.

Mas tinha pão e esperança
para os viventes
e sonhos para os nascentes.

Eu tive um país pequeno,
tão pequeno
que não cabia no mundo.

BEIJO

Não quero o primeiro beijo:
basta-me
o instante antes do beijo.

Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.

O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.

Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.

DANOS E ENGANOS
Aquele que acredita ter visto o mundo,
não aprendeu a escutar-se no vento.
Aquele que se deitou na terra,
vestiu sonhos como se fossem vidas
e tudo o mais fossem regressos.
Mas aquele que tocou o fruto
provou a inicial doçura do tempo.
E quando tombou
de si mesmo se fez semente.

NÚMEROS

Desiguais as contas:
para cada anjo, dois demónios.

Para um só Sol, quatro Luas.

Para tua boca, todas as vidas.
Dar vida aos mortos
é obra para infinitos deuses.

Ressuscitar um vivo:
um só amor cumpre o milagre.

DIVINDADES
São pobres os deuses
da minha terra.
Desnutridos,
padecem de malária
e pedem esmolas aos devotos.
Descreem de si mesmos
e não há relicários
que não tenham roubado
nas igrejas que se alugam
à ingenuidade dos mais crentes.
Um dia,
se for feita a nossa vontade,
consolaremos estas divindades
da incurável doença
de serem tão nós,
tão sós,
tão nada.

Related posts

“As Aventuras de Daniel: Não Tenha Medo de Si Mesmo”: Fabiana Saka escreve história inspiradora sobre autoconhecimento e amizade

Livro escrito pelo historiador Heitor Loureiro analisa o genocídio armênio e suas repercussões no século XXI

“Não existe exceção”: em próximo volume de “Vera”, José Falero discute os impactos da masculinidade tóxica da infância à adolescência