A prosa de precisão quase hipnótica de Ann Quin em “Três”

Três, publicado pela editora DBA, é o segundo romance da escritora inglesa Ann Quin, lançado originalmente em 1966. Como na primeira obra, Berg, a narrativa coloca em cena um triângulo de personagens e suas emoções reprimidas por meio de uma multiplicidade de vozes que se intercalam e ricocheteiam.

A trama gira em torno da enigmática S, jovem que some misteriosamente no mar enquanto se recuperava de uma cirurgia na casa de Ruth e Leonard. A principal suspeita é de que ela tenha cometido suicídio — e, a partir dessa ausência, o casal se debruça sobre os resquícios dela deixados em diários, áudios e filmes caseiros, elementos que compõem um mosaico impressionista e voyeurístico junto com os diários de Ruth e Leonard.

Ora em primeira pessoa, ora em terceira, o romance deixa ver, entre sombras, tensão e frustração sexual, a paranoia conjugal e a decadência da classe média britânica da época.

Leia também: “Berg” é o insólito romance de estreia de Ann Quin, ícone cult dos anos 1960

Celebrado por sua ousadia formal e por uma prosa de precisão quase hipnótica, Três reafirma Ann Quin como uma das vozes mais singulares da literatura moderna: uma escritora que fez do risco estético e da instabilidade psíquica princípios estruturais do romance. Esta edição tem prefácio de Joshua Cohen, um dos grandes nomes da literatura estadunidense contemporânea, vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção em 2022.

Sobre a autora:

Ann Quin (1936–1973) nasceu em Brighton, Inglaterra. Publicou, em vida, os romances Berg (DBA Literatura, 2025), Three (1966), Passages (1969) e Tripticks (1972). A coletânea de escritos The Unmapped Country foi lançada em 2018, mais de quarenta anos após sua morte. Mulher, radicalmente experimental e da classe trabalhadora: talvez a combinação dessas características ajude a explicar seu apagamento da história literária britânica por décadas.

Dona de uma escrita que consegue ser ousada e acessível ao mesmo tempo. Há um fio narrativo a ser seguido enquanto a estrutura do romance e o uso inventivo da linguagem expandem possibilidades de interpretação. Não por acaso, os quatro romances publicados lhe renderam comparações com nomes célebres da vanguarda literária, de Nathalie Sarraute e Anna Kavan a Samuel Beckett, passando pelos norte-americanos da geração beat, parentesco que ela subverteu ao tratar com ironia fina o machismo dominante.

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