A fascinação do cinema pela dita profissão mais antiga do mundo atravessa eras, movimentos e mais de um século. Atrizes que depois despontariam foram as “favoritas do Harém” em “Intolerância” (1916). Prostitutas com o coração de ouro apareceram na Itália – a inesquecível Cabíria de Giulietta Masina – e em Hollywood – a Sweet Charity do remake. A visão sobre garotas e, menos comumente, garotos de programa mudou com o tempo, mas o interesse por eles permaneceu. Tanto é que deu origem a dois filmes brasileiros bem semelhantes. Um deles é “Ruas da Glória”.
A primeira coisa que ouvimos é o barulho de um avião pousando. Quem desembarca é Gabriel (Caio Macedo), e no caminho para seu novo lar o que ele vê são pessoas transando. Na sua primeira noite na boate Glória, a atração por Adriano (Alejandro Claveaux) é instantânea e mútua.
Gabriel é nordestino e professor de literatura. Adriano é uruguaio e garoto de programa. Conforme eles se envolvem, Adriano arrasta Gabriel para seu mundo – um verdadeiro submundo – de drogas e prostituição. Até que um dia Adriano some.
Gabriel vai viver no antigo apartamento de Adriano e com o que encontra lá dentro vai montando um quebra-cabeça.
O desaparecimento de Adriano adiciona uma camada de mistério e excitação num filme que sem esse plot seria uma sequência interminável de transas e orgias. O retorno do personagem, muito aguardado, traz mais decepção que alegrias para Gabriel e para nós.
Duas atrizes trans integram o elenco. Jade Sassará é Laila, garota de programa, enquanto Diva Menner interpreta Mônica, dona da boate Glória que diz com a boca cheia que nem toda travesti é puta. Nem toda, mas a maioria: calcula-se que 90% das mulheres trans sobrevivem da prostituição.
Gabriel é um personagem apaixonante. Estamos falando de um jovem que coloca “Albuquerque” como o contato de seu pai. De um jovem que faz vídeos narrados para a avó, que já faleceu e cujas cinzas ele traz consigo para o Rio. De alguém que passa por um coming of age – e out of the closet – tardio. Eu me identifiquei com ele.
Não deixe o nome enganar: Alejandro Claveaux é brasileiríssimo, mais especificamente de Goiânia, embora com ascendência francesa e espanhola e filho de uruguaios. Formado em Engenharia de Alimentos, estreou como ator em 2007 e já acumula oito trabalhos no cinema, entre curtas e longas. Ele sem dúvida é o destaque na atuação do filme.
Os espaços da prostituição no Rio de Janeiro estão em mutação. Já não há garotos de programa na Cinelândia e na Via Ápia, assim chamada por ser local livre de fiscalização, muito diferente do Uruguai, como conta Adriano. No pequeno país vizinho, desde 2002, a prostituição é regulamentada por lei e estima-se que existam pouco mais de oito mil pessoas na profissão.
É impossível ver “Ruas da Glória” e não se lembrar de “Baby”, que ficou entre os dez melhores filmes brasileiros de 2025 segundo votação da Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Em ambos, um jovem amadurece a partir de um relacionamento conturbado com um garoto de programa. Mas “Ruas da Glória” empalidece se comparado com “Baby”.
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O diretor e roteirista Felipe Sholl declarou que “É um filme cheio de amor, que fala sobre emoções intensas, luto, e busca de conexão”. Relacionamentos malfadados ensinam mais que os felizes e duradouros, mas será que precisamos nos submeter a relacionamentos abusivos para amadurecer? Cabe a cada um encontrar a resposta ao final da sessão.
“Ruas da Glória” chega aos cinemas em 02 de abril. Confira o trailer:
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