Inspirado em “Pierrot le Fou”, de Godard, peça “Coração na Boca” reflete sobre amor e liberdade aos 60 anos

Um dos marcos da Nouvelle Vague, o filme “Pierrot Le Fou” (O demônio das onze horas), de Jean Luc Godard, serve de ponto de partida para “Coração na Boca”, nova montagem com direção de Felipe Vidal, que estreia em março no Centro Cultural Banco do Brasil – RJ. O espetáculo não se propõe a adaptar a obra, mas mergulha nas questões filosófico-existenciais próprias do universo do cineasta. Sem personagens fixos, a cena articula uma multiplicidade de personas sobrepostas.

O casal Marianne e Ferdinand, de 30 anos, se mistura aos atores Priscilla Rozenbaum e José Karini, de 60, e ao próprio Godard. Este movimento tensiona a discussão sobre desejo, liberdade, fuga e até quando é possível viver com o coração na boca.

No filme, Ferdinand/Pierrot (Jean-Paul Belmondo) escapa de sua vida tediosa fugindo com Marianne (Anna Karina), uma jovem de espírito livre que está sendo perseguida. O casal é lançado em uma verdadeira odisseia existencial em busca de algum sentido e de um amor que insiste em lhes escapar, e que escapa, principalmente, de qualquer tentativa de idealização. Amor que talvez, lendo a partir de Godard, seja o ‘amor que procura compreender a si mesmo’. O trágico, ou a possibilidade do trágico, se coloca irremediavelmente como condição existencial para esses personagens que se encontram em torno dos 30 anos.

Já na peça, com os atores na faixa dos 60 anos e no Brasil de 2026, todas essas questões se colocam sob uma perspectiva bem diferente.

“Nós partimos da obra e do pensamento vivo do Godard, para discutir essa pulsão de vida, percebendo que, hoje em dia, podemos viver com o coração na boca por muitos e muitos anos, mas também passamos pela reflexão sobre como e quando pode se dar o fim dessa pulsão.”, comenta Felipe Vidal.

Ancorada na pesquisa de linguagem da Nouvelle Vague, a dramaturgia foi construída em conjunto com os atores. Em seu processo criativo, Godard se apropriava de frases, imagens e separava os fragmentos, operando uma espécie de colagem e dando autonomia a todos os elementos que compunham seus filmes: texto, imagem, atores e trilha. Felipe Vidal, Priscilla Rozenbaum e José Karini se propuseram a criar uma dramaturgia utilizando os mesmos recursos.

Segundo o diretor,

“Trabalhar com fragmentos é abrir sentidos e não fechar sentidos. A escolha do que a gente coloca ali vem muito da subjetividade de nós três. Essa não-linearidade, a fragmentação da narrativa e dos diálogos nos interessa bastante. Godard sampleava outros autores para criar sua dramaturgia e esse é um procedimento muito presente na arte contemporânea, portanto no teatro também”, explica Vidal, que reúne trabalhos com uma linguagem semelhante em seu repertório.

Para Priscilla Rozembaum é um mundo novo: “Eu estou acostumada com começo, meio e fim, com comédias românticas e dramas comoventes. Pra mim está sendo uma aventura, um safári”. A atriz já trabalhou em quase 60 peças de teatro, além de marcar presença no audiovisual, sobretudo nos filmes de Domingos Oliveira, com quem foi casada.

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“Ele era 23 anos mais velho que eu e falava que não se sentia um velho, com 70 anos se sentia com 7. Eu achava ridículo. Pois é, agora com 60 eu me sinto com 6 e sei do que ele estava falando. É uma coisa interna, tem gente que nasce velho e morre velho, tem gente que nasce jovem e morre jovem. Acho que essa peça é sobre isso também”, comenta.

Na opinião do ator José Karini, a liberdade, como a utopia, segue no horizonte. “Aos 30, 60 e provavelmente aos 90 anos, a gente segue buscando a liberdade. Essas questões humanas, as dúvidas, alegrias e tristezas do amor, são questões existenciais e permanecem as mesmas. É o nosso olhar sobre elas que muda. Por isso que a gente trouxe o Godard para esse projeto, porque ele mesmo mantém as questões ao longo do tempo. O que muda é a forma como a gente vai discutir sobre elas”, conclui.

FICHA TÉCNICA

Dramaturgia de Felipe Vidal, José Karini e Priscilla Rozenbaum (a partir da obra de Jean-Luc Godard)

Realização: CCBB Direção de Felipe Vidal

Com Priscilla Rozenbaum e José Karini 

Direção de movimento: Maria Alice Poppe 

Cenografia: Aurora dos Campos 

Iluminação: Tomás Ribas

Figurinos: Kika Lopes

Programação visual e videografismo: Eduardo Souza 

Vídeos: Pedro Carvana

Assistência de direção: Lucas Barbosa 

Assistência de cenografia: Rachel Merlino 

Assistência de figurinos: Rocio Moure

Assessoria de imprensa: Marcella Freire – Mar Comunicação 

Redes sociais: Agnes Brichta

Produção executiva: Alice Botelho 

Realização: Priscilla Rozenbaum e José Karini

SERVIÇO

Local: Teatro II – Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB RJ) 

Datas: 13 de março a 26 de abril de 2026

Horários: De quinta a sábado 19h, domingos 18h 

Ingressos: R$ 30,00 (inteira) R$ 15,00 (meia-entrada)

Meia-entrada para idosos, estudantes e demais beneficiários legais e no pagamento com cartões BB.

Ingressos disponíveis na bilheteria física e no site do CCBB a partir de 2/3.

Site: https://ingressosccbb.com.br/teatro-coracao-na-boca__3527

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