“Cheiro de Diesel”(2026) revela o custo humano de uma política de segurança baseada na guerra

Cheiro de Diesel abre com uma sequência contrastante. O exército brasileiro marcha pelas ruas do Rio de Janeiro, enquanto cantam a música “Soldados da Liberdade”, uma espécie de hino da Marinha. Diante da real história do Exército no Brasil, a canção chega a ser cômica: “defendamos a integridade da pátria brasileira estremecida”. Chama atenção também a ênfase que a canção dá à glória do combate: “Sentinelas de terras e dos mares, nossa vida é combate viril”.

Vamos aos contrastes: é impossível não perceber a juventude nos rostos daqueles que cantam esses versos. Jovens que não devem ter muito mais que 20 anos, um aspecto que, mais tarde, será comentado por um dos entrevistados do documentário. “São jovens que adquiriram poder de polícia”. A outra discrepância está no fato do Exército marchando em território nacional cantando sobre defender essa mesma pátria: quem será o inimigo?

Quem sabe a realidade do Rio de Janeiro sabe a resposta: o inimigo, aqui, não é uma ameaça externa, mas interna e historicamente construída. É o próprio cidadão transformado em alvo, sobretudo aquele que habita as  ditas “margens” da cidade. Nas favelas e periferias, onde a presença do Estado costuma se manifestar majoritariamente pela força, a figura do “inimigo” ganha contornos bem definidos: jovem, negro, pobre.

Cheiro de Diesel, dirigido por Gizele Martins e Natasha Neri, aborda a ocupação militar nas favelas do Rio de Janeiro, e as consequências diretas na vida das pessoas que ali vivem. A partir de depoimentos de moradores, o documentário constrói um retrato que vai além da denúncia imediata, revelando as camadas de naturalização da violência que se acumulam ao longo dos anos.

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Como plano de fundo dos depoimentos, está a história do estado do Rio. Há uma forte preocupação em localizar temporalmente as declarações das vítimas da militarização. A imagem de um morador quase sempre é acompanhada pela imagem de algum dos diversos políticos responsáveis pela situação. Os culpados têm nome e rosto.

O documentário ainda abre o escopo, abordando também a situação de Israel e Palestina, estabelecendo um paralelo que, à primeira vista, pode parecer distante, mas que rapidamente se revela pertinente. A lógica que sustenta a militarização dos territórios palestinos,  marcada pela vigilância constante e pelo controle de circulação ecoa, em outra escala e contexto, nas práticas observadas nas favelas cariocas. Isso sem falar das conexões econômicas, com equipamentos israelenses sendo utilizados nas favelas.

Cheiro de Diesel preza mais pelo jornalismo, e nesse sentido, o aspecto formal privilegia a clareza das informações, apostando em uma narrativa direta, e torna ainda mais evidente a naturalização de um modelo de segurança baseado na lógica do confronto permanente, onde a figura do inimigo interno sustenta políticas que redefinem, de forma silenciosa, quem tem direito à cidade e à cidadania.

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