Algumas dramaturgias são clássicas porque nos tocam em lugares sensíveis, conseguindo transitar entre séculos e ainda assim apresentar um problema contemporâneo. Esse é o caso de O Mercador de Veneza, peça de William Shakespeare dirigida por Daniela Stirbulov.
A trama acompanha Antônio, um mercador que contrai uma dívida com o agiota judeu Shylock para ajudar seu amigo Bassânio. Como garantia, Antônio oferece uma libra de sua própria carne. Com o não pagamento da dívida, o contrato desencadeia um julgamento dramático, colocando em pauta temas como justiça e preconceito.
A dramaturgia de O Mercador de Veneza, nesta versão dirigida por Daniela Stirbulov, demonstra uma qualidade superior e atemporal ao funcionar como um espelho crítico para o presente. O espetáculo evidencia que a força do texto não reside apenas na manutenção da estrutura clássica shakespeariana, mas na inteligência da adaptação de Bruno Cavalcanti, que extrai da trama secular uma “visão clínica” sobre o preconceito e o antissemitismo.
Ao conectar a desumanização do judeu Shylock, na Veneza de 400 anos atrás, à desumanização dos imigrantes e adversários em guerras contemporâneas, a peça transcende o mero entretenimento e atinge um patamar de reflexão filosófica e política. A dramaturgia é, portanto, eficaz não por atualizar a história, mas por revelar como os mecanismos do ódio e da intolerância se repetem na história, transformando a busca por justiça em violência justificada e cegando a humanidade para a misericórdia, o que a torna uma obra essencial e perturbadoramente relevante para o público de 2026.
Se o texto de Shakespeare e a adaptação de Bruno Cavalcanti fornecem a base filosófica para a reflexão sobre o preconceito, é o elenco de O Mercador de Veneza que atua como a força motriz, transformando conceitos atemporais em emoção palpável e conectando a plateia à essência humana da obra. O conjunto de atores — composto por Dan Stulbach, Augusto Pompeo, Amaurih Oliveira, Cesar Baccan, Gabriela Westphal, Júnior Cabral, Marcelo Diaz, Marcelo Ullmann, Marisol Marcondes, Rebeca Oliveira, Renato Caldas, Thiago Sak, Felipe Hintze e Natália Beukers — demonstra uma coesão rara, provando que não há personagem pequeno quando a criatividade individual é colocada a serviço da narrativa.
Gabriela Westphal se destaca pela precisão técnica, com um desenho de fala impecável e um trabalho corporal expressivo que enriquece suas transições entre personagens, enquanto Felipe Hintze, mesmo em poucas aparições, exibe um timing cômico afiado que cativa o público. No entanto, é Dan Stulbach quem atinge um patamar diferenciado: sua atuação transcende a técnica, pois ele não apenas interpreta Shylock, mas parece “planar” em cena, envolvendo o público com uma delicadeza e um carisma que tornam a jornada do mercador uma experiência profundamente íntima e comovente.
Essa diversidade de qualidades interpretativas — do rigor técnico de Westphal à entrega visceral de Stulbach, passando pelo carisma relâmpago de Hintze e a solidez de nomes como Augusto Pompeo, Amaurih Oliveira, Thiago Sak e todo o restante do elenco — eleva o espetáculo e garante que a denúncia contra a desumanização, tão central à trama, atinja o espectador com toda a sua força urgente.
Se a dramaturgia oferece o espelho crítico para o presente e o elenco fornece a força motriz que transforma conceitos em emoção, é a direção de Daniela Stirbulov que atua como a inteligência organizadora do espetáculo, costurando esses elementos com uma sensibilidade que valoriza a potência individual sem perder a coerência do todo. O que mais impressiona em seu trabalho é a recusa em formatar os atores para servir à dramaturgia de maneira engessada; ao contrário, Stirbulov demonstra um olhar clínico e generoso ao identificar a singularidade de cada intérprete — da precisão técnica de Gabriela Westphal ao magnetismo instantâneo de Felipe Hintze, passando pela entrega visceral de Dan Stulbach — e colocá-los a serviço do texto com uma naturalidade que faz com que cada cena pareça ao mesmo tempo orgânica e rigorosamente construída.
Essa abordagem permite que nomes como Augusto Pompeo, Amaurih Oliveira, Thiago Sak e todo o restante do elenco encontrem espaços de brilho próprio, criando um tecido cênico onde não há hierarquia entre personagens, mas sim uma constelação de talentos que orbitam em harmonia. Ao confiar na criatividade de seus atores e orquestrar suas potências em função da narrativa, Stirbulov não apenas extrai o melhor de cada um, mas também garante que a denúncia contra a desumanização — tema tão caro à montagem — atinja o espectador com a contundência de quem entende que o teatro se faz no encontro genuíno entre texto, intérprete e plateia.
É evidente que a grande força de O Mercador de Veneza reside na capacidade de resgatar a essência mais nobre do teatro shakespeariano: a de ser um espaço de encontro popular, reflexão e emoção compartilhada. Sob a direção sensível de Daniela Stirbulov, que soube orquestrar as potências individuais de um elenco afiado — onde brilham nomes como Dan Stulbach, Gabriela Westphal e Felipe Hintze, sem jamais ofuscar a solidez do conjunto —, a peça não apenas atualiza a discussão sobre o preconceito e a desumanização, mas a torna acessível e urgente para o público de 2026. Mais do que elitizar um tema filosófico, o espetáculo faz o caminho inverso: populariza a linguagem, aproxima a plateia da humanidade complexa de cada personagem e transforma a denúncia contra o ódio em uma experiência catártica e coletiva. Ao conseguir transitar entre séculos sem perder o frescor e a potência emocional, esta montagem de O Mercador de Veneza prova que o teatro continua sendo uma ferramenta vital para tocar corações e, quem sabe, despertar consciências.
Ficha Técnica:
Texto: William Shakespeare.
Direção: Daniela Stirbulov.
Tradução, Adaptação e Assistência de Direção: Bruno Cavalcanti.
Elenco / Personagem: Dan Stulbach (Shylock), Augusto Pompeo (Duque), Amaurih Oliveira (Lorenzo e Príncipe de Marrocos), Cesar Baccan (Antônio), Gabriela Westphal (Pórcia), Júnior Cabral (Graciano), Marcelo Diaz (Lancelotte Gobbo), Marcelo Ullmann (Bassânio), Marisol Marcondes (Jéssica), Rebeca Oliveira (Nerissa), Renato Caldas (Solânio e Tubal) e Thiago Sak (Salarino e Príncipe de Aragão).
Cenografia: Carmem Guerra.
Cenotécnico: Douglas Caldas.
Desenho de Luz: Wagner Pinto e Gabriel Greghi.
Figurino e Visagismo: Allan Ferc.
Assistente de Figurino: Denise Evangelista.
Peruqueiros: Dhiego Durso e Raquel Reis.
Direção de Movimento: Marisol Marcondes.
Aderecista: Rebeca Oliveira.
Baterista: Caroline Calê.
Consultoria Sobre Shakespeare: Ricardo Cardoso.
Vídeo e Imagem: André Voulgaris.
Fotos: Ronaldo Gutierrez.
Design Gráfico: Rafael Oliveira Branco.
Operação de Luz: Jorge Leal.
Operação de Som: Eder Sousa.
Motorista: Cosme Araujo.
Assistente de Produção: Amanda Nolleto.
Produção Executiva: Raquel Murano.
Direção de Produção: Cesar Baccan e Marcelo Ullmann.
Produção: Kavaná Produções e Baccan Produções.
Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes.