“Fissura”: texto e direção de Clarisse Zarvos traz solo que usa o terror para pensar o medo no espaço doméstico

Na montagem escrita e dirigida por Clarisse Zarvos, a casa deixa de ser cenário e se torna um organismo vivo

Inspirado em contos de terror escritos por mulheres da era vitoriana (1837–1901), o espetáculo parte da figura da casa assombrada para refletir sobre o espaço doméstico como lugar de confinamento, silenciamento e controle.

A trama acompanha uma mulher levada para passar um período sozinha em uma casa de campo, sob o argumento de se recuperar de uma doença psíquica. Isolada e sem referências, ela mergulha em um estado de exaustão mental: lembranças e medos se sobrepõem, fazendo seus dias oscilarem entre lucidez e delírio.

Sem nome — identificada apenas como “a Personagem” —, ela representa diversas mulheres submetidas à clausura e ao esquecimento. É nesse contexto que seus olhos se fixam em uma fissura na parede, brecha que se abre como passagem para outras camadas da casa e da memória.

Ao atravessar essa fresta, a Personagem encontra uma criatura — metade criança, metade velha — que a conduz pelos antepassados que habitaram a casa. Essas figuras transformam situações cotidianas em imagens típicas do horror, revelando como determinados comportamentos nocivos se cristalizam e se naturalizam no ambiente doméstico. Entre elas estão o fantasma do pai ausente que não aparece nas fotos de família, um casal lésbico condenado à clandestinidade e uma trabalhadora doméstica invisível, obrigada a manter tudo em ordem sem jamais ser vista.

“Ao contrário do que se espera, muitas casas não funcionam como abrigo ou lugar de proteção”, explica Clarisse Zarvos. “Em contos de horror escritos por mulheres, o espaço doméstico surge como um organismo vivo, que observa, reage e produz horror. Não é cenário: é corpo ativo da narrativa.” Em Fissura, essa lógica se materializa na própria rachadura na parede — brecha por onde o que foi silenciado insiste em reaparecer, mas também se apresenta como possibilidade de outras existências.

A encenação aposta na metalinguagem. Em alguns momentos, Maria Fabíola assume o papel de narradora e comenta os mecanismos de criação de uma história de terror, antecipando expectativas do público e ironizando seus códigos mais clichês. “Este gênero trabalha muito com fórmulas reconhecíveis, com situações que se repetem tanto no cinema quanto na literatura. Identificar essas estruturas é uma forma de reforçar como os medos do cotidiano também se repetem em ambientes que nos são familiares”, afirma a diretora.

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A dramaturgia dialoga com obras vitorianas britânicas como O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman; A Janela da Biblioteca, de Margaret Oliphant; e A Verdade, Somente a Verdade, de Rhoda Broughton — narrativas atravessadas por clausura, opressão e instabilidade psíquica. Ao mesmo tempo, a peça se abre ao terror latino-americano contemporâneo, mais quente e pulsante, em sintonia com autoras como Mariana Enriquez, María Fernanda Ampuero e Mónica Ojeda.

No texto da peça, a narradora lembra que nem toda casa mal-assombrada fica no meio de uma floresta isolada. Algumas estão mais próximas do que se imagina — aqui, ali, nos apartamentos das grandes cidades. Histórias de terror acontecem todos os dias no mundo dos vivos. “Atualizar essas narrativas permite refletir sobre o que ainda persiste, o que foi transformado e quais legados queremos construir”, conclui Clarisse.

Clarisse Zarvos — dramaturga e diretora

Artista multidisciplinar carioca, trabalha com teatro, cinema e literatura. Graduada em Artes Cênicas pela UNIRIO, é mestre e doutora em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Atuou como preparadora de elenco dos filmes Geni e o Zepelim, de Anna Muylaert, e Medusa, de Anita Rocha da Silveira. É autora do livro de poesia Baile dos Continentes (Patuá, 2024) e integra o grupo Teatro ao Redor, onde é codiretora e codramaturga das peças 69 Cômodos (2023) e Travessia Tiradentes (2022). Foi artista residente da Cité Internationale des Arts de Paris (Trame, 2021) e já atuou com diversos coletivos de teatro cariocas como Complexo Duplo, Miúda, Brecha Coletivo, Gestopatas e TVNI.

Maria Fabíola — atriz

Atriz, diretora, roteirista e pesquisadora capixaba, com 30 anos de trajetória. É graduada em Artes Cênicas pela UFOP e mestranda em Estudos de Cinema e Teatro Latino-americano e Argentino pela Universidade de Buenos Aires. Entre seus trabalhos, destaca-se o solo A Menina, dirigido por Virginia Jorge. Recebeu cinco prêmios de Melhor Atriz por Eu queria ser raptada, amordaçada e nas minhas costas tatuadas, de Andy Malafaia, e outros quatro por Depois, de Marcello Quintella. Dirigiu o documentário Entretorres (2020) e o curta de ficção Trinca-ferro. Atualmente desenvolve seu primeiro longa de ficção, Mirada, e o projeto Trilogia da Memória, iniciado com o documentário Iracina – todo dia é um dia só (2023).

Ficha Técnica

Dramaturgia e Direção: Clarisse Zarvos
Atuação e Colaboração Dramatúrgica: Maria Fabíola
Direção Musical: Rachel Araújo
Cenógrafa: Elsa Romero

Assistente de Cenografia: Yasmin Lira
Iluminadora: Lara Cunha
Figurinista: Carla Costa
Preparadora Corporal: Laura Samy
Fotógrafa: Thaís Grechi
Assessoria de Imprensa: Lyvia Rodrigues – Aquela Que Divulga

Mídias Sociais: Calmon LAB
Designer: Fernando Alax
Direção de Produção: Martha Avelar – EmCartaz Empreendimentos Culturais
Produção Executiva: Fernando Alax – Casa 136 Produções Artísticas
Idealização: Maria Fabíola, Clarisse Zarvos e Martha Avelar

Produção: Fabulanas Produções
Realização: Sesc RJ

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