Orides de Lourdes Teixeira Fontela (1940-1998) foi professora, filósofa e poeta paulista. Embora pouco conhecida de parte do público, ela foi reconhecida pela crítica mesmo antes de publicar o seu primeiro livro na década de 1960. Em 1983, conquistou o Prêmio Jabuti com o livro “Alba” e, em 1996, recebeu o prêmio pela Associação Paulista dos Críticos (APCA) com a obra “Teia”. Na época, sua poesia foi apresentada ao professor e crítico literário Antonio Candido por Davi Arrigucci Junior, conterrâneo e amigo de Orides.
No livro Alba, Antonio Candido escreveu no prefácio: “Um poema de Orides Fontela tem o apelo das palavras mágicas que o pós-simbolismo destacou, tem o rigor construtivo dos poetas engenheiros e tem um impacto por assim dizer material de vanguarda recente. Mas não é nenhuma destas coisas, na sua integridade requintada e sobranceira; e sim a solução pessoal que ela encontrou. Parecendo tão inseridos numa certa evolução da poesia moderna, e sendo tão originais como invenção, os seus versos possuem em geral uma carga de significado que não é frequente”.
Sua poesia é marcada pela concisão e densidade filosófica. Publicou os títulos: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Posteriormente, seus poemas foram reunidos em Poesia Reunida: 1969-1996 (2012), Poesia completa (2015) e Poemas escolhidos (2021), organizado por Rodrigo Ribeiro Neves. Além disso, Patrícia Lavelle e Paulo Henriques Britto organizaram a antologia “O nervo do poema: antologia para Orides Fontela” (2018), que engloba seus poemas e faz releituras de outros autores. Já o livro “Orides Fontela: toda palavra é crueldade” (2019), Nathan Matos revela depoimentos, resenhas e entrevistas da poeta.
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Entre premiações e produções, destacam-se também: a Medalha da Ordem do Mérito Cultural, na categoria Grã-Cruz, do Ministério da Cultura; o documentário ‘‘Orides: A um passo do pássaro”, em 2000, do diretor Ivan Marques, em 2015, foi publicada a bibliografia ‘‘O enigma de Orides’‘, que reúne 22 poemas inéditos descobertos durante a pesquisa de Gustavo de Castro, jornalista e professor da Universidade de Brasília (UnB).
“Muitos a viam como uma continuidade do modernismo de João Cabral de Melo Neto, outros, como uma renovadora da fase heroica do movimento, e outros ainda, como uma voz necessária em um período em que já se esboçava um esgotamento das vanguardas dos anos 1950.” (Rodrigo Ribeiro Neves em Poemas escolhidos)
Fazendo parte da mesma geração de Paulo Leminski, Hilda Hilst e Adélia Prado, permaneceu à margem dos circuitos literários consagrados e enfrentou dificuldades financeiras e depressão. Este ano ela será a homenageada na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Além de sua obra ganhar novas edições, o evento propiciará maior visibilidade, atraindo mais leitores.
Confira alguns poemas selecionados:
Transposição
Na manhã que desperta
o jardim não mais geometria
é gradação de luz e aguda
descontinuidade de planos.
Tudo se recria e o instante
varia de ângulo e face
segundo a mesma vidaluz
que instaura jardins na amplitude
que desperta as flores em várias
coresinstantes e as revive
jogando-as lucidamente
em transposição contínua.
Fala
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)
Sob a língua
Sob a língua
palavras beijo alimentos
alimentos beijos palavras.
O saber que a boca prova
O sabor mortal da palavra.
Herança
O que o tempo descura
e que transfixa
o que o tempo transmite
e subverte
o que o tempo desmente
e mitifica.
Iniciação
Se vens a uma terra estranha
curva-te
se este lugar é esquisito
curva-te
se o dia é todo estranheza
submete-te
— és infinitamente mais estranho.
Teia
A teia, não
mágica
mas arma, armadilha
a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente
a teia, não
arte
mas trabalho, tensa
a teia, não
virgem
mas intensamente
prenhe:
no
centro
a aranha espera.
Memória
A cicatriz, talvez
não indelével
o sangue
agora
estigma.
Nunca amar
o que não
vibra
nunca crer
no que não
canta.
O espelho dissolve
o tempo
o espelho aprofunda
o enigma
o espelho devora
a face.
Teologia I
Não sou um Deus, Graças a todos
os deuses!
Sou carne viva e
sal. Posso morrer.
Teologia II
Deus existir
ou não: o mesmo
escândalo.
Poema
Saber de cor o silêncio
diamante e/ou espelho
o silêncio além
do branco.
Saber seu peso
seu signo
— habitar sua estrela
impiedosa.
Saber seu centro: vazio
esplendor além
da vida
e vida além
da memória.
Saber de cor o silêncio
— e profaná-lo, dissolvê-lo
em palavras.