O cinema de gênero floresce também no Brasil. Para confirmarmos essa afirmação, primeiro precisamos saber o que é esse tal “cinema de gênero”: é todo filme que se encaixa perfeitamente numa categoria, ou gênero cinematográfico. Nosso exemplo de hoje diz respeito ao cinema de horror.
Um dos maiores nomes no cinema de gênero brasileiro sem dúvida é Gabriela Amaral Almeida, que teve três filmes seus, e mais um quarto em co-direção, entre os 100 melhores filmes de cinema fantástico brasileiro em votação da Associação Brasileira de Críticos De Cinema em 2021. Depois de obras-primas como “O Animal Cordial” e “A Sombra do Pai”, era de se esperar que o próximo passo de Gabriela como diretora fosse seguido de perto pelos cinéfilos. E ela deu esse passo com uma incursão por um mundo real e extremamente angustiante com “Quarto do Pânico”, cujo título já diz tudo que nele vamos encontrar.
Depois do trauma de ver o companheiro baleado e morto num assalto ao carro deles, Mari (Isis Valverde) parece estar pronta para recomeçar. E ela recomeça com um grande gesto: compra uma casa enorme com piscina e o diferencial: um quarto do pânico completo com paredes de aço, circuito de câmeras de segurança e uma bateria própria de longa duração. E é justo na primeira noite em casa que Mari e a filha Bel (Marianna Santos) precisarão usar o cômodo.
Os ladrões Charly (Marco Pigossi) e Benito (André Ramiro) contam com a ajuda do falso vigilante Raul (Caco Ciocler) para entrar na casa. Eles não contavam com a presença de mãe e filha no recinto, mas Charly diz que é um imprevisto contornável. A situação que já é crítica fica ainda pior conforme os níveis de açúcar no sangue de Bel, que é diabética, oscilam e elas não têm como pegar a insulina ou algum alimento.
Benito foi levado para a criminalidade porque precisa de dinheiro para custear um tratamento médico para o filho. Ele conhece intimamente a casa e o quarto do pânico, porque ele próprio costumava projetar cômodos incapazes de serem abertos por bandidos. É Benito também o único que sabe abrir o cofre, embora tenha sido Charly que pegou a “dica” de que havia uma fortuna na casa. É com Charly, aliás, que o crime toma o rumo com requintes de crueldade.
Os astros de “Quarto do Pânico” se encontram em momentos distintos de suas carreiras. Isis Valverde estreou na televisão aos 19 anos e fez seu primeiro filme em 2013. Ela acaba de ser indicada ao Framboesa de Ouro como Pior Atriz Coadjuvante por seu papel em “Código Alarum”. Marianna Santos interpretou em 2024 a protagonista da novelinha infantil da Netflix “Luz”. O trio masculino de atores tem bastante relevância em especial na TV, embora André Ramiro tenha para sempre sua ligação com cinema por ter feito “Tropa de Elite”.
O filme depende muito dos close-ups no rosto de Isis Valverde, que provam que nem a mais bela das beldades consegue fazer uma cara de choro ficar bonita na câmera. O contraste dos cabelos castanhos bem escuros com o rosto branco, praticamente pálido, da atriz gera empatia e dramatiza o absurdo do ato de a vítima, enquanto está sofrendo um ato de violência, ser ainda chamada de “vadia” pelos seus algozes.
Filmes claustrofóbicos sobre crimes existem desde tempos imemoriais – ou melhor, desde o Primeiro Cinema. Encontramos mocinhas esgoelando em quartos alvejados por bandidos já com as irmãs Gish e D.W. Griffith em 1912, com “An Unseen Enemy”. Mas tais atrocidades demorariam para voltar às telas graças ao Código Hays, que exigia suavidade e discrição. Por isso, veremos outros filmes claustrofóbicos só nos anos 60, também protagonizados por mulheres em apuro, como “A Dama Enjaulada” (1964), com Olivia de Havilland, e “Um Clarão nas Trevas” (1967), no qual Audrey Hepburn faz uma mulher cega cuja casa é invadida. Esses filmes eram a mistura entre o cinema clássico que arrefecia, com suas estrelas como vítimas de algozes interpretados pelos novatos que se tornariam grandes astros.
Qualquer semelhança não é mera coincidência: o filme de Gabriela Amaral Almeida é sim um remake do filme de 2002 de David Fincher. E talvez aí resida seu maior problema: se um remake de um filme hollywoodiano por si só já é desnecessário, por que fazer uma diretora tão autoral e criativa como Gabriela assumir um projeto que já nasce, se não natimorto, respirando com ajuda de aparelhos? A própria diretora responde: como, infelizmente, a violência é um problema universal, este filme sobre luta de classes funciona em qualquer realidade – e também se for adicionado o quase mítico “toque feminino”.
No filme de David Fincher, mãe e filha são interpretadas respectivamente por Jodie Foster e Kristen Stewart e os três invasores são Forest Whitaker, Jared Leto e Dwight Yoakam. O remake é bastante fiel ao original, mas uma mudança crucial é que no filme de 2002 o marido da protagonista não foi morto, eles apenas estão se separando. Tornar a ausência mais dura e irreversível deu força ao remake e também permitiu a existência de mais um personagem, o pai de Mari, interpretado por Leopoldo Pacheco. No filme de Gabriela Amaral Almeida, também há uma explicação para Benito ter aceitado fazer parte do crime, algo que não existe com seu contraponto interpretado por Whitaker: ajudar num tratamento médico do filho. Bem, considerando as diferenças de um contexto brasileiro para um norte-americano, temos de acreditar que é algo que não é coberto pelo SUS.
O quarto do pânico sendo um útero. Mari como a fênix que renasce do fogo, literalmente, e é uma mãe leoa para sua Bel. O medo primordial e universal das mulheres de serem violadas. A violência entre o masculino e o feminino. Ingredientes que, sabiamente misturados, deram um toque de brasilidade a uma receita de filme que chegou pronta para Gabriela Amaral Almeida, que com seu “Quarto do Pânico” consolida sua fama de grande diretora de cinema – de qualquer gênero.
“Quarto do Pânico” estreia em 13 de fevereiro no streaming do Telecine. Confira o trailer: