Delicadeza e força em “Nobelina”, romance de Cibele Laurentino

Nobelina, personagem que dá o título do romance de Cibele Laurentino publicado pela Editora Reformatório, é uma jovem humilde que mora no interior do nordeste paraibano. Filha de Seu Narciso e Dona Guilhermina, um casal de agricultores, a moça foi criada em um ambiente conservador, aprendendo os afazeres domésticos para se tornar uma esposa exemplar.

O que todos não sabiam, no entanto, era que Nobelina tinha sonhos maiores: desejava ser professora, conhecedora do saber para mudar a comunidade na qual estava inserida. Embora os obstáculos sejam muitos, a nordestina decide ir contra os fundamentos da sociedade, assim como as leis rígidas de seu pai, e começa a estudar escondida. O que não esperava era que conheceria Lula, um jovem matuto e sem estudos, despertando nela a paixão e o desejo de se casar. Nos resta saber se Nobelina vai escolher seu futuro promissor ou o destino que sempre lhe foi imposto.

Bárbara Antunes afirma que “Cibele Laurentino constrói um romance de forte viés regionalista e social, ancorado no sertão paraibano, mas atravessado por questões universais como o direito ao sonho, a educação como ferramenta de emancipação e o conflito entre desejo individual e tradição. A autora apresenta uma protagonista que, embora situada em um contexto histórico e cultural específico, ecoa a trajetória de muitas mulheres silenciadas por estruturas patriarcais profundamente enraizadas.

Nobelina é filha de agricultores e cresce sob a rigidez moral de um pai autoritário e de uma mãe moldada pela resignação. Desde cedo, aprende que seu destino está traçado, casar-se, cuidar da casa e obedecer. No entanto, o romance se fortalece justamente na fratura desse destino imposto.

A jovem carrega um desejo silencioso, quase subversivo, de estudar e tornar-se professora, entendendo o saber como possibilidade de transformação pessoal e coletiva. Ao estudar às escondidas, Nobelina não desafia apenas o pai, mas um sistema social inteiro que restringe o acesso das mulheres ao conhecimento.

A narrativa de Cibele Laurentino se destaca pela sensibilidade com que aborda essas tensões. Não há maniqueísmo fácil. O pai não é apenas um vilão, mas a representação de uma cultura conservadora. A mãe, embora aparentemente submissa, encarna a herança de gerações de mulheres privadas de escolha. A autora demonstra maturidade ao retratar esse universo sem caricaturas, respeitando suas contradições.

O conflito central se intensifica com a chegada de Lula, jovem simples, analfabeto, mas dotado de afeto e humanidade. A relação amorosa entre Nobelina e Lula introduz um dilema potente, escolher o amor e o casamento, símbolos de pertencimento social, ou persistir no sonho de um futuro que rompe com as expectativas impostas. Esse embate confere densidade psicológica à protagonista e impede que a obra se reduza a um discurso panfletário. Ao contrário, o romance se constrói na ambiguidade, mostrando que as escolhas femininas, sobretudo em contextos de vulnerabilidade, raramente são simples.

Leia também: As cicatrizes deixadas por mães narcisistas em “Eu, Inútil”, de Cibele Laurentino

Do ponto de vista estético, Nobelina aposta em uma linguagem acessível, marcada pela oralidade e por imagens do cotidiano sertanejo, o que reforça a verossimilhança da narrativa. A paisagem nordestina não surge como mero pano de fundo, mas como elemento estruturante da identidade das personagens, dialogando com a tradição da literatura regionalista brasileira, ainda que com um olhar contemporâneo e feminino.

É uma obra que conjuga delicadeza e força. Ao narrar a história de uma jovem que ousa desejar mais do que lhe foi permitido, Cibele Laurentino contribui para o debate sobre educação, gênero e autonomia, reafirmando a literatura como espaço de resistência e reflexão. Trata-se de um romance que emociona não pelo excesso de drama, mas pela verdade humana que sustenta sua protagonista, uma mulher que, entre o amor e o saber, representa tantas outras que ainda lutam para escrever o próprio destino.”

Nas palavras de Maria Valéria Rezende, que assina a orelha do livro: “ao abrir estas páginas, você se transportará para a varanda, para um círculo de cadeiras instaladas na calçada, ou, se fizer frio, para os tamboretes em torno do fogão de uma casa simples, no interior do Nordeste. Aí poderá experimentar um momento que se vai fazendo raro: alguém que sabe contar histórias, entretendo seus ouvintes com relatos que, de certo modo, são experiências vividas e então revividas por todos, fortalecendo laços e alimentando uma comunidade solidária.

Amenizará a saudade, para os que já estávamos aqui no século passado e hoje sentimos falta desse convívio, agora que varandas, calçadas ou cozinhas, quase sempre, são espaços de silêncio, ocupados apenas por indivíduos emudecidos e fechados, cada um, em uma traquitana eletrônica. Para os mais jovens, é uma oportunidade de recuperar a arte da convivência que pode nos salvar.”

Sobre a autora:

Cibele Laurentino é ativista cultural nascida em Campina Grande, Paraíba. Bacharel em Letras, formada em Gestão em Turismo, dedica-se à literatura e atua na divulgação de obras e autores contemporâneos e estuda escrita criativa. Membro da Academia de Letras de Campina Grande e da UBE – PB, idealizadora e curadora do Clube de Leituras da Nordestinas, é autora dos livros Cactus (poesias); Nobelina (romance com proposta regionalista, que chega à sua segunda edição pela Editora Reformatório); Todas em mim (contos), traduzido e comercializado em espanhol pelo grupo editorial Caravana; Eu, Inútil, romance premiado como melhor obra de ficção em Portugal no prêmio Ases da Literatura.

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