Nouvelle Vague (2025) mostra que imitar o homenageado não torna a homenagem mais interessante

Filme francês de Richard Linklater retrata um nada carismático Jean-Luc Godard no momento em que deixa de ser crítico da Cahiers du Cinéma para estrear como diretor em uma das obras mais importantes do cinema.

“Nós controlamos os pensamentos, que não significam nada. Mas não controlamos as emoções, que significam tudo”. Para gravar um dos últimos takes do filme Acossado (1960), essa é a orientação que Jean-Luc Godard faz à atriz estadunidense Jean Seberg que, em mais uma de diversas vezes, não concordava com o que o cineasta francês idealizava para a cena.

De fato, Godard tinha certo deslumbramento pela impossibilidade de controle do presente e pela aleatoriedade da realidade, mas não sabemos se ele realmente fez essa afirmação impactante, embora ela seja uma das falas mais memoráveis do personagem do diretor em Nouvelle Vague (2025), de Richard Linklater. E concordando ou não com a declaração, há um pensamento que não se pode controlar em relação a este filme: “Jean-Luc Godard era um chato que só se comunicava com frases feitas”.

Veja também: 15 frases inesquecíveis de Jean-Luc Godard

Linklater é um diretor norte-americano de talento inquestionável; inclusive, sua obra deveria ter maior reconhecimento. A trilogia Before foi capaz de conquistar de adolescentes a adultos até hoje, e a forma como ele acompanha os personagens por 13 anos – em tempo real, com os mesmos atores – em Boyhood segue memorável. Sua habilidade para extrair poesia do improviso é única. Especialmente por isso, Nouvelle Vague destoa bastante de suas outras produções, até mesmo da que saiu também em 2025, Blue Moon, pela qual o excelente Ethan Hawke foi indicado ao Oscar de Melhor Ator.

Nouvelle Vague é um filme-homenagem que logo se revela não mais que uma lista do que se sabe sobre Godard e sobre o importante momento do cinema que ele foi essencial para consolidar. Absolutamente metalinguístico, o longa é gravado em Paris, com elenco francês, à exceção da atriz que interpreta Jean Seberg, em proporção 1.37:1, em preto e branco.

A trama se desenvolve no momento em que Jean-Luc Godard conquista a confiança do produtor Georges de Beauregard e deixa de ser apenas um crítico na revista Cahiers du Cinéma para se tornar diretor e realizar seu primeiro filme, Acossado, que viria a ser uma das obras mais importantes da história do cinema e do próprio movimento da Nouvelle Vague.

Importante para o período da “nova onda” do cinema francês, pela lente de Linklater, Godard se revela bastante rígido quanto a ser fiel aos próprios impulsos, embora o movimento se caracterize pela ruptura com os antiquados métodos e protocolos dos grandes estúdios. Guillaume Marbeck interpreta o protagonista sem qualquer carisma, seu único poder de convencimento, tanto na fase de crítico quanto na de diretor, é repetir citações de gênios que vieram antes dele, hábito que, inclusive, é criticado em cena pela personagem de Jean Seberg. A implicância da atriz pelo diretor é uma das únicas emoções genuínas que o filme desperta.

Emular as técnicas do homenageado não agrega valor à homenagem, pelo menos no caso de Nouvelle Vague. Se a montagem tentou reproduzir os cortes secos de Godard, a tática aplicada com a rapidez em que o filme se movimenta só torna o espectador consciente de que este é um filme bastante americano e nostálgico sobre uma vanguarda francesa de um passado idealizado. Contudo, se essa é uma escolha intencional, o filme chega a momentos divertidos que nos fazem pensar sobre o cinema e a arte da época com sensibilidade maior para o que os fazia tão originais.

Apresentando o diário de filmagem de Acossado, Linklater novamente trabalha com suas noções de tempo real, mas sem se prolongar em conversas mais profundas ou simplesmente diálogos triviais que acabam revelando particularidades do personagem e do próprio espectador. Todo o texto parece muito direto e encarregado de cumprir o papel de apresentação de alguma faceta do período ou do cineasta e, assim, Linklater nos fica devendo justamente o charme que diferencia seus outros filmes.

Hoje, além de ser precedido por todos os grandes autores e produções históricas, o cinema tem diversas referências e, principalmente, acesso a elas. Por isso, é difícil ou quase impossível criar uma nova onda tão impactante como foram as vanguardas do século XX, quando a equipe técnica e os próprios cineastas não conheciam outras obras, pois tiveram que combater no Vietnã ou nas duas grandes guerras. Se Nouvelle Vague se aprofundasse nas próprias questões e até deixasse um pouco de lado a metalinguagem para fazer uma reconstrução em cores e CinemaScope, poderia ser mais ousado e encantador.

Minha nota para Nouvelle Vague no Letterboxd: 2 estrelas e meia.

Nouvelle Vague (2025)

Direção: Richard Linklater

Duração: 1h46

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