“Hamlet, sonhos que virão”: Um espetáculo visualmente deslumbrante que corre mais do que a poesia permite

Hamlet é uma das obras mais icônicas de Willian Shakespeare, as pessoas podem não conhecer a obra diretamente, mas com certeza se lembram do clássico “ser ou não ser, eis a questão”. Para a geração milênio, essa peça tem outra relação, ela inspirou a animação Rei Leão da Disney, uma obra completa. Para mim, além de uma nostalgia, há outra importância: foi um dos primeiros livros que li. Como artista, não há como negar o desejo de representar esse clássico do teatro, mas a pergunta que fica é: o que há de novo para contar, numa obra que já foi mais que explorada? Essa é a pergunta que ficou na minha cabeça ao ver o anúncio dessa montagem dirigida por Rafael Gomes: o que eles irão contar de novo?

Em Hamlet, Sonhos que Virão, após a morte do rei da Dinamarca, o príncipe Hamlet vê seu tio assumir o trono e casar-se com sua mãe. Suspeitando das circunstâncias da morte do pai, Hamlet decide fingir loucura para investigar a verdade e testar os limites do poder, das paixões humanas e da própria razão. A encenação ocupa o espaço arquitetônico como território dramático, aproximando público e atores, presença e conflito, palavra e consequência. Não para ser apenas diferente, mas porque certas histórias não cabem mais dentro de uma moldura convencional.

Quando o mundo apodrece, a forma também precisa rachar. O espaço entra em diálogo com a tragédia. A história de um príncipe que investiga a verdade por trás de um crime de poder continua perigosamente atual: manipulação, imagem pública, corrupção, vingança e colapso ético. O que muda são as roupas — não as feridas. O texto atravessou séculos porque carrega verdades simples e contundentes: o poder mente — e quem enxerga paga o preço. Hamlet, sonhos que virão não é apenas uma experiência sensorial. É confronto com a dúvida, com a culpa, com o silêncio cúmplice. É sobre quando a consciência entra em guerra com o mundo. E isso nunca foi tão contemporâneo.

Essa premissa instigante, no entanto, esbarra em um paradoxo dramatúrgico. A peça apresenta um paradoxo interessante: embora a proposta de ocupação espacial e a atualização da linguagem sejam escolhas pertinentes para tornar o texto acessível ao público contemporâneo, a adaptação do texto em si compromete aspectos fundamentais da obra original. Na tentativa de reduzir a peça para duas horas, os dramaturgos Bernardo Marinho e Rafael Gomes sacrificaram a profundidade poética e a força dramática dos diálogos, como na condução apressada do relato de Ofélia, que prejudica a compreensão da ambiguidade entre amor e loucura na relação com Hamlet.

Assim, a dramaturgia acerta ao recontextualizar a obra para questões atuais como manipulação e corrupção, mas falha ao não preservar a complexidade psicológica e a riqueza textual que torna a tragédia shakespeariana atemporal, resultando em uma adaptação que prioriza a concisão em detrimento da densidade necessária para explorar plenamente os conflitos existenciais propostos. Se a adaptação textual sacrifica camadas de sentido, o mesmo não ocorre com o trabalho dos atores. 

O elenco de Hamlet, Sonhos que Virão constitui o principal ponto de excelência do espetáculo, funcionando como um contrapeso às limitações da adaptação textual. Gabriel Leone é um Hamlet visceral, com trabalho de corpo e presença de palco impecáveis, entregando-se totalmente à complexidade do personagem. Samya Pascotto constrói uma Ofélia de delicadeza tocante, especialmente na cena de sua morte, uma das cenas mais belas da temporada. A dupla Susana Ribeiro e Eucir de Souza possui uma química afiada, com Susana levando sua rainha a intensidades que evocam a trágica Jocasta.

Bruno Lourenço, no entanto, emerge como o grande destaque: sua presença cênica gigantesca e desenho de fala brilhante transcendem a mera representação de Laertes, configurando uma apropriação tão profunda do personagem que sua honra se torna palpável. Assim, mesmo diante de uma dramaturgia que sacrifica camadas textuais em nome da concisão, o conjunto de atuações revela um elenco afinado, comprometido e capaz de imprimir verdade e potência emocional, resgatando pela via da interpretação a complexidade humana que define a tragédia shakespeariana. Tamanha entrega interpretativa encontra eco na inventividade dos elementos cênicos. 

A qualidade técnica da montagem representa o aspecto mais inovador do espetáculo, sendo responsável por conferir fluidez e originalidade à montagem. A cenografia de André Cortez destaca-se pela ocupação inteligente da arquitetura brutalista do espaço, incluindo o mezanino, e pela utilização criativa de trilhos e carrinhos que permitem a movimentação cênica, resultando em uma das cenas de duelo mais únicas já vistas no teatro. A iluminação de Wagner Antonio revela-se fundamental para a imersão psicológica, criando um ambiente onírico que permite ao público compartilhar das visões e do estado mental de Hamlet.

Já o figurino de Alexandre Herchcovitch apresenta uma proposta conceitual coesa, com linhas e traços inspirados na engenharia, arquitetura e design industrial, materializada no figurino monocromático cinza de Hamlet, que traduz visualmente o universo estético e emocional da tragédia. Assim, o conjunto das soluções técnicas não apenas dialoga com a proposta de ocupação espacial anunciada, mas efetivamente realiza a inovação prometida pela montagem, criando uma experiência sensorial que amplifica os conflitos dramáticos sem depender exclusivamente do texto. A solidez técnica, contudo, não esconde uma escolha questionável da direção.

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A direção de Rafael Gomes em Hamlet, Sonhos que Virão demonstra segurança na integração dos elementos cênicos, mas revela uma escolha questionável quanto ao tratamento do tempo dramático. O diretor orquestra com competência a ocupação do espaço arquitetônico, a movimentação cênica sobre trilhos e o ambiente onírico criado pela iluminação. A proposta conceitual dos figurinos também se integra a esse conjunto, resultando em uma encenação fluida e visualmente coesa. Da mesma forma, extrai entregas visceralmente comprometidas do elenco, que consegue imprimir verdade emocional mesmo diante das limitações textuais.

No entanto, ao optar pelo dinamismo e pela concisão em detrimento da pausa e da densidade, a direção falha em criar o tempo necessário para que a força poética dos diálogos seja absorvida e para que as ambiguidades psicológicas dos personagens sejam plenamente exploradas. O exemplo do relato apressado de Ofélia ilustra como essa opção pelo ritmo acelerado sacrifica camadas de significação fundamentais para a compreensão da complexidade das relações. Assim, a direção acerta ao conceber uma experiência sensorial inovadora e ao extrair potência de seu elenco, mas tropeça ao não equilibrar a fluidez formal com a respiração que a tragédia shakespeariana exige para que seus conflitos existenciais ressoem em toda a sua profundidade.

Em síntese, Hamlet, Sonhos que Virão é um espetáculo de contrastes: se a dramaturgia enxuta sacrifica a densidade poética em nome da concisão, a excelência do elenco e a inventividade técnica – cenografia, iluminação e figurinos – realizam a promessa de inovação estética. A direção de Rafael Gomes, hábil na integração desses elementos, deixa, porém, um dilema não resolvido entre o dinamismo formal e o tempo de respiração que a tragédia exige. A montagem responde à pergunta inicial oferecendo uma reinvenção espacial e sensorial, mas o faz às custas de parte da complexidade que consagrou a obra, resultando em um espetáculo visualmente deslumbrante, porém dramaticamente mais célere do que Hamlet talvez merecesse.

FICHA TÉCNICA:

Direção: Rafael Gomes
Adaptação: Bernardo Marinho e Rafael Gomes
Tradução: Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harington
Elenco: Gabriel Leone, Susana Ribeiro, Eucir de Souza, Samya Pascotto, Fafá Renó, Bruno Lourenço, Daniel Haidar, Felipe Frazão, Rael Barja, Davi Novaes, Conrado Costa, Giovanna Barros e Lua Dahora
Cenografia: André Cortez
Iluminação: Wagner Antônio
Figurino: Alexandre Herchcovitch
Visagismo: Pamela Franco
Trilha Sonora: Barulhista e Antonio Pinto
Design de som: Gabriel D’Angelo e Fernando Wada
Fotografias: Bob Wolfenson
Design Gráfico: Izabel Menezes
Diretor Assistente: Victor Mendes
Direção de Movimento: Fabrício Licursi
Direção de produção: Rafael Rosi
Coordenação de Produção: Luciana Fávero
Produtores associados: Gabriel Leone e Samya Pascotto
Produtor Executivo: Diogo Pasquim
Produção: Art’n Company, Substância Filmes e Viva do Brasil

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