“Narciso”(2026): Jeferson De usa metáfora para falar sobre racismo estrutural e como isso afeta jovens pretos

Na semana passada, um colega me disse que toda crítica é enviesada. Na hora discordei, com a empáfia de quem acredita em isenção. Mas fiquei remoendo aquilo enquanto esperava o sinal abrir, e hoje, diante da tela escura, entendo: escolho escrever sobre o que me escolhe. E Jeferson De sempre me escolhe.

Cheguei ao cinema correndo, com a alma ainda na esteira do trabalho. Foi talvez por isso que Narciso me pegou de jeito. Nos primeiros minutos, o menino é devolvido ao orfanato. Nenhuma fala. Só o peso de um corpo que se entrega. A câmera de Lilis Soares não documenta aquela cena; ela a respira. Tons frios para melhor lembrar que ali ninguém pertence a lugar nenhum. Tons quentes para acolher com a alma de quem sabe o peso do mundo lá fora.

Jeferson De e Cristiane Arenas constroem o roteiro como quem arma uma casa de espelhos: poucas palavras, mas cada uma ecoa. Em vez de discursos, inserem comerciais e programas de TV que passam nos intervalos da solidão. Branquitude ininterrupta. A criança aprende, sem que ninguém lhe diga, que para ser amado talvez precise ser outro. Quando Narciso pede ao gênio uma família rica, já está convicto: para fazer parte daquele mundo, ele precisa ser branco. É o que a televisão mostra. É o que a vida confirma.

Mas o que me desmontou mesmo foi Bukassa Kabengele. Há uma cena em que ele desagua. Não há outro verbo. O personagem, que durante todo o filme contém o que não pode dizer, de repente se abre e a água vem — e eu, na poltrona, viro espelho. Ju Colombo, ao lado, sustenta camadas que parecem pedras, mas não são de ferro. O filme inteiro é assim: feito de gente que aprendeu a não subir o tom, porque subir o tom é perigoso.

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Quando as luzes acenderam, tentei fazer o que sempre faço: buscar repertório, nomear planos, dissecar escolhas. Não consegui. A cabeça estava vazia; o peito, cheio. Foi aí que entendi o que meu colega queria dizer. Crítica enviesada não é aquela que tem opinião; é aquela que se permite ser afetada. E Narciso me afetou como um soco que só depois a gente descobre que era um abraço.

Talvez por isso ele corra o risco de ficar à margem. Vivemos numa época que se orgulha de não ter tempo para sentir — onde a urgência matou a duração. E Narciso exige o oposto: que a gente pare, que se deixe habitar. É um filme que não se rende ao espectador apressado. Exige que você sente, fique, desague.

Só assim, acho, ele cumpre o que promete. Jeferson De usa seu repertório inteiro — luz, silêncio, o corpo de Bukassa — para nos lembrar que sentir desigualdade já é começar a desfazê-la. E que às vezes a crítica mais honesta não cabe numa ficha técnica. Cabe numa lágrima derramada no escuro.

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